Saturday, 20 February 2021

SEGURANCA E A QUARTA INTERNACIONAL - SYLVIA AGELOFF E O ASSASSINATO DE LEON TROTSKY PARTE 2 de Eric London wsws.org 05 fevereiro 1921

Esta serie de artigos constitui a primeira investigacao sistematica pelo movimento trotskysta do papel de Sylvia Ageloff e continua o trabalho de investigacao do Comite Internacional de Seguranca  da Quarta Internacional e sera publicado em 4 partes.

PARTE 2 - VERAO DE 1938: SURGEM CONTRADICOES NA HISTORIA DE MONARD ENQUANTO ELE FINANCIA A ESTADIA DE AGELOFF

Em seu livro de 2015, Ramon Mercader: O homem do Piolet, Eduard Puigventos Lopes escreveu: "Um dia, Jac [Jacques Mornard] disse a Sylvia que ele teve que voltar subtamente para Belgica porque seus pais haviam sofridos um acidente (embora isso contradisse o fato que ele havia dito que seu pai teria falecido em 1926...)"[31]

Em julho de 1938, justamente quando Rudolf Klement havia desaparecido em Paris, Monard interrompeu o contato com Ageloff sob o pretexto de ter que viajar para Bruxelas. Digno de atencao, Ageloff diria mais tarde a policia: "Ela tambem foi a Bruxelas por sua livre espontanea decisao, e embora tivesse enviado um telegrama a Jackson, com a proposta de encontra-lo la, porem ela nao o encontrou, tudo isso acontecendo em agosto de 1938."[32]  A ocasiao do desaparecimento de Ageloff de Paris coincidiu com o momento em que a policia estava procurando o corpo de Klement e o movimento trotskista investigava o papel da CPU em seu desaparecimento.

Em Paris, Ageloff nunca conheceu nenhum dos amigos de Monard, mas ela o apresentou aos seus contactos no movimento trotskysta. No depoimento de Angeloff a policia mexicana, ela  disse que ele "suspendeu as relacoes" com seus amigos. O relatorio policial continuou: "Ele frequentava apenas o mesmo grupo de amigos que a declarante [Ageloff], seus camaradas norte americanos e franceses.[33]

Monard comecou a pagar Ageloff pelo trabalho de traducao. Marie Craipeai, esposa do entao influente trotskysta frances Yvan  Craipeau, que era muito proximo de Ageloff quando ela estava na Franca, ficou desconfiada. Craipeau explicou mais tarde: "Surpreendentementre, ele propos que ela traduzisse artigos sobre psycologia do ingles para o frances  para uma agencia, e eu ajudei Sylvia a datilografar seus textos.Recebemos um bom salario por isso. Mas tarde, um dia, quando estavamos trabalhando, parei de repente com meus dedos no teclado e disse a ela: Escute, Sylvia, isso nao faz sentido. Nao existem empregos como este tao bem pagos. Entao ficamos sentados na cama, acendendo um cigarro como faziamos, e analisamos. Ele nao estava interessado em politica...Ele nao participou das nossas discussoes...E dai? Achavamos que ele estava tao apaixonado, que ele nao queria que ela fosse embora. Essa foi a nossa conclusao".[34]

Mais tarde, no verao, Monard propos que Ageloff assumisse outro emprego, desta vez escrevendo artigos de psicologia para uma empresa chamada "Argus Press". Nesse trabalho, Ageloff recebia 3.000 francos por mes diretamente de Monard, nao atraves da propria empresa, e nao tinha permissao para saber onde os artigos  foram publicados ou le-los em sua forma final.[35]

O autor Gregorio Luri (O ceu prometido: Uma mulher a servico de Stalin) explicou: "Nao havia psicologo na Franca que recebesse essa quantia, por mais famoso que fosse. Mas Sylvia nao suspeitou nada."[36] Luri acrescentou: "Se analisarmos os fatos com frieza, ou seja, de forma desapaixonada, o que, obviamente, Sylvia, nao o era, descobrimos rapidamente que os fatos que Ramon lhe contava sobre si mesmo nao eram coerentes".[37]

JULHO-SETEMBRO DE 1938: AGELOFF APRESENTA MONARD AOS DELEGADOS NA EUROPA QUE PARTICIPAM DA PROXIMA CONFERENCIA DE FUNDACAO DA QUARTA INTERNACIONAL

Ageloff viajou para Europa para ajudar nos cuidadosos preparativos do movimento trotskyistas internacional para sua conferencia de fundacao em Paris. A conferencia foi inicialmente agendada para o momento em que Ageloff chegasse a Franca, mas foi adiada ate o inicio de setembro devido as crescentes preocupacoes com a seguranca.

Na preparacao para a conferencia, a campanha da GPU contra  o movimento trotskysta atingiu o auge. Em julho, logo apos a chegada de Ageloff a Paris, a GPU assassinou Rudolf Klement, secretario da Quarta Internacional, cujo corpo foi mais tarde levado as margens do rio Sena com a cabeca e membros decepados. Pouco antes do desaparecimento de Klement, a GPU havia roubado a mala de Klement que continha documentos relacionados aos planos para a conferencia de fundacao.

 Era do conhecimento dos trotskyistas franceses proximos de Klement que ele era homosexual. Eles acreditavam que um homem com quem ele havia iniciado um relacionamento intimo era, na verdade um agente da GPU que ajudou a armar o assassinato.[38] Embora isso expusesse o metodo da GPU de atrair vitimas por meio de relacionamentos pessoais, Ageloff nao apenas continuou seu relacionamento com o desconhecido Monard, ela logo o apresentou aos lideres trotskystas que se preparavam para participar da conferencia de fundacao da Quarta Internacional.

Em seu julgamento criminal no Mexico, Mercader testemunhou que Ageloff o apresentou a "Yvan", uma referencia a Yvan Craipeau, que era um delegado da conferencia e de quem ele estava  proximo, suficientemente para chama-lo pelo primeiro nome.  Ele continuou: "Em setembro de 1938 eu ja sabia que Sylvia Ageloff era trotskyista e tinha relacoes com trotskyistas e era membro do partido trotskyista, embora nese ultimo ponto nao me lembro se Sylvia o havia dito especificamente; e ocasionalmente,  as vezes apenas com Sylvia e as vezes com seus amigos ou camaradas, faziamos numerosas excursoes, iamos ao Chateau Theyry[sic] para Verdun, para Metz, Touts, Blois, Chartres, Dasuville, etc e entre aqueles camaradas que eram amigos trotskyistas  de Sylvia, lembro-me de Manni, Waltha, Naty, Frank, Elisabeth e outros. [39]

Relatorios do FBI nas semanas apos o assassinato de Trotsky mostram que informantes confidenciais relataram que Mornard-Mercader "havia sido convidado para jantar na casa de Manuel Garret, um  representante norte americano na conferencia de fundacao em setembro.[40] Este foi o "Manni" a quem Mercader se referiu em seu depoimento no Mexico.

O "Naty" referido por Mercader foi o trotskyista norte americano Nathan Gould, que tambem participou da conferencia de fundacao como representante do Partido Socialista dos Trabalhadores/SWP.

Ageloff tambem estava ligada a Mark Zborowski.

De acordo com o exgeneral sovietico e historiador russo Dmitri Volkogonov, cujo acesso aos arquivos restritos da GPU dava lhe uma visao privilegiada das atividades da policia secreta stalinista na Europa naquela epoca, Ageloff era conhecida por Zborowski por meio de seu trabalho conjunto no secretariado."[41]

O livro de historia francesa grafica nao ficcao de Gani Jakupi, Les Amants de Sylvia, publicado em 2010 baseia extensamente em entrevistas com Marie Craipeau e afirma que Zborowski estava presente quando Weil e Ageloff foram apresentados a "Monard".[42]. Em seu depoimento confidencial de 1956 para o Subcomite do Senado dos EUA sobre o Escopo da Atividades Sovietica nos EUA, Zborowski admitiu ter conhecido Ageloff, embora ele evasivamente alegasse perda de memoria e nao desse detalhes adicionais.[45]

SETEMBRO DE 1938: AGELOFF CONVIDA MONARD PARA A CONFERENCIA DE FUNDACAO DA QUARTA INTERNACIONAL

Quando a conferencia foi aberta no inicio de setembro em uma propriedade suburbana de Paris pertencente a Alfred e Margarite Rosmer, Ageloff estava la como tradutor de russo, trabalhando com Zborowski, o delegado que representava a seccao russa da oposicao.

O historiador Robert Jackson Alexander descreveu as condicoes de risco de vida sob as quais o evento ocorreu e explicou as precaucoes de seguranca tomadas para a conferencia de fundacao: "A reuniao que formalizou a constituicao da Quarta Internacional teve lugar no auge da crise de Munique, num momento em que parecia iminente a ameaca  de uma nova guerra mundial. Os trotskyistas tiveram que tomar medidas extremas de segurancas para  garantir o cumprimento seguro de sua missao. Eles tiveram que se  proteger nao apenas da possivel interferencia da policia francesa, mas, mais importante, dss tentativas  da GPU sovietica de interromper a reuniao e talvez matar alguns ou todos os participantes... Os que participaram da reuniao procuraram ser os mais cautelosos possivel sobre para onde iriam e o que iriam fazer. Assim, eles tomaram uma serie de rotas diferentes de Paris a casa de Rosmer.(...) Por motivo de seguranca, foi necessario que a reuniao nao durasse mais de um dia."[44]

A direcao do movimento estava tao preocupada em expor as viagens dos delegados e a seguranca dos anfitrioes que "apos o encerramento da reuniao, foi anunciado que a Conferencia de Fundacao da Quarta Internacional havia sido realizada em algum lugar da Suica:.[45]

Apesar dos perigos frequentados pelos delegados, Ageloff levou Monard ao local da conferencia, e o futuro assassino de Trotsky ficou sentado do lado de fora do patio durante todo o tempo, observando os participantes e conversando com eles durante os intervalos.

Luri escreveu: "Sylvia participou desta reuniao como tradutora. Ramon a acompanhou ate a casa dos Rosmer, mas tendo dito a ela que nao tinha o menor interesse nas discussoes politicas que aconteciam la dentro,  limitou-se a espera-la no jardim e a conversar nos intervalos sobre temas irrelevantes com os participantes. Ele achou facil se relacionar com estranhos."[47]

Puigventos explicou da mesma forma que Monard "ficava no jardim, fumando e passando o tempo. Ele conheceu varios delegados, porque era amigos de sua namorada...[47]

A GPU teve a conferencia de fundacao "coberta". Todos os delegados internacionais voltaram para seus paises de origem e a GPU informou prontamente seus espioes e  assassinos locais.

A decisao de Ageloff de trazer Monard a conferencia foi uma violacao irresponsavel de seguranca que deveria ter resultado em sua expulsao do partido. Tragicamente, o Partido Socialista dos Trabalhadores/SWP, refletindo a imaturidade do movimento dos trabalhadores norte americanos, permitiu que tais incidentes passassem sem nenhuma suspeita. Essa fraqueza politica teria consequencias devastadoras para a seguranca pessoal de Leon Trotsky.

Tendo assassinado muito dos aliados mais habeis de Trotsky na Europa Ocidental e com Trotsky cada vez mais isolado no Mexico, a atencao da GPU mudou para o outro lado do Atlantico, onde uma rede de agentes na cidade do Mexico e Nova York se aproximou cada vez mais  de Trotsky. O Partido Socialista dos Trabalhadores , agora a principal organizacao responsavel pela sobrevivencia fisica de Trotsky, estava politicamente despreparada para essa ameaca. 

Varios meses apos a conferencia de fundacao, no inicio de 1939, Ageloff voltou aos EUA. Ela havia se tornado um componente importante da conspiracao da GPU para assassinar Trotsky.

SETEMBRO DE 1939: MONARD MUDA DE IDENTIDADE E VIAJA ILEGALMENTE PARA NOVA YORK

Quando Monard chegou em Nova York no navio passageiro lle de France em 3 de setembro de 1939, a fase proxima da campanha da GPU estava bem encaminhada. Ele nao usaria mais o nome de "Jacques Monard" e passaria ser conhecido como "Frank Jacson". Ele estava usando um passaporte canadense falso, disse ele, e afirmou que estava fugindo do recrutamento para as forcas armadas belgas. Mais tarde ficaria sabendo que a GPU havia fornecido a ele o passaporte de Tony Babichm um voluntario canadense que morreu na Guerra Civil Espanhola.

Nao era facil emigrar da Europa para os EUA nessa epoca. Com a invasao da Polonia por Hitler em 1 de dezembro de 1939, muito milhares de pessoas tentaram deixar Europa, mas nao puderam entrar nos EUA devido as serias restricoes a imigracao do governo Roosevelt. Apenas tres meses antes, o governo dos EUA  recusou permitir que 900 refugiados judeus alemaes do HMS St Louis desembarcassem nos EUA.

Apos o assassinato de Trotsky, o FBI descobriu que "Frank Jacson" foi capaz de entrar nos EUA naquele momento por meio de "Ordem Executive". Um relatorio do FBI dizia: "Ele foi autorizado entrar nos EUA por meio de do que e conhecido como "uma ordem executiva", o que aparentemente significa que ele foi liberado por ordem vinda do centro do Servico de Imigracao em Washington DC"[48]. Edgar Hoover prontamente encaminhou esse relatorio ao secretario de Estado adjunto Adolf Berle e ao contra-almirante Walter Anderson, chefe da Inteligencia Naval.[49] Nao ha mais registros publicos sobre o significado da "Ordem Executiva" de Monard ou como ele obteve essa ordem enquanto viajava com o passaporte falso de um membro morto do Partido Comunista Canadense. 

Em Nova York, Ageloff apresentou "Jakson" a seus companheiros do SWP. Uma dessas pessoas foi Lilliam Pollack, que descreveu Ageloff em uma entrevista de 2011 como "uma das minhas melhores amigas". Pollak que estava no SWP e tambem visitou Trotsky no Mexico, suspeitou imediatamente de Jacson-Monard: "Ele veio visita-la e, no dia que ele chegou, um amigo meu e eu fomos ate onde eles (estavam hospedados) e ele estava sentado do lado de fora sozinho. Eu disse ao meu amigo: "Vamos dar uma passada...."Quando  passamos por ele, eu disse: "ele tinha uma expressao tao negra que me assustou" Esse e o cara que veio da Europa para ver a namorada? Comecei a cantar essa musica do Fred Astaire e Ginger Rogers, era muito popular - "Um romance estranho, meu amigo, isto e/Um romance estranho, sem beijos."[50]

Pollak, que permaneceu amiga de  Ageloff ate a morte da ultima em 1995, escreveu um livro de memorias/romance autobiografico em 2008 intitulado The Sweetest Dream: Love. Lies, and Assassination, que apresenta uma personagem chamada Sylvia Ageloff. Ela escreveu que enquanto os tres estavam em Nova York em 1939, Ageloff disse a Pollack que Jacson-Monard "foi comigo a casa de Rosmer quando tivemos a quarta  reuniao internacional, so que ele ficou de fora e nao quis entrar, queria que ele conhecesse Schchtman, Cannon e Etienne..."Ela disse, sugerindo um relacionamento mais proximo com Zborowski e um desejo de facilitar a introducao de Jacson-Monard aos lideres do SWP.[51]

Jacson-Monard ficou nos Estados Unidos por um breve periodo e depois foi para a cidade do Mexico. Em dezembro de 1939, Ageloff recebeu uma carta de um medico dizendo que ela tinha um problema de sinusite que exigia um clima mais quente. [52]

O historiador Bertrand Patenaude acreditava que aquilo era uma farsa. "A medida que as ferias de Natal se aproximava, Sylvia simulou ficar doente para abandonar seu trabalho como assistente social na cidade de Nova York, fiando-se num atestado medico que dizia que ela sofria de sinusite e precisava de um clima mais quente pra se recuperar. "[53] Puigventos afirmou da mesma forma que "Sylvia afirmou da mesma forma que "Sylvia explicou isso, anos depois, insinuando que ela havia exagerado sua dor para ter uma boa desculpa para ir visitar Jacson."[54[

Seu pedido de licenca do trabalho foi atendido e ela viajou para o Mexico em Janeiro. O circulo da GPU estava se aproximando de Trotsky no Mexico. O ano de 1940 seria o seu ultimo.

JANEIRO DE 1940: AGELOFF E JACSON-MONARD SE REENCONTRAM NA CIDADE DO MEXICO; ELE E APRESENTADO A FAMILIA TROTSKY MEXICO

Ageloff chegou na cidade do Mexico, onde uma rede  de agentes da GPU havia se instalado.Pouco depois de sua chegada, Ageloff comecou visitar  o complexo de Trotski, usando o relacionamento que suas irmas haviam desenvolvido com Trotsky e sua esposa Natalia Sedova para se integrar como uma "amiga" da familia.

Em 1950, o chefe do servico secreto da policia da Cidade do Mexico, General Leandro Sanches Salazar, em colaboracao com o ex-lider do POUM Juilian Gorkin, escreveu um livro intitulado Murder in Mexico, detalhando o assassinato e aspectos da investigacao mexicana. Um capitulo do livro, escrito por Gorkin, explicou os metodos da GPU para apresentar pessoas como Ageloff e Jacson a familia Trotsky: "Todas as instituicoes do mundo nao bastam para descobrir o agente do inimigo, quando este e apresentado como amigo e camarada. Se assim nao fosse, nao haveria espioes ou agentes provocadores; ou pelo menos nao tanto como eles existem. Todos os servicos policiais os utilizam em abundancia, principalmente em uma epoca como a nossa. Mas ninguem jamais igualou a GPU e a Gestapo na ordem diabolica de preparar seus agentes e de introduzi-los nos lugares mais adequados para o trabalho que vao desempenhar"

E possivel, a este respeito, que a GPU seja melhor qualificada do que Gestapo. Seus agentes nao sao apenas mercenarios atraidos pela isca do lucro ou impulsionados pelo espirito de aventura, mas fanaticos sempre dispostos a sacrificar suas vidas e sua liberdade pelo que imaginam ser seu dever mais rigido. Alem disso, sabem que do cumprimento desse "dever" depende a propria existencia. Nesse sentido, sao espioes constantemente espionados, terroristas sobre os quais pesa constantemente a ameaca do terror. Ha muito tempo existem escolas em Moscow e Leningrado para a preparacao de agentes da GPU destinados ao servico no exterior. Trotsky conhecia bem essa escola, pois ajudou a cria-las.[55]

A "amizade" de Ageloff com a familia Trotsky seguia um padrao de GPU. Em Franca, em 1937, uma unica suica de 29 anos chamada Renata Steiner fez amizade com Lev Sedov e sua esposa, Jeanne Martins des Palliers. Steiner era um agente da GPU, que seguia e informava nao apenas sobre Sedov, mas tambem sobre Ignace Reiss. Os esforcos de Steiner para rastrear Reiss e sua esposa, Elisabeth Porestky, ajudaram a GPU localizar e matar o desertor da GPU em setembro de 1937 nos arredores de Lausanne, Suissa. Porestsky recordou Steiner da seguinte maneira: "[Steiner] deveria se familiarizar com os Sedov, que estavam de ferias em Antibes, no sul da Franca. Nao tinha muito o que fazer para conseguir um visto [para a Uniao Sovietica] e nao era desagradavel. Ela alugou um quarto ao lado dos Sedov. Ela recebeu dinheiro e roupas, e tudo o que ela precisava fazer era relatar os movimentos de Sedov.[56]

E na cidade de Nova York, outra agente da GPU - Sylvia Franklin (nascida Callen) - comecou a trabalhar como secretaria de James P Cannon em 1938. Ela se tornou amiga pessoal de Cannon, e particularmente de sua esposa, Rose Karsnee, que Louis Budenz descreveu como uma "amiga chegada" da agente do GPU.[57]. Por nove anos, Sylvia Franklin passou toda correspondencia da Quarta Internacional da mesa de Cannon para as controladoras dela na GPU em Nova York.

No caso de Ageloff, Luri escreveu que nesses primeiros meses dse 1940, "Sylvia foi varias vezes a casa de Trotsky em Coyoacan. Em sua primeira visita, ela disse que Jackson[sic] havia entrado nos EUA com um passaporte falso, mas ninguem expressou muito interesse por ele e ninguem pediu mais detalhes."[58] 

Entre Janeiro e meados de marco, enquanto Ageloff visitava o complexo, Jacson-Mornard fez suas primeira aparicoes quando deixou Ageloff. Embora ainda nao havia entrado na casa de Trotsky, ele conversou com os guardas de Trotsky e com a policia mexicana do lado de fora. 

Durante esses meses, Ageloff e Jacson-Monard desenvolveram uma relacao estreita com Alfred e Marguerite Rosmer, os anfitrioes da conferencia de fundacao da Quarta Internacional, que agora viviam com Trotsky em Coyacan.

Puigventos explicou: "Sylvia tinha uma relacao muito proxima com os Romer, principalmente com Marguerite, a quem confidenciava suas preocupacoes e duvidas", enquanto "Ramon tornou-se um bom amigo dos Romer tambem". "Eles se viram conversando na porta da casa de Trotsky.(...) Ele ganhou a confianca deles rapidamente, trocaram algumas palavras e convidaram Jacson para comer ou fazer caminhadas.(...) As boas relacoes vinham, sobretudo, por parte de Marguerite, que via Ramon como um rapaz inteligente, atencioso e generoso, um tipo simpatico e muito bonito..[590

O companheiro de Ageloff "comecou a se agraciar com os membros da familia Trotsky" levando e trazendo recados para os Romers e oferecendo seu Buick para ajudar os membros da casa.[60].

Mas Jacson-Mornard ainda nao havia entrado no complexo e ainda nao se dera a conhecer a Trotsky. Ageloff prolongou sua estadia na cidade do Mexico, informando seu empregador que ela ainda estava doente e precisava de mais tempo fora do trabalho. Liri explicou: "Em 26 de fevereiro, Sylvia enviou um telegrafo ao Departamento de Bem Estar Social de Nova York, explicando que, embora sua licenca por doenca expirasse em 1 de marco, ela era obrigada a atrasar seu retorno devido a um agravamento de seu estado de saude. Ela disse que nos proximos dias enviaria um atestado medico. A partir de 1 de marco, ela pediu oficialmente a prorrogaco de seu periodo de licenca por doenca anexando um atestado medico assinado pelo medico A. Zollinger da cidade do Mexico em 24 de fevereiro. Este medico confirmou que sua sinusite estava  piorando e recomendou que Sylvia ficasse em um clima mais quente como o do Mexico por pelo menos mais um mes. E no minimo curioso que ela recorreu ao doutor Zollinger, porque sua especialidade era a ginecologia. Ela foi a medica que ajudou Frida Kahlo com seu aborto durante sua terceira gravidez,[61]

MARCO DE 1940: O INCIDENTE DO EDIFICIO ERMITA

Em marco, ocorreu um incidente que - como Ageloff mais tarde alegou a policia mexicana apos sua prisao - levantou preocupacoes em sua propria mente sobre a natureza das atividades de Jacson-Monard.

Ageloff estava ciente de que Jacson-Mornard mantinha um escritorio comercial, onde afirmava realizar seu trabalho de importacao/exportacao. De acordo com Sylvia, quando ela lhe perguntou onde ficava seu escritorio, ele respondeu que seu endereco era o numero do escritorio 820 no Edificio Ermita, no bairro de Tacubaya.

Ageloff afirmou que, quando seu proprio esforco subsequente para contatar Jacson-Monard por telefone falhou, ela pediu a sua irma, Hilda, que tambem estava na Cidade do Mexico na epoca, para visitar o Edificio Ermita. Hilda era a irma que havia passado tres meses e meio na Uniao Sovietica em 1931.

Luri reproduzindo o relato de Ageloff explicou: "Hilda fez a surpreendente descoberta de que nao havia nenhum quarto 820 no edificio Ermita. Quando ela contou isso para Sylvia, as duas  ficaram tentando encontrar uma explicacao para o fato inesperado. Elas levantaram a hipotese de que Ramon estava  na verdade colaborando secretamentr com o governo britanico...Sylvia contou tudo isso a Margaret Rosmer, incluindo seus temores de que Ramon fosse um agente britanico. Margaret a acalmou.[62]

Ageloff disse que pediu a Jacson-Monard que lhe explicasse por que ele passou um endereco falso. Ele respondeu que o numero era 620,  nao 820, e que ele havia errado. De acordo com as informacoes disponiveis para o advogado de Trotsky e membro do Comite Nacional do SWP, Albert Goldman, Marguerite Rosmer foi ao predio e realmente encontrou um office-boy que lhe disse que aquele era o escritorio de Jacson".[[63]

Nos dias que seguiram apos o atentado contra a vida de Trotsky em 24 de maio, mas bem antes do ataque de agosto, tornou-se publico que a  sala 620 do Edificio Ermita havia sido alugada pelo lider do esquadrao assassino, David Alfaro Siqueiros.[64]

Essa historia bizarra, contada pela propria Ageloff a policia, e extremamente incriminadora. Ela estabelece que Ageloff desenvolveu preocupacoes sobre a credibilidsde de Jacson-Mornard em marco de 1940, cinco meses antes do assassinato. Alem  disso, ela expressou preocupacao com a  possibilidsde dele ser um agente britanico! Se ela nutria essas suspeitas, porque Ageloff continuou seu relacionamento com o homem? A preocupacao de que ele pudesse ser um agente certamente teria levado Ageloff a suspeitar que ela estava sendo usada por Jacson-Monard para algum proposito desconhecido e, com toda a probabilidade criminoso. 

Alem disso, por que - e ela suspeitava que ele pudesse ser um agente - ela considerava apenas a possibilidade de que ele estivesse trabalhando para a inteligencia britanica? Porque a possibilidade muito mais provavel de que Jacson-Mornard pudesse  ser um agente da GPU nao ocorreu a ela?

A afirmacao de que Jacson-Monard pudesse ser um agente britanico teria sido consistente com a posicao ds burocracia stalinista da epoca. Em marco de 1940, o pacto "Hitler-Stalin estava em vigor e a maquina de propaganda global dos stalinistas deixou de retratar Trotsky como agente da Alemanha Nazista e passou denuncia-lo como um agente do imperialismo britanico. O Partido Comunista Mexicano, em particular, estava denunciando Trotsky violentamente e exigindo sua expulsao do pais como "um agente dos servicos de inteligencia ingleses"[65]

A recordacao de Sylvia Ageloff - se e que e verdade - tambem levanta questoes sobre o papel de Marguerite Rosmer. Porque ela "acalmou" Ageloff, em vez de alerta-la fortemente contra manter  um relacionamento com um individuo duvidoso? Porque Rosmer nao informou Trotsky e Natalia sobre as preocupacoes supostamente levantadas por Ageloff sobre seu companheiro pessoal?

Alem disso, a confirmacao, amplamente divulgada na imprensa mexicana apos a tentativa de assassinato de 24 de maio, de que o endereco do Edificio Ermita dado por Jacson-Monard era o mesmo usado por Siqueiros nao poderia ter deixado duvidas de que o amante de Ageloff era um agente stalinista. Apos o assassinato, o trotskyista mexicano Oxctavio Fernandes confirmou que Ageloff nunca disse a Trotsky ou a seus guardas que Jacson-Monard tinha um endereco no edificio Emita, mesmo depois que o endereco de Siqueiros la  se tornou conhecido e seus lacos com a GPU tornarm-se evidentes[66]

Ainda ha outra pergunta: por que Ageloff contou essa historia para  policia mexicana? Ela estava tentando demonstrar, em apoio a sua alegacao de inocencia, que nutria preocupacoes sobre Jacson, mas que havia sido tranquilizada pela politicamente experiente Marguerite Rosmer? As repostas a essas perguntas estao escondidas na complicada teia de mentiras, meias verdades e alibis que foram construidos apos o assassinato.

MARCO DE 1940: AGELOFF COMPARECEU A UM COMICIO STALINISTA COM MERCADER?

Ageloff relatou um segundo incidente a policia apos sua prisao, explicando que ela compareceu a uma reuniao stalinista no centro da Cidade do Mexico no mesmo mes de marco. Luri resumiu o seguinte da declaracao de Ageloff a policia: "No mes de marco, os comunistas mexicanos organizaram uma conferencia no Teatro de Belas Artes com um carater claro antitrotskyista. Sylvia queria ouvir. Embora Ramon teria resistido, finalmente concordou em acompanha-la. Falava James Ford, um norte americsno negro que o CPUSA apresentou como seu candidato a vice-presidente em 1932 e que visitou Espanha durante a guerra civil. Ele atacou Trotsky com tanta firmeza que Sylvia quis responder publicamente aos seus argumentos, mas Ramon a deteve, agarrando-a pelos bracos par impedi-la de falar.[67]

Se Ageloff de fato compareceu ao comicio, isso teria sido extremamente perigoso para um trotskyista solitario, especialmente alguem que estivera visitando o complexo de Trotsky. Os Stalinistas usaram repentinamente a violencia contra os t4otskystas em reunioes publicas.

Alem disso, se Ageloff compareceu a um evento stalinista com Jacson-Monard, e provavel que este ultimo tivesse sido reconhecido como Ramon Mercades pelos numerosos exilados stalinistas catalanes que viviam no Mexico. O filho da Cidade del Rio, lider stalinista catalao, foi facilmente identificado por membros da onda de imigrantes comunistas que trocaram Espanha pelo Mexico apos a vitoria de Franco. O presidente Cardenas concedeu asilo geral a todos refugiados da Espanha republicana.

Apos o ataque, quando as fotos do assassino comecaram aparecer na imprensa mexicana, nao havia duvidas entre a comunidade stalinista espanhola exilada quanto a verdadeira identidade do assassino. Luri observou que "Rossende Cabre, que era camarada de Ramon desde sua epoca no Partido Comunista da Catalunha, o identificou quando abriu os jornais. "Esse e o Ramon Mercader", disse ele.A noticia circulou de boca em boca entre os exilados espanhois."[68]

Luri citou outro stalinista catalao exilado, Arturo Garcia Igual, que disse: "Quando a imprensa mexicana especulava sobre a identidade de quem teria destruido a cabeca de Trotsky com um piolet, "Jacso- Mornard, todos sabiamos que tinha sido Ramon Mercades do PSUC [Partido Stalinista Socialista Unido da Catalunha".[69]

Se Ageloff compareceu a reuniao, talvez em um ato de indiscricao, ela sentiu que precisava criar uma historia de fundo no caso de ter sido visto por alguem que poderia revelar isso para os investigadores? A historia foi inventada para tentar melhorar suas credenciais como uma genuina trotskyista, e ao mesmo tempo, lancar Jacson-Mornard em uma luz favoravel?

FINAL DE MARCO DE 1940: AGELOFF TRAZ JACSON-MONARD PARA A CASA DE TROTSKY ANTES DE PARTIR PARSA NOVA YORK

Agellof deixou a Cidade do Mexico para retornar a Nova York no final de marco. Ate este ponto, Jacson nao havia entrado na casa de Trotsky e apenas deixado Ageloff no portao. Mas antes de Argeloff partir, ela trouxe Jacson-Mornard para dentro da casa - a  primeira vez que ele entrou - 

Luri escreveu: "No dia 26 de marco, Sylvia voltou a Nova York, mas primeiro foi se despedir de Trotsky acompanhada de Ramon, que nesta ocasiao entrou pela primeira pela primeira vez no interior da casa."[70]

Ageloff contaria mais tarde a policia mexicana que, antes de partir para Nova York, ela instruiu Jacson-Mornard nao visitar a casa de Trotsky sem ela."[71]

Se isso fosse verdade, significaria que suas suspeitas sobre esse homem eram tao serias  que ela o considerava uma ameaca a vida de Trotsky. Porque, entao, ela o teria trazido para o complexo de Trotsky no momento em que suas suspeitas cresciam? Se ela estava comecando ter duvidas sobre a sua confiabilidade, por que nao comunicou isso a  Trotsky ou a seus guardas? O incidente  sobre o endereco de Jacson-Mornard no edificio Emita ocorreu no inicio do mesmo mes. Por que ela entao decidiu trazer um homem que ela afirmava que poderia ser um agente britanico para a casa de Trotsky? Porque dar a ele chance de ter uma visao da casa por dentro? Foi essa informacao usada para fornecer aos agressores de maio uma compreensao do interior ds casa? Estaria Ageloff testando se os guardas permitiriam sua entrada?

Com a partida de Ageloff para Nova York Jacson-Mornard mudou-se para os apartamentos de Shirley Court, onde  permaneceria ate junho. Os  apartamentos deo Shirley Court estavam localizados na Calzada Manuel Villalongin, 139, ao norte do Paseo de la Reforma, no centro da Cidade do Mexico, a nove quarteiroes da Calle Dinamarka, 55, onde a GPU havia instalado uma sede operacional na cidade.

Durante esse tempo, Jacson-Mornard se encontrava repetidamente com sua mae e com Leonid Eitingon, o lider oficial da GPU, que tinha a tarefa de coordenar os aspectos mexicanos do assassinato.. Marguerite Rosmer tambem fez  varias visitas aos apartamentos de Shirley Court durante esse tempo.[72]

O ATAQUE DE 24 DE MAIO DE 1940

Na madrugada de 24 de maio, um grupo de homens armados liderados pelo pintor stalinista David Alfaro Siqueiros entrou no complexo de Trotsky. Uma vez no patio, os stslinistas abriram fogo, mas  nao conseguiram atingir Trotsky ou seus guardas. Eles conseguiram apenas atirar no jovem neto de Trotsky, Sieva, no pe.

Os agressores tambem tentarm atear fogo aos arquivos e papeis de Trotsky. Muito documentos importantes acabavam de serem trazidos dos arquivos europeus de Trotsky para a Cidade do Mexico por Marguerite e Alfred Rosmer, que haviam chegado ao complexo pouco antes do ataque.

De acordo com Dmitri Volkkogonov, os Rosmer "tendo chegado a varias semanas teriam trazidos com eles um grande numero de livros e cartas e parte dos arquivos de Trotsky.[73] Volkogonov fazia referencia ao material de arquivo ds inteligencia sovietica, observando que os Rosmer chegaram ao Mexico tambem pars defender Mark Zboroeski. Alfred Rosmer "jurou pela sua confiabilidade [de Zborowski] com sua vida e deu o 'melhor relato possivel de sua persongem', disse Volkogonov, citando documentos de inteligecia.[74]

Embora o ataque de 24 de maio havia falhado, o ataque revelou que os atacantes stalinistas tinham um conhecimento intimo do interior do complexo e foram capazes de imobilizar  os defensores com cobertura  de fogo em varios pontos criticos.

O PAPEL DE ROBERT SHELDON HARTE

Os agressores foram autorizados entrar no complexo pelo guarda de Trotsky, Robert Sheldon Harte. Apos, o ataque, Harte  foi levado com as agressores, que posteriormente o assassinaram.

Apos a dissolucao da Uniao Sovietica, documentos datilografados da GPU - os "documentos de Venona" - estabeleceram que Harte era, de fato, um agente da GPU. Imediatamente apos o ataque de 24 de maio, ja havia inumera provas da cumplicidade de Harte, incluindo o depoimento de um policial que viu Harte fugir com a GPU por sua vontade propria e uma declaracao do pai de Harte revelando que seu filho tinha um poster de Stalin em seu quarto em Nova York. 

Trotsky declarou publicamente que a morte de Harte nas maos da GPU "e um argumento convincente"  contra seu papel como agente. No entanto, Trotsky nao excluiu a possibilidade da cumplicidade de Harte no ataque. Ele escreveu em 25 de junho de 1940: "Na realidade, a penetracao de agente de Stalin em minha casa PODERIA INDICAR APENAS QUE A GPU HAVIA CONSEGUIDO ENGANAR MEUS AMIGOS EM NOVA YORK, QUE ME RECOMENDARAM BOB SHELDON (grifo nosso). Toda pessoa informada sabe que a GPU inunda seus agentes em todas as organizacoes de trabalhadores e instituicoes estatais em todo o mundo. Para isso gasta anualmente dezenas de milhoes de dolares"[75]

O investigador da policia mmexicana Leandro Sanches Salazar, que desde o inicio acreditava que Harte era um agente da GPU, identificou as implicacoes de reconhecer Harte como um participante no ataque de 24 de maio. Ele escreveu: "Se fosse admitido que Sheldon era um espiao, isso colocaria a questao da responsabilidade sobre os principais trotskystas em Nova York, que o enviaram ao Mexico".[76]

Mas o SWP depositou sua confianca acriticamente na inocencia de Harte e nao fez nenhum  esforco adicional para revisar cuidadosamente como os individuos foram autorizados a entrar no complexo em Coyaxcan e obter acesso a Trotsky. Uma investigacao seria sobree os antecedentes de Harte certamente revelaria seus lacos com o movimento stalinista, A exposicao dessa calamitosa quebra de seguranca poderis muito bem ter levado o SWP fazer uma revisao de todos os individuos que tiveram permissao para entrar na vila na Avenida Viena. E dificil acreditar que essa revisao nao teria levantado questoes sobre Frank Jacson-Jacques Mornard e Sylvia Ageloff ,

APOS O ATAQUE DE 24 DE MAIO: A NOVA MISSAO DE JACSON-MORNARD

Em Moscow, o fracasso do ataque de 24 de maio foi visto como um desastre politico. Quando a noticia chegou a Stalin, de acordo com Volkogonov: "A noticia do fracasso da tentativa de assassinato deixou Stalin furioso. O chefe da GPU, Lavrentiy Beria, teve de  aguentar seu xingatorio, enquanto os associados a operacao podiam esperar um destino semelhante ao de Shpigelglas,[77] que estava preso. Tudo seria agora apostado na acao de um operador individusl ha muito instalado no Mexico e que se preparava para cumprir sua missao".[78]

Jacson-Mornard nao sabia de sua missao ate depois do fracasso do ataque de 24 de maio. Volkogonov afirmou: "A principio, o jovem espanhol nao esperava de ter de sangrar as proprias maos com o assassinato de Trotsky, mas em 26 ou 27 de maio de 1940, alguns dias depois do atentado malsucedido contra a vida de Trotsky, Eitington se  encontrou com Mercader e lhe explicou como estava a situacao e lhe convenceu que o que ele teria de fazer nao seria apenar executar uma ordem que veio de Moscow mas seria um momento de gloria que o tornaria um heroi para sempre. Mercader impressionado nao pode resistir. Ele tinha visto em Espanha como a desobediencia poderia acabar. Quando um de seus conhecidos republicanos foi suspeito na Catalunha de ligacoes com o POUM, ele desapareceu sem deixar rastros. Mercader havia aprendido que esta era a lei ds revolucao: os fracos e os nao confiaveis sao liquidados.[79]

Nao se sabe ate que ponto Eitingon explicou a nova missao a Jacson-Mornard nessas datas. Duas semanas depois, no entanto, Jacson-Mornard viajaria para Nova York para se encontrar com seus controladores da GPU, e e provavel que aqui o verdadeiro significado de sua nova missao tenha sido lhe explicado com mais detalhe.

Outro importante oficial da GPU, Pavel Sudoplatov, que, ao lado de Eitingon, foi encarregado do complo para matar Trotsky, confirmou que Mercader recebeu sua nova missao apos de 24 de maio. Sudoplatov relatou uma conversa que teve com Mercader em Moscow em 1969, nove anos apos a libertacao desde de uma prisao mexicana.

Mercader disse a Sudoplatov que nao acreditava que estaria envolvido em uma conspiracao para matar Trotsky ate os dias apos o ataque fracassado de 24 de maio. Ate entao, Mercader estava sendo preparado como um ativo das GPU de longo prazo funcionando dentro do movimento trotskysta. "Ramon sabia, naturalmente, que fazia parte  da equipe de combate ao trotskismo no Mexico" escreveu Sudoplatov, "mas nao esperava que fosse o assassino" ate depois de 24 de maio.[80]

28 DE MAIO DE 1940: JACSON MORNARD ENCONTRA TROTSKY PELA PRIMEIRA VEZ

De acordo com a esposa de Trotsky, Natali Sedova, "Nosso primeiro encontro com o marido de Sylvia Angeloff, Jacson, ocorreu em 28 de maio, as 9 horas da manha"[81]

No Profeta Desterrado, a terceira parte de sua biografia triptica de Trotsky, o historiador polones Isaac Deutscher escreveu que este encontro inicial foi arranjado com base em um outro pretexto muito util: "Foi no dia 28 de maio, pouco dias apos o ataque, que o assassino se viu pela primeira vez frente com Trotsky. O encontro nao poderia ter sido mais casual. Os Romers estavam prester a deixsar o Mexico e embarcar em um navio em Vera Cruz, e "Jacson" se ofereceu para leva-los la em seu carro, fingindo que ele tinha que ir para Vera Cruz de qualquer maneira, em uma de suas viagens regulares de negocios. Ele veio busca-los de manha cedo e foi solicitado que esperasse no patio ate que estivessem prontos. Ao entrar, encontrou Trotsky, que ainda estava nas cabanas alimentando os coelhos.[821]

Nesta data, Sedova tambem viajou com Jacson-Mornard para Vera Cruz para deixar os Rosmers.[83] Puigventos escreveu que Sedova mais tarde se lembraria "que Jacson teve pedir direcoes para Vera Cruz em varias ocasioes, o que era estranho, visto que ele disse que tinha visitar para essa cidade frequentemente"[84]

De acordo com Luri, os Rosmers disseram que estavam viajando para Paris via Nova York, embora nesse momento os exercitos de Hitler estivessem se aproximando de Paris, que caiu em 14 de junho.[85] Os |Romers permaneceram em Nova York e se encontraram com Ageloff e Jacson-Mornard quando este ultimo viajou para la em junho a fim de encontrar seus controladores da GPU [86]. Por volta dessa epoca, outros agentes stalinistas viajaram para Nova York, onde logo se encontrariam com Jacson-Mornard. Caridad del Rio chegou la em 21 de maio, depois de visitar a Cidade do Mexico, via Cuba.[87]

11 DE JUNHO: JACSON-MORNARD ENCONTRA CANNON E DOBBS

No Mexico, em 11 de junho, Jacson-Mornard encontrou-se com membros importantes do SWP, incluindo James P Cannon e Farrel Dobbs, que haviam viajado com o objetivo de preparar a seguranca de Trotsky apos o ataque de maio. Como David North escreveu em "Trotsky's Last Year": Durante a viagem a Coyacan, os lideres do SWP inspecionaram a villa e aprovaram as obras de construcao que fortaleceriam o complexo contra ataques. Apesar de seu compromisso sincero com a defesa de Trotsky, seus esforcos foram prejudicados por um nivel perturbador de descuido pessoal. Embora ainda houvesse perguntas sem respostas sobre o papel de Sheldon Harte no ataque de 24 de maio, nao ha indicacao de que os lideres do SWP estavam tomando uma atitude mais cautelosa em relacao as suas associacoes pessoais. Dada a campanha continua Trotsky na imprensa Stalinista, deveria ter ficado claro para os lideres do SWP que o ambient politico na Cidade do Mexico era perigoso e que a capital estava fervilhada de agentes da GPU com a intencao de eliminar Trotsky. 

Mesmo assim, na noite de 11 de junho, James P Cannon e Farrell Dobbs aceitaram um convite para jantar no Hotel Geneva, seguido de drinks em outro local. O anfitriao dos dois lideres do SWP foi Jacson-Mornard. Esse encontro foi relatado por Cannon no decorrer de uma breve investigacao interna conduzida pela direcao do SWP apos o assassinato. Essa informacao entretanto, foi ocultada da base do partido.[88]

Embora Sylvia Ageloff nao tivesse no Mexico na epoca dessa reuniao, e provavel que ela tenha combinado apresentar Jacson-Mornard a Cannon e Dobbs. Lillian Pollak lembrou que Ageloff lhe disse em 1959 que ela queria apresenta-lo a Cannon e outros lideres do SWP. Ela poderia ja te-los apresentados no outono de 1939, quando Jacson-Mornard visitou Nova York, Nessa viagem, Ageloff  o apresentou a varios de seus camaradas do SWP ali, e tanto Cannon quanto Dobbs estavam na cidade nessa epoca.

Se eles nao tivessem sido introduzidos antes de 1940, teria se encaixado no padrao de comportamento de Ageloff sugerir que Cannon e Dobb visitassem Jacson-Mornard assim que chegassem ao Mexico. Ela sempre apresentava Jacson-Monard aos lideres da Quarta Internacional. Em Paris, Angeloff apresentou Jacson-Mornard aos delegados de  sua conferencia de fundacao.. Em Coyoacan, ela o levou ao complexo e o apresentou aos moradores. Cannon e Dobbs nao teriam saido com um estranho. Ele deve ter sido apresentado como companheiro de Sylvia. Mais uma vez, ela foi o elo que integrou o assassino de Trotsky cada vez mais fundo no  movimento trotskysta.

Jacson-Mornard estava prestes a partir para Nova York. Mas antes de voar para la, ele deixou seu carro no complexo de Trotsky, o que mais tarde lhe daria a pretensao de voltar para busca-lo em seu retorno a Cidade do Mexico.[89]

12 DE JUNHO DE 1940: AGELOFF PERMITE QUE JACSON-MORNARD ENTRE NOS EUA

Em 12 de junho, o Consulado norte americano na Cidade do Mexico atendeu o pedido  de Jacson-Mornard para entrada nos EUA. No dia seguinte ele deveria voar para Nova York. 

Em junho  de 1940, era extremamente dificil para um estrangeiro entrar nos EUA. A invasao da Franca por Hitler estava em andamento e houve um exodo de refugiados do continente europeu. Os padroes altamente restritivo de imigracao do governo Roosevelt estava em vigor. 

Para Jacson-Mornard viajar para os EUA, ele teve que apresentar varias referencias de cidadaos norte americanos que aceitaram atestar a veracidade de seu pedido. Mesmo com essas referencias, Jacson-Monard nao obteve o direito de permanecer nos EUA por um periodo prolongado. Sua entrada foi apenas com o proposito de passagem para outro pais, ele foi obrigado apresentar provas de que comprou passagens para deixar os EUA. Ele recebeu pemissao para ficar apenas pelo breve periodo necessario para pegar seu voo de transferencia para fora dos EUA. Ele foi obrigado fornecer um endereco nos EUA onde ficaria durante sua breve escala.

Um memorando do FBI de 24 de agosto de 1940 de J Edgar Hoover intitulado "Re:Frank Jacson, Sylvia Ageloff, Espionagem" mostra que as referencias de Jacson-Mornard eram Sylvia Ageloff e os membros do SWP Henry Schultz e Evelyn Reed.[90] Reed mais tarde se tornou esposa do antigo lider do SWP George Novack, que ajudou o agente da GPU Mark Zborowski garantir entrada nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial.

Ao solicitar o visto, Jacson-Mornard disse que planejava parar em Nova York por apenas dois dias antes de viajar para Montreal, no Canada. No requerimento, ele afirmou que seu endereco pemanente era St Denis St, 1269, em Montreal.[91] Jacson nao tinha intencao de viajar para Montreal e"1269 St. Denis St" era um endereco inexistente. 

Um relatorio separado do FBI escrito por J.Edgar Hoover comentou sobre o pedido de Jacson-Mornard de uma autorizacao de viagem: "Ele pretendia permanecer nos EUA por aproximadamente dois dias, onde seu endereco seria Livingston Street,  50, Brooklyn, Nova York. Ele forneceu como referencia o seguinte: Syilvia Ageloff, 50 Livingston Street Brooklym, Nova York  ...Ao solicitar o certificado de transito mencionado acima, Jacson exibiu uma carta da Via Mexicana de Aviacao datada de 12 de junho de 1940, que indicava que Jacson havia anteriormente depositado dinheiro para uma passagem de aviao para Montreal, Canada e uma reserva havia sido feita para essa viagem.[92]

Tambem em 24 de agosto, Hoover enviou um memorando separado para BE Sackett, agente especial encarregado do escritorio do FBI na cidade de Nova York. Hoover repetiu os nomes e enderecos de Ageloff, Evelyn Reed e Henry Schultz. Aparentemente acreditando que uma investigacao dos individuos que possibilitaram as viagens de Jacson-Mornard revelaria agentes da GPU nos EUA, Hoover declarou o seguinte: "O Bureau deseja que uma investigacao muito cuidadosa e completa seja conduzida com relacao a esse assunto na area coberta pelo seu Escritorio de Campo [isto e Nova York]. Todo esforco possivel deve ser feito para apurar as informsacoes disponiveis sobre o historico de Jacson, associados e atividades. Conforme previamente informado, o Bureau deseja que todas as preucacoes sejam tomadas para evitar qualquee tipo de publicidade relativa a investigacao.[93]

Hoover nao queria avisar os agentes ds GPU que achava que estavsam ao seu alcance, Ele  exigiu que a agencia procedesse discretamente com sua investigacao

Notas a seguir 

 

 












 

Wednesday, 17 February 2021

SEGURANCA E A QUARTA INTERNACIONAL SYLVIA ANGELOFF E O ASSASSINATO DE LEON TROTSKY PART I - Eric London-wsws.org

 Em 20 de agosto de 1940, Leon Trotsky foi assassinado pelo agente stalinista Ramon Mercader no suburbio de Coyacan na cidade do Mexico. O acesso de Mercader ao grande revolucionario foi possivel por meio de seu relacionamento com Sylvia Angeloff, membro do Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP). Apos o assassinato, Angeloff se apresentou como uma vitima inocente da duplicidade de Mercader, uma alegacao que nunca foi contestada pelo SWP.
Esta serie de artigos constitui a primeira investigacao sistematica pelo movimento trotskysta do papel de Ageloff e continua o trabalho de investigacao do Comite Internacional de Seguranca da Quarta Internacional. Sera publicado em quatro partes.

INTRODUCAO

O agente stalinista Ramon Mercader assassinou Leon Trotsky no final da tarde de 20 de agosto de 1940, no suburbio de Coyacan na cidade do Mexico. Na noite seguinte, 26 horas apos o ataque, o co-lider da Revolucao de Outubro de 1917 morreu do ferimento infligido por Mercader.
O assassinato de Leon Trotsky e o assassinato politico de maior repeercussao do seculo XX. Privou a classe trabalhadora internacional do homem colocado ao lado de Lenin como os maiores teoricos e revolucionarios do seculo XX.  A morte  de Trotsky enfraqueceu severamente a Quarta Internacional, em cuja fundacao em 1938 ele desempenhou um papel decisivo, e minou o desenvolvimento do movimento socialista nas decadas seguintes. 
Apesar das negativas mentirosas do regime stalinista sovietico, foi imediatamente assumido em todo o mundo que o assassino era um agente da policia secreta da Uniao Sovietica, a GPU. Mas por 35 anos, o mundo sabia muito pouco sobre a vasta escala da conspiracao e a rede de agentes utilizados pelo regime stalinista para preparar e executar o assassinato. A verdadeira identidade do homem que atendia pelos noomes de "Jacques Mornard" e depois "Frank Jackson" nao foi estabelecida de forma conclusiva ate 1950. O partido politico responsavel pela seguranca de Trotsky - o American Socialist Workers Party (SWP0, em seguida,a secao norte americana solidaria com a Quarta Internacional - (os partidos politicos dos EUA eram proibidos por lei de se associar com organizacoes internacionais nao norte americana, j amaral), nao apenas nao realializou qualquer investigacao substancial sobre os esforcos da GPU para infiltrar no movimento trotskyista em escala global nos anos antes do ataque, como o SWP recusou a reconhecer e encobriu diretamente provas da penetracao da GPU no alto escalao de sua propria organizacao. Qualquer referencia, quanto mais uma exposicao, da infiltracao de espioes da GPU e do FBI no movimento trotskysta foi denunciada pelos lideres do SWP como "isca de agentes"
Em maio de 1975, o Comite Internacional da Quarta Internacional/CIQI, identificaram a rede internacional de agentes da GPU envolvidos no assassinato, incluindo agentes que permaneceram no SWP por decadas apos a morte de Trotsky.
Apesar dos esforcos para sabotar o trabalho do Comite Internacional, a investigacao sobre Seguranca e a Quarta Internacional continuou e levou a descobertas de extraordinaria importancia.
Apos a decisao de iniciar a investigacao, documentos criticos nao publicados do governo dos EUA, depositados nos Arquivos Nacionais em Washington, DC, relacionados ao assassinato, foram descobertos por Alex Mitchell, editor do Workers Press (o jornal da secao britanica do CIQI). Em agosto de 1975, o trotskysta norte americano David North, agindo em nome do CIQI, localizou e fotografou Mark Zborowski em San Francisco. Na decada de 1930, antes de emigrar para os EUA em 1941, Zborowski desempenhou um papel central no fornecimento de informacoes que levaram ao assassinato do filho de Trotsky, Leon Sedov, dois dos secretarios politicos deTrotsky, Erwin e Rudolf Klement, e um desertor da GPU que declarou seu apoio a Quarta Internacional, Ignace Reiss. Os resultados iniciais da investigacao da Seguranca  da Quarta Internacional foram publicados no final de 1975 sob o titulo HOW THE GPU MURDERED TROTSKY.
Em dezembro de 1976, Mitchell e North viajaram para a cidade do Mexico, onde entrevistaram pessoas que foram testemunhas dos eventos em torno do assassinato. O progresso posterior da investigacao nos Estados Unidos provou que a secretaria pessoal do lider do SWP James P. Cannon de 1938 a 1947, Sylvia Caldwell (nascida em Callen), era um agente da GPU. O CIQI descobriu documentos estabelecendo que Joseph Hansen, secretario de Trotsky no Mexico de 1937 a 1940, que se tornaria um dos lideres maximo do SWP ate a sua morte em 1979,  havia sido um agente da GPU e, mais tarde, um informante do FBI. Como era de se esperar, dada sua atividade como espiao e informante do governo, foi Joseph Hansen quem atuou na lideranca do SWP por decadas como o oponente mais consequente da "isca de agentes"
As descobertas iniciais da Seguranca e a Quarta Internacional foram publicadas entre 1975 e 1978. Desenvolvimentos posteriores - especialmente documentos obtidos por meio do processo iniciado por Alan Gelfand contra a espionagem do governo dentro do SWP - corroboraram totalmente os pontos mais criticos da investigacao do Comite Internacional. Outras corroboracoes foram obtidas atraves da liberacao de documentos da policia secreta da GPU-KGB apos a dissolucao da Uniao Sovietica em 1991. 
Mais recentemente, o trabalho de pesquisadores independentes que fizeram uso das descobertas do Seguranca e a Quarta Internacional, bem como documentos adicionais liberados de arquivos do Estado no Mexico, descobriram evidencias importantes que tornam possivel uma compreensao muito detalhada de como o assassinato de Trotsky foi planejado e realizado.
Analisando essas novas informacoes - combinadas com um exame da historia pessoal de Sylvia Ageloff, bem como de suas atividades politicas enquanto era ostensivamente um membro do SWP, e seu relacionamento de trabalho proximo com Ramon Mercader - o Comite Internacional esta agora em condicoes de fornecer um relato preciso do papel critico executado por Ageloff no planejamento do assassinato de Trotsky.
O relato a seguir refuta a narrativa incontestada durante 80 anos de que Ageloff era uma inocente ingenua que foi usada por Mercader para obter acesso a Trotsky. Essa pessoa publica inventada por Ageloff e Mercader logo apos o assassinato. Os fatos reais ocultados pela historia patetica "Pobre Sylvia" nunca foram investigados seriamente. A narrativa adquiriu um status mitico. Mas ese mito nao tem base na realidade. 
A aceitacao do mito exigia interpretar os aspectos mais duvidosos e ate mesmo inacreditaveis da relacao Ageloff-Mercader da maneira mais inocente e apolitica. Ageloff tinha que ser vistsa como um "tipo de idiota", uma mulher isolada, vagando cegamente pela vida, e tao estupida ao ponto de ser incapaz de reconhecer contradicoes transparentes e bizarras na misteriosa historia da vida e atividades do homem com quem ela manteve  relacionamento pessoal por quase dois anos.
Mas assim que o mito e substituido por uma revisao objetiva do registro factual, a jovem do Brooklyn aparece sob uma luz totalmente diferente, De 1938 a 1940, Ageloff se envolveu em um padrao de comportamento intencional que avancou t consistentemente com os esforcos da GPU para cercar e matar Trotsky que fazia qualquer explicacao baseado em inocencia insustentavel.
Em cada etapa da preparacao do assassinato, foi Sylvia Ageloff quem desempenhou papel decisivo na integracao de Mercader ao movimento trotskysta e, em ultima instancia, "a villa fortificada de Coyacan. A conclusao da presente investigacao e que Angeloff foi um agente da GPU e cumplice de Ramon Meercader no assassinato de Leon Trotsky.
Em 1940, a policia mexicana conduziu a unica investigacao contemporanea sobre o assassinato e determinou que Ageloff era cumplice do assassinato de Trotsky. As autoridades mexicanas a prenderam, encarceraram e acusaram-na de assassinato e a processaram. Ageloff parece ter sido salvo da condenacao pela intervencao diplomatica  das autoridades norte americanas. Na epoca, o SWP nao forneceu relatorios sobre a investigacao mexicana de Ageloff em andamento e manteve os membros do partido no escuro. O SWP aceitou sem questionar o relato auto se absolvendo que Agelof forneceu da cadeia de eventos que levou ao assassinato de Trotsky. Esta investigacao deve, portanto comecar examinando o mito da "Pobre Sylvia".

O MITO DE SYLVIA AGELOFF

De acordo com a versao convencional dos acontecimentos, Sylvia Ageloff era uma assistente social ingenua e caseira do Brooklin. Aparentemente desesperada por afeto, a jovem membro do SWP foi facilmente seduzida pelo arrojado Jacques Mornard, um dos pseudonimos usados pelo assassino e o nome que ele usou quando se conheceram. Ele teria explorado cruelmeente as vulnerabilidades emocionais e inexperiencia de Ageloff, e eventualmente a enganou para que ele entrasse na casa de Trotsky.
Mercader teria usado a oportunidade involuntariamente fornecida pela simploria Angeloff para realizar o ataque. De acordo com essa narrativa, Ageloff, durante quase dois anos de relacionamento intimo com Monard, negligenciou ou ignorou as contradicoes gritantes em sua historia de capa, que incluia o uso de varios nomes, mentiras transparentes sobre sua origem familiar, negocios misteriosos atividades e acesso inexplicaveis a grande quantias de dinheiro.
Como os tres macacos, mas transformados em uma pessoa, Ageloff nao viu o mal, nao ouviu o mal e acima de tudo nao fez o mal.
Essa historia - que a absolve de qualquer responsabilidade criminal pelas consequencias de suas acoes - foi originalmente inventada pelo proprio Mercader, "Sylvia nao teve nada a ver com isso", disse ele aos interrogadores da policia apos sua prisao. [1] Ele manteve sua historia ate a sua morte em Cuba em 1978. Seu irmao, Luis Mercader, diria mais tarde sobre Meercader: "Ele nunca traiu os seus"[2] Seu advogado, Eduardo Ceniceros, reconheceu apos a morte de Mercader: "Ele nunca confessou nada a ninguem, mesmo tendo passado pelas mais terriveis tempestades"[3]
O alibi que o assassino forneceu para Ageloff -
mesmo quando Mercader negava que ele mesmo tivesse algo a ver com a policia secreta stalinista - tornou-se a base para a imagem patetica da "pobre Sylvia".
Angeloff teria ficado, como se afirmam ha muito tempo, tao chocada com a traicao de Mercader que ficou histerica e nao pode responder as perguntas feitas pela policia mexicana ou por agentes federais dos EUA que investigaram o ataque. Ageloff afirmava ser um membro leal do SWP que havia se envolvido em um drama que nao estava preparada para entender. Parecendo traumatizada, Ageloff deixou o movimento trotskysta e nunca mais se envolveu na politica radical. Excetuando o governo mexicano, logo apos o assassinato, ninguem - e muito menos o SWP - parecia particularmente intreressado em examinar criticamente o alibi fornecido a Ageloff pelo assassino.
Dois filmes importantes sobre o crime - The Assassination of Trotsky (1972 de Joseph Losey e The Chosen (2016) de Antonio Chavarrias - colocaram o mito no centro de seu relato sobre o trama do assassinato. Quanto a Ageloff, ela seguiu a frente, passando os 55 anos restantes de sua vida em um snonimato rico. Por fim residindo em um confortavel apartamento em Manhattan, Ageloff morreu em 1995 com a idade de 86 snos sem deixar nenhuma explicacao detalhada de como ela desempenhou um papel tao critico em uma tragedia do seculo XX. 
Um fato irrefutavel emerge da reconstrucao cuidadosa da conspiracao para assassinar Trotsky: se  remove Ageloff da cadeia dos eventos nao teria havido assassinato em agosto de 1940. Sem a oportunidade proporcionada por seu relacionamento com Sylvia Ageloff, Mercader nao teria conseguido entrar no complexo residencial de Trotsky. No periodo antes do assassinato, ter perguntado seriamente quem e o noivo de Sylvia? teria aberto a porta para uma serie de questoes envolvendo Mercader e Angeloff. Mesmo o exame mais supperficial das bona fides de "Jacques Mornard-Frank Jacson" - uma tarefa certamente justificada apos o atentado malsucedido contra a vida de Trotsky por agentes stalinistas em 24 de maio de 1940 - teria o transformado em alvo de suspeitas, cortado seu acesso a Trotsky e levantado a pergunta: porque Sylvia Ageloff o trouxe?
Isso foi mais ou menos admitido pelo lider do SWP James P Cannon em um discurso no plenario do SWP em 28 de setembro de 1940, seis semanas apos a morte de Trotsky: "Ha um certo descuido no movimento como ressaca do passado. Nos investigamos profundamente o passado das pessoas, mesmo em posicoes de lideranca - de onde vieram, como vivem, com quem sao casadas, etc. Sempre que no passado essas questoes - elementares para uma organizacao revolucionaria - foram levantadas, a oposicao pequeno burguesa gritava: "Meu Deus, voce esta invadindo a vida privada dos camaradas! Sim, isso e exatamente o que estamos fazendo, ou mais corretamente - ameacando fazer - nada aconteceu no passado. Se tivessemos verificados essas questoes com um pouco mais de cuidado, poderiamos ter evitado algumas coisas ruins no passado [4]
Os comentarios de Cannon, sobre os quais ele nao entrou em detalhes, foram um reconhecimento de que o SWP nao havia investigado as pessoas que cercavam Trotsky em Coyacan e "em posicao de lideranca" no partido.
Cannon afirmou que era necessario fazer mais perguntas e "verificar as coisas com um pouco mais de cuidado". Isso foi, para dizer o minimo, um eufemismo. Quando Cannon disse essas palavras, Sylvia Ageloff  estava detida pela policia mexicana sob a acusacao de homicidio. Mas as acoes de Cannon nao corresponderam com suas palavras. O SWP manteve silencio absoluto em relacao a Ageloff apos a morte de Trotsky, peermitindo que ela se retirasse para o anonimato. O jornal do SWP, The Militant, nao noticiou sua prisao apos o assassinato, e em 1950, quando Ageloff apareceu perante o Comite de Atividades Antiamericanas da Camara, nao fez nenhuma anotacao de seu depoimento

CONTRADICOES ENTRE MITO E REALIDSADE: QUEM FOI SYLVIA AGELOFF?

Esta investigacao examina questoes criticas relativas a Sylvia Ageloff: Qual era sua formacao familiar? Qual foi sua historia politica? Ela tinha contacto pessoais com stalinistas, por meios de amigos ou familiares? Como ela foi apresentada ao movimento e quais contribuicoes ela faz, se houver, que justificaria sua proximidade com Trotsky? O que as autoridades mexicanas acreditam quanto a culpa ou inocencia de Ageloff?Como os fatos se compararam aos alibis de Ageloff?
Essas perguntas agora podem ser respondidas com base  em um registro factual, que inclui informacoes relacionadas ao treinamento academico significativo de Ageloff, relatorios da imprensa, observacoes contemporaneas daqueles que conheceram Ageloff e Mercader, declaracoes da familia Ageloff submetidas durante o julgamento mexicano de Ageloff e Mercader, publicacoes sobre  o assassinato, relatorios do FBI descobertos pela investigacso do Seguranca e a Quarta Internacional e outros materiais valiosos.
Esta investigacso tambem faz uso de pesquisas que foram recentemente conduzidas em espanhol, incluindo "Acoes Ministeriais no Homicidio de Leon Trotsky" publicada pelo departamento federal de criminologia do Mexico e de autoria do proeminente criminologista mexicano Martin Gabriel Cruz (Instituto Nacional de Ciencias Penais de Mexico, 2918). Este trabalho contem uma analise retrospectiva detalhada da investigacao criminal mais importante da historia mexicana e inclui uma reproducao de processos judiciais criticos no processo contra Ageloff e Mercader. Ele contem um apendice de transcricoes de interrogatorios de testemunhas importantes, incluindo Ageloff e o proprio Mercader.
Este ensaio tambem faz referencias a dois importantes livros em espanhol: O Ceu Prometido: Uma Mulher a Servico de Stalin de Gregorio Luri (Editorial Ariel, 2016); e Ramon Mercader: O Homem do piolet, de Eduard Puigventos Lopes (Now Books, 2015)
E possivel, com base neste registro probatorio, comparar a mitica Sylvia Ageloff com a pessoa real.
A persistencia do mito da "pobre pequena Sylvia" requer aceitacao acritica da persona - a de uma assistente social ingenua e inexperiente, ou seja, o tipo de pessoas que poderia estar escrevendo cartas para Miss Lonelyhearts - que foi anexada a ela pelo SWP e foram depois popularizadas em narrativas cinematograficas ficcionais. A persistencia desse mito depende de ele nunca ser questionado, pois a persona construida nada tem a ver com quem Ageloff realmente foi.
A investigacao comeca necessariamente com um exame da familia Ageloff

SAMUEL AGELOFF

Sylvia Ageloff, nascida em 1909, era filha de Samuel Ageloff (1884-1972) e Anna Maslow (1881-1930), imigrante russos que falavam russos em casa. Samuel nasceu em Lepel, Bielo-Russia e imigrou para os EUA por volta de 1900, casando-se com Anna em 1902. Apos a morte de Anna, Samuel se casou novamente.
Samuel Ageloff se tornou um rico empresario imibiliario na cidade de Nova York. De acordo com Roberta Satow, autora de um relato ficcional da vida das irmas Ageloff intitulado As Duas Irmas de Coyacan:"Ate 1917, ele se interessou principalmente pela reforma de moradias familiares, mas depois foi pioneiro na construcao de garagens publicas. Ele tambem construiu residencias em Coney Island e Bensonhurst e lojas na Flatbush Avenue. Mais tarde, ele construiu predios de apartamentos em Williamsburg e alugou edificios de escritorios por noventa e nove anos e alugou os escritorios, incluindo um predio de escritorios em frente a uma Academia de Musica.
Embora a historia de Satow seja ficticia, as informacoes de fundo que ela reuniu sobre Samuel Ageloff sao factualmente precisas. Suas pesquisas descobriu que Samuel Ageloff construiu 48 casas em Coney Island, 65 em Bensonhurst e muitas lojas na Flatbush Avenue, no Brooklin. Ele construiu as duas torres Ageloff, localizadas na East Third Street e Fourth Street em Manhattan, em 1929. [6]
"Era uma familia muito rica", disse Satow ao WSWS[7] Alem de empresarios de sucesso, a familia incluia artistas e psicologos. O WSWS conversou com Amy Feld, parente dos Ageloffs e psicologa de profissao, que disse que as irmas  eram parentes do pintor franco-russo Marc Chagall e do psicologo de renome internacional Abraham Maslow, que desenvolveu a teoria da "hierarquia das necessidades"
Os Ageloffs tiveram quatro filhas: Lilliam (1902-1986, Hilda (1906-1997), Sylvia (1909-1995) e Ruth (1913-2009); e dois filhos: Allan (1903-1997) e Monte (1907-1965). Sylvia veio de uma familia altamente politica, e tres das irmas entraram na politica socialista na juventude.

HILDA AGELOFF

EM 2 de setembro de 1931, o Brooklyn Daily Eagle relatou que Hilda Ageloff havia viajado para a Uniao Sovietica e entrevistado Nadezhda Krupskaya, viuva de Lenin, que era membro da Comissao de Educacaso Publica da Uniao Sovietica, Essa viagem aconteceu dois anos depois que Trotsky foi exilado para a Turquia, quando seus seguidores eram perseguidos pelo regime stalinista na Uniao Sovietica. Krupskaya, que simpatizava com Trotsky, muito antes fora forcada denunciar a Oposicao de Esquerda.
De acordo com o Brooklyn Daily Eagle: A Srta. Hilda Ageloff, de Westminster Road, 198, contou hoje sobre sua entrevista com Madame Lenin, que foi o ponto alto de sua viagem de tres meses e meio a Russia.
Como a srta. Ageloff estava fazendo um estudo especial sobre os novos metodo de educacao progressiva usados nos jardins de infancia e nas creches que cuidam das criancas nas fazendas e cidades comunais, ela desejou perguntar a sra. Lenin muitas perguntas...
Nao foi facil marcar uma entrevista. Muito correspondentes de jornais estrangeiros foram recusados...Mas as dificuldades suavizaram e, finalmente, um dia a Srta. Ageloff se viu na presenca da esposa do homem que a Russia reverencia como seu salvador".
Hilda Ageloff e citada como tendo dito: "Quando eles estavam comecando este trabalho apos a revolucao, nao teriam sido possivel, mas Madame Lenin acredita que o povo foi conquistado para os principios do comunismo" O artigo concluiu: "A propria Srta. Ageloff compartilha um pouco do entusiamo de Madame Lenin e disse que pretende retornar a Russia para trabalhar mais com o movimento de educacso progressista"
Em 27 de dezembro de 1931, o New York Times publicou um artigo com a assinatura de Hilda Ageloff intitulado "O Soviete Empurra o Trabalho Pre-Escolar" Grandes Avancos Relatados. "Esta historia foi o artigo principal em uma serie de domingo intitulada" As tendencias e mares do mundo da educacao moderna"
Seu artigo era um relatorio pro-stalinista do sistema educacional do pais e uma glorificacao dsa burocracia stalinista. Era o tipo de artigo que so poderia ter sido escrito por um stalinista ou um companheiro de viagem stalinista.
O relatorio de Angeloff elogiou especificamente os avancos feitos pelas "autoridades" na Uniao Sovietica "desde a deposicao de Lunarcharsky como Comissario de Educacao Publica". Anatoly Lunacharsky foi deposto de seu cargo em 1929 na tentativa da burocracia de marginalizar qualquer pessoa associada com Trotsky, que havia sido expulso da Uniao Sovietica.
O artigo de Hilda Ageloff elogiou o fato de que "as autoridades agora embarcaram em um programa vigoroso de construcao nos principais centros industriais e regioes agricolas coletivizadas" Continuando sem critica a narrativa stalinista, ela escreveu: "As autoridades estao lutando arduamente" e realmente estao realizando "um grande trabalho humanitario". A maneira pravica, Ageloff escreveu que o sucesso do "proximo plano de cinco anos" "dependera dos jovens comunistas, os pais do futuro"
Enquanto alguns norte americanos puderam viajar para as Uniao Sovietica durante este periodo para fins de intercambio profissional e cultural, marcar um encontro com a viuva de Lenin, uma das figuras mais proeminentes da Uniao Sovietica, para discutir a politica de educacao do Estado foi, como o Brooklyn Daily Eagle observou, "nao e facil de organizar" Hilda Ageloff nao teria sido capaz de se encontrar com a viuva de Lenin sem a aprovacao dadas nos niveis mais altos do governo sovietico, isto e, pelo proprio Stalin. A familia Ageloff tinha a confianca das autoridades sovieticas, que tornaram sua viagem possivel.
Em sua viagem a Europa, Hilda foi acompanhada por suas irmas, embora nao esteja claro se elas foram com ela para a Russia. Mas Gregorio Luri escreveu em sua biografia da familia Mercader: "As tres irmas voltaram aos EUA no final de agosto de 1931, convencidas de que o futuro da humanidade passaria pela URSS. [8]. Nesse ponto, Sylvia teria 22 anos e Ruth apenas 18.

RUTH AGELOFF

Ruth Ageloff, irma mais nova de Sylvia, tambem viveu uma vida politica e se casou em uma outra complicada familia politica. 
Segundo Christopher Phelps, autor do livro Young Sydney Hook: Marxist and Pragmatist, Ruth e Sylvia foram convencidas aderir ao American Workers Party/Partido Americano dos Trabalhadores (AWP), partido de esquerdas dirigido pelo pregador radical Aj Muste, por James Burnham e Hook, que eram professores na New York University (NYU) quando Ruth e Sylvia eram alunas la.[9]Chama atencao que Phelpes em uma nota de rodape biografica que as irmas Ageloff "recusaram todas as entrevistas desde entao e se recusaram a ser entrevistadas para esta biografia.[10]
Ruth Ageloff tambem serviu como secretaria de Trotsky na cidade do Mexico no inicio de 1937, quando ela tinha 23 anos. Nao esta claro exatamente como ela obteve esse cargo. Com toda a probabilidade, ela ofereceu seus servicos. Dada a seguranca frouxa mantida pelos trotskystas norte americanos, suas fluencia em russo foi suficiente para permitir que ela fosse enviada ao Mexico. Este foi um metodo empregado pelos stalinistas para infiltrar agentes na pequena equipe do SWP. Apenas um ano depois, em 1938, Sylvia Callen, uma stalinista de Chicago, mudou-se para Nova York e se ofereceu para trabalhar no escritorio nacional do SWP. Em questao de meses, ela se tornou a secretaria pessoal do lider do SWP James P Cannon.
O obtuario de Ruth Ageloff (nome de casado Poulos) do New York Times, publicado em 4 de fevereiro de 2009, diz: "POULOS - Ruth G. 13 de novembro de 1913 a 31 de janeiro de 2009. Viuva de John G. Poulos, filha dos imigrantes  russos Anna Maslow e  Samuel Ageloff ...Em 1936 {sic} e 37 ela morou na cidsde do Mexico como secretaria de Leon Trotsky e da Comissao John Dewey....[11]
Trotsky so chegou ao Mexico em Janeiro de 1937. Ruth trabalhava para Trotsky no Mexico e, de acordo com Sylvia, fora recomendada por James P. Cannon. O criminologista mexicano Martin Gabriel Barron Cruz escreveu que depois do assassinato, as autoridades mexicanas "questionaram Sylvia a respeito de quem havia recomendado Ruth a Trotsky e ela confessou que tinha sido Cannon, "lembrando que sempre quando qualquer pessoa nos EUA queria se relacionar a Trotsky, isso foi feito atraves do SWP [12]{e desta forma sua irma} obteve um cartao apresentando-a a Trotsky." [13]
A vida politica de Ruth continuou apos seu trabalho no Mexico. Em junho de 1940, apos retornar da cidade do Mexico, casou-se com John Poulos (1911-1980), um sindicalista que ganhou destaque durante o movimento grevista dos anos 1930 e se tornou delegado no congresso de fundacao do Congresso de Organizacoes Industriais em 1938 e um membro do Comite Nacional do SWP, Poulos mais tarde deixaria o SWP para se juntar ao Partido dos Trabalhadores dirigido por Max Schatman. Ele permaneceu ativo no movimento Schachtmanita ate a sua morte e foi um colaborador regular de sua publicacao Acao Trabalhista.
O irmao de Poulos e seu  colaborador de longa data, Constantine Poulos, foi empregado durante a Segunda Guerra Mundial pela Overseas News Agency, que foi financiada pela Inteligencia britanica e foi usada para fornecer  credenciais de imprensa aos ativos da inteligencia britanica.[14]. Ele tambem tinha uma historia politica complexa e era aparentemente um stalinista. Durante a Guerra Civil Grega, Constatine Poulos foi o primeiro jornalista norte americano a integrar a milicia EAM-ELAS, dirigida pelo Partido Comunista. Apos a Guerra civil, ele serviu como intermediasrio entre os negociadores dos EUA e a direcao stalinista do EAM-ELAS. Constantine foi entao expulso da Grecia pelo governo monarquista por seus lacos com o Partido Comunista. Na decada de 1950, John entrou na lista negra e foi afastado de seu cargo no sindicato United Auto Workers [15].
John Poulos e Ruth Ageloff permaneceram casados ate a sua morte em 1980. Seu filho, Eric Poulos, que havia dado entrevista sobre sua mae e tia, foi contatado por este autor, mas nao respondeu a um pedido de comentario.

SYLVIA AGELOFF

Sylvia Ageloff tinha 29 na primavera de 1938 quando decidiu viajar para a Europa. Desde a viagem de sua irma Hilda a Uniao Sovietica sete anos antes, Ageloff tinha viajado muito, obtido um diploma avancado e se envolvido profundamente na politica socialista.
Alem do ingles, Ageloff  era fluente em pelo menos russo e frances. Ela havia terminado o ensino medio com especializacao em teatro. Mais tarde, ela colocaria suas habilidades de atuacao em uso apos o assassinato de Trotsky. Ageloff continuou sua educacao apos se formar no ensino medio. Em uma epoca que era raro as mulheres buscarem uma educacao universitaria, quanto mais uma graduacao avancada, ela concluiu a faculdade com um diploma de psicologia pela Universidade de Nova York. Ageloff entao obteve o titulo de mestre em psicologia infantil na Universidade de Columbia em 1934.
Um relatorio do FBI datado de 3 de setembro de 1940, preparado pelo agente George J Starr, forneceu uma revisao detalhada da historia politica de Ageloff, compilada por meio de entrevista com informantes.
Ageloff  apoiou o reverendo radical Aj Muste, tasnto no Congresso para a Acao Trabalhista Progressita (CPLA) quanto no AWP, que foi fundado em 1933. Ela entao se juntou ao Partido dos Trabalhadores (EUA) - o produto da fusao entre a AWP e a Liga Comunista Trotskysta da America (CLA) em dezembro de 1934. 
O relatorio do FBI explicou que Ageloff inicialmente se juntou ao AWP com suaas irmas. 
O Partido dos Trabalhadores (EUA) foi uma formacao politica ampla e heterogenea formada quando a Grande Depressao e a onda de greves radicalizaram amplo setores da classe trabalhadora e da classe media. A fusao com a AWP tinha como objetivo fornecer ao movimento trotskyistas americano um ambiente mais amplo no qual pudesse educar e conquistar as camadas radicalizadas para o marxismo genuino.
O AWP era composto de radicias e lideres trabalhistas que haviam ganho destaques na greve da Toledo Auto-Lite em 1934, bem como atraves ds formacao de conselhos de desempregos do partido, principalmente no meio-oeste industrial e nas empresas empobrecidas regioes ds Apalaches. O AWP era amorfo na composicaso social e ecletico na promocao da politica socialista. Mas se opos ao stalinismo e conquistou seguidores importantes entre os trabalhadores e os desempregados.
A fusao com o movimento trotskyista pertubou a direita do AWP, fazendo com que lideres da AWP como Louis Budenz e Henry Howe rompesse com o Partido dos Trabalhadores (EUA) e se unissem ao movimento stalinista. A fusao tambem pertubou a secao dos afluentes cristaos progressistas que haviam apoiado financeiramente Muste e o AWP, desde que isso envolvesse principalmente um apoio radical aos desempregados. Esses apoiadores financeiros foram se afastando enquanto Muste e seu movimento flertavam com a politica revolucionaria.
Poucos meses depois de sua formacao em 1934, o Partido dos Trabalhadores (EUA) foi lancado em uma serie de conflito sobre a proposta dos trotskyistas de entrada no Partido Socialista (SP), que vinha passando por um crescimento de membros e sua radicalizacao de suas linhas politica.Quando a faccao trotskyista no Partido dos Trabalhadores (EUA) entrou no SP em 1936 o Partido dos Trabalhadores (EUA) deixou de existir.
Ageloff, primeiro dentro do SP e depois dentro do SWP, era aparentemente proxima do grupo  de trotskyistas de Nova York em volta de Martin Abern, um ex-membro ds IWW e lider do movimento da Juventude Comunista na decada de 1920. Ele foi expulso do Partido Comunista em 1928 por seu apoio a Trotsky e se tornou um membro fundador do CLA, junto com Cannon e Schchtman. Embora Abern tenha desempebhado um papel corajoso na fundacao da CLA, sua tendencia a panelinha fez dele um polo de atracao para elementos pequenos burgueses, especialmente na secao do partido em Nova York
Ageloff tornou-se membro do Partido Socialista dos Trabalhadores/SWP na sua fundacao em janeiro de 1938, mas apoiou a tendencia de oposicao da minoria lideradas por Schchtman e Abern durante a luta de faccoes de 1939-1940.. Em abril de 1940, ela deixou o SWP e se juntou ao Partido dos Trabalhadores, fundado pela minoria depois que ele deixou o SWP.

A FORMACAO DE AGELOFF COMO PSICOLOGA ESPECIALISTA

Em sua vida profissional, Ageloff foi uma psicologa especialista, treinada para observar as pessoas com atencao e ouvir o que elas dizem. Sua tese de mestrado, intitulada "UM estudo de fatores de "prestigio" e "objetivo" na sugestionabilidade em uma comparacao de diferencas raciais e sexuais" permanece arquivada na Biblioteca Butler da Universidade de Columbia. Sua pesquisa a levou a concluir que os individuos sao psicologicamente suscetiveis a abandonar o bom senso quando pressionados por pessoas que respeitam. Era uma area curiosa de especializacao para uma mulher que mais tarde alegaria que  ela mesma foi enganada por Mercader..
A American Psychological Association (APA) define "sugestionabilidade" como "uma inclinacso para adotar prontalmente e sem criticas as ideias, crencas, atitudes ou acoes de outras". A APA define "sugestao de prestigio", que foi o foco especifico da tese de Ageloff, como "uma mensagem cuja persuasao deriva de sua entrega ou atribuicao a uma pessoa de status reconhecido."
A dissertacao de Ageloff testou alunos negros e brancos para determinar sua suscetibilidade as declaracoes de uma figura que eles respeitavam - seu professor - mesmo quando as diretrizes do professor se tornaram cada vez mais duvidosas e inadequadas. Ageloff descreveu sua abordagem: "Propomos aqui estudar as diferencas entre os mesmo grupos raciais, a saber, brancos e negros, mas com uma serie de testes"com o objetivo de medir "a influencia pessoal do experimentador". Ela previu que, quando uma crianca foi influenciada por uma figura respeitada, "o sujeito pode mostrar uma  tendencia a formar julgamentos erroneos" ou "agir como uma imitacao ou sob a influencia de outra pessoa", ao contrario de quando a criancsa meramente recebeu sugestoes por escrito ou orais de um estranho. [16]
Eric M Gurevitch, parente das irma Ageloff e autor do artigo de 2015 "Pensando com Sylvia Ageloff, publicado no Hypocrite Reader, foi a primeira pessoa a verificar a tese de Ageloff na biblioteca de Columbia. Em uma entrevista com este escritor, Gurevitch disse: "As vezes ela e descrita como a idiota enganada, as vezes ela e a mulher judia sexualmente frustrada e feia, ou variacoes disso. Mas esses sao apenas cliches e tropos" Ele acrecentou mais tarde: "O que quer que alguem pense que aconteceu, ela nao e estupida".[17]
Gurevitch explicou: "A dissertacao, sua tese de mestrado, e claramente algo que foi produzido sob a orientacao de psycologos sociais realmente de ponta. Ela tem uma nocao real deste novo campo emergente da psicologia social."
"Sua pesquisa e sobre essa ideia de quem e ingenuo" disse Gurevitch. "A parte engracada de tudo isso e que a historia e inteiramente sobre como voce se conforma com as coisas que outras pessoas querem impressionar em voce. E curioso que isso seja algo em que ela esteja realmente interessada"
Roberta Satow, autora de Duas Irmas de Coyoacan, que tambem e psicanalista de profissao, explicou: "A sugestiobilidade e uma forma de seducao, se voce quiser. E ela foi seduzida, entao, e fascinante que este tenha sido o assunto de sua dissertacao [18]
A historia de que Ageloff foi "enganada" e plausivel apenas se aceitarmos que ela nunca consisderou a possibilidade de estar sendo enganada. Mas, como mostra sua tese, Ageloff havia estudado em profundidade o proprio fenomeno do qual ela foi ostensivamente vitima pouco anos depois..

VERAO DE 1938: AGELOFF VIAJA A EUROPA PARA A CONFERENCIA DE FUNDACAO DA QUARTA INTERNACIONAL

|A viagem de Ageloff a Europa no verao de 1938, durante a qual conheceu Mercader (que se autodenominava "Jacques Mornard"), foi uma experiencia crucial em sua vida. Sua viagem nao foi um periodo de ferias, como ela diria mais tarde. Em vez disso, um exame de sua atividade na Europa estabelece que Agleoff estava engajada no trabalho politico relacionado a preparacao da conferencia de fundacao da Quarta Internacional, que foi realizada em setembro de 1938. No livro This is My Story, o lider do Partido Comunista Louis Burdenz, que em 1938 estava gerenciando os esforcos da GPU para se infiltrar no SWP, referiu-se a Ageloff como um "mensageiro" do movimento trotskyista.
A viagem de Ageloff a Europa teve como pano de fundo o Grande Terror de Stalin e uma campanha assassina do GPU para exterminar membros da Quarta Internacional na Europa. Nao era a hora nem o lugar para um trotskyista tirar ferias pessoais. O contexto de sua viagem torna a escolha de uma companheira de viagem, a stalinista Rub Weil, ainda mais inexplicavel.
Em fevereiro de 1938, semanas antes de Ageloff decidir viajar para a Europa, a rede GPU assassinou o filho de Trotsky, Leon Sedov, na Clinique Mirabesau em Paris. O agente da GPU, Mark Zborowski, cujo nome de partido dentro do movimento trotskyista frances era Etienne, forneceu a GPU informacoes criticas que lhe permitiram realizar o assassinato. Zborowski tambem ajudou a preparar tres outros assassinatos: o de 1) Erwin Wolf, um secretario politico de Trotsky, que foi assassinado pela GPU apos entrar na Espanha em julho de 1937; 2) Ignace Reiss, que desertou da GPU e foi assassinado na Suica em setembro de 1937; e 3) Rudolf Klement, secretario da Quarta Internacional, assassinado em Paris em julho de 1938.
Em meio a essa carnificina, onde os trotskyistas eram alvos dos stalinistas, Sylvia Ageloff viajou a Paris com alguem que ela sabia ser um stalinista ativo: o agente da GPU Ruby Weil. [19]

O QUE SYLVIA AGELOFF SABIA EM 1938 SOBRE SUA PARCERA DE VIAGEN, A AGENTE  DA GPU RUBY WEIL

Ageloff mais tarde alegou que nao sabia que Weil era um agente stalinista e comcordou viajar com ela para Europa porque eram amigas. Essa amizade se tornou um aspecto critico da historia stalinista para introduzir Mercade/Monard no meio trotskyista. Se alguem lhe perguntasse como entrou em contacto com o movimento, ele poderia inocentemente explicar que sua conhecida, Rubi Weil, o apresentou a amiga dela Sylvia.
Mas se Sylvia sabia que Rubi Weil estava no Partido Comunista, porque ela viajaria com Weil a caminho para preparar a conferencia secreta de fundacao da Quarta Internacional, especialmente durante o Grande Terror Stalinista e sob as condicoes em que a GPU estava matando trotskyistas em Paris e atraves da Europa?
Rastrear o que Sylvia Ageloff e suas irmas sabiam sobre os Weils na epoca em que decidiram viajar para a Europa juntas requer uma revisao das declaracoes feitas apos o assasinato de Trotsky.
Em dezembro de 1950, Sylvia e Hilda Ageloff foram chamadas parsa testemunharem perante o Congresso sobre o assassinato de Trotsky e o papel do GPU nele. Ambas as irmas testemunharam que sabiam que Weil era ativo no movimento stalinista: "Os rumores eram que ela estava ingressando no Partido Comunista", disse Sylvia Ageloff sob juramento. [20]
Em seu depoimento, Hilda Ageloff explicou que conheceu Ruby Weil "no American Workers Party ao qual pertenciamos em 1936 ou por ai.{sic: o AWP fundiu-se com o trotskysta CLA em dezembro de 1934 e deixou de existir como uma organizacao independente} Ruby Weil trabalhou no jornal com seu cunhado, Harry Howe. Foi assim que a conheci. Depois disso, ela deixou o partido e parou de trabalhar no jornal. Harry Howe tambem deixou o jornal, eu creio"[21]
|Em 1940, Sylvia Ageloff disse a policia mexicana durante um interrogatorio logo apos o assassinato de Trotsky que, na epoca em que concordou em viajar com Rubi Weil ela tinha conhecimento das afiliacoes stalinista dela. Uma transcricao de uma entrevista policial diz" " ela sabia que o marido de uma das irmas (Weil), chamado  Harry Howe, havia pertencido ao AWP  e que mais tarde ele se filiou aos stalinistas. Howe mora atualmente em Nova York, mas ela nao sabe o endereco dele."[22]
Harry Howe nao era apenas um defensor comum de Aj Muste. Em 1935, Howe tinha sido o editor associado do New Militant, o jornsl do Partido dos Trabalhadores (EUA) que foi formado apos a uniificacao do Musteite AWP e do Trotskyista do CLA. O nome de Howe aparece ao lado de Casnnon na lista  de editores do jornal.[23] Howe foi um membro proeminente da New York Labour School, dirigida pelo Congress for Progressive Labour Action, dirigido por Muste, e foi listado como um conferencista em um curso sde 1932 sobre jornalismo trabalhista. [24]
Cartas particulares mostram que Howe foi muito hostil a fusao com os trotskystas. Uma carta de 1934 escrita por Howe a um membro da AWP deixa clara sua hostilidade ao trotskyismo: "Estamos nos movendo na direcao daquele sectarismo que negamos tao veermente". O partido estava "indo para a esquerda muito rapido...Estou ficando bastante farto desse negocio de competir com todos os outros grupos pequenos pela pureza revolucionaria.[25]
A esposa de Muste era irma de Rubi Weil,, Marion Weil. Mais tarde, em uma comunicacao de 25 de setembro de 1940 do consulado mexicano ao Departamento de Estado dos EUA, foi revelado que Joseph Hansen havia dito ao governo dos EUA que Sylvia Agelof sabia, quando decidiu viajar com Ruby Weil, que sua irma Marion tambem era stalinista e que uma terceira irma Weil, Gertrude, tambem pode ter estado envolvida nos arranjos do encontro entre Ageloff e Mercader. A comunicacao divulgada por meio da Seguranca e a Quarta Internacional, diz:O Sr. Hansen insinuou que informacoes valiosas podem ser obtidas da seguinte maneira: o Departamento se lembrara da mencao anterior em despachos [sic]deste escritorio de Rubi Weil. Ela, segundo Hansem,  e  uma das tres irmas, sendo as outras duas chamadas Gertrude e Marion.[27] A primeira e casada com um rabino, mora em Albuquerque, Novo Mexico; nunca se envolveu em politica de nenhum tipo. embora fosse aquela que Marion mencionou em uma carta enderecada a Sylvia Ageloff, em Paris, como estando interessa em que Sylvia conhecesse Jacson. A explicacao de Hansen para o uso do nome de Gertrude nesta conexao e que Marion e ha muito tempo uma stalinista fanatica e devota, e se ela se mostrar como a parte interessada em um encontro entre Jacson e Sylvia, esta poderia  ter [sic] razao para suspeitar de seus motivos.
O Departamento poderia conseguir Gertrude algumas valiosas informacoes. Hansen disse que essa informacao foi dada por Sylvia a seu irmao, Monte.
Hilda Ageloff mais tarde testemunhou que as irmas Ageloff conheciam Marion Weil na epoca em que Sylvia Ageloff viajava com Riby Weil: "Uma vez liguei para Marion, a irma dela (de Rubi), perguntei como ela estava, e ela disse que estava tudo bem."[28]


JULHO DE 1938: AGELOFF E "JACQUES MORNARD" SE ENCONTRAM EM PARIS

No inicio de julho em Paris, de acordo com a versao incontestada da historia, Weil, apresentou Ageloff a "Jacques Monard". Ele tratou Ageloff com generosidade e a seduziu a se apaixonar por  ele. Mornard disse que era um jornalista esportivo, escrevendo para jornais como La Nacion Belge, Le Soir, Les Dernieres Nouvelles, Auto e Les Sports.[29]. Ele tinha muito dinheiro para gastar, disse ele, porque era filho de um diplomata belga que havia morrido em 1926.
Em declaracao tomada pela policia mexicana apos o ataque, Ageloff explicou que nunca o viu trabalhar ou leu seus artigos publicados. Ela "aceitou como verdade o que Jacson disse a ela" , usando o nome "Jacson", que ele usou ao chegar a America do Norte em 1939. Ele "sempre teve muito dinheiro e frequentou os melhores lugares", continuou Ageloff [30]
A primeira pergunta obvia e porque Ageloff, uma intelectual altamente educada e supostamente uma revolucionaria socialista comprometida com responsabilidade de alto nivel no movimento trotskysta, mergulharia sem pensar em um relacionamento com um playboy rico, cuja familia - se desse para acreditar no que ele dizia -  teve ligacoes diretas com o estado reacionario belga
De qualquer forma, era flagrantemente obvio, desde os primeiros estagios do relacionamento de Angeloff com Mornard, que seu novo amante nao era pessoa de confianca. As circunstancias de seu encontro inicial eram improvaveis e haviam contradicoes gritantes em sua narrativa pessoal. E dado o contexto politico - os Julgamentos de Moscow e o terror stalinista na Uniao Sovietica e os assassinatos de trotskystas na Espanha (Erwin Wolf), Suica (Ignace Reiss) e Franca, (Leon Serdov e Rudolf Klement) - e impossivel que Ageloff nunca considerou a possibilidade de que Mornard fosse um agente stalinista
notas a seguir. - continua Parte 2  
 







Tuesday, 16 February 2021

A CRISE DO ECONOMICS KEYNESIANO de Geoofrey Pilling CAPITULO I REACOES A CRISE DO CAPITALISMO

"Ainda ha ecos do debate, agora bem passado do seu centenario, entre os marxistas e economistas neoclassicos, mas nao se ouve muito sobre isso circulos profissionais, e certamente ha muito pouco nele  para excitar o corpo geral dos profissionais da economia. A economia parece, como se  por um milagre deixado de ser um campo de batalha entre ideologias conflitante. Como veremos, existem muitas  e as vezes profundas  diferencas de opiniao sobre questoes especificas , especialmente no que diz respeito a ponto especificos da politica economica. Mas,  embora possa ser exagerado dizer, (parafraseando Sir William Hascourt "agora somos todos keynesianos"[a frase nao e original de Nixon, j amaral] parece que em nossos momentos analiticos a maioria  dos economistas esta preparada para aceitar as inovacoes de Keynes e seus discipulos como certas. (Roll 1968: vi-vii)

1 - REACOES A CRISE  DO KEYNESIANISMO

Praticamente todos estao disposto a concordar que um profundo mal estar agora aflige  a outrora aparentemente onipotente economia politica keynesiana.Muito sao de opiniao que ja vimos o fim  da era keynesiana. Mas ha pouco consenso entre os economistas ortodoxos sobre a natureza do  mal que aflige essa economia politica, sua origen e os meios para a sua solucao, supondo que ele nao seja de natureza terminal.  
Este livro tenta, do ponto de vista marxista, examinar varios aspectos da crise que permeia o keynesianismo em assim, fornecer uma critica a essa economia politica. Temos que fazer essa critica porque, por mais severa  que seja sua situacao, as ideias keynesianas ainda mantem uma influencia importante, principalmente no movimento trabalhista britanico. Assim, na chamada  Estrategia Economica Alternativa,  proposta pelo Trade Union Congress/Central  Sindical britanica,  e outros em oposicao as politicas economicas seguidas pelos governos Thatcher  desde 1979 - um grande elemento de keynesianismo e claramente visivel. Este  capitulo inicial examina essa crise, descreve varias reacoes de economistas e outros a ela e, ao faze-lo, esboca os principais do livro.
E quase geralmente aceito que o sistema capitalista esta atualmente passando por sua crise mais severa desde os anos de 1930. Apos o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, um quarto de seculo de expansao, interrompido por recessoes relativamentes fracas e localizadas nos principais capitalistas, explodiu repentinamente a violenta inflacao dos anos de 1970, posteriormente o colapso resultando em uma recessao global que, julgando pelos padroes  dos anos do pos-guerra, permanece sem precedente na sua  severidade  e duracao..Uma importante vitima dessa crise foi a economia politica keynesiana, cujo mal estar severo ou mesmo a morte foi celebrada ou lamentada eem varios pontos do compasso politico.
De acordo com a narrativa convencional da historia da  teoria economica, ate a decada de 1930, a maioria dos economistas defendia com seguranca que a expansao equilibrada das forcas produtivas do capitalismo em geral, garantiria condicoes de estabilidade economica, crescimento e pleno emprego. O desemprego costumava ser atribuidos as  "imperfeicoes" do mercado, especialmente  aquelas relacionadas  a rigidez salarial. Qualquer desemprego persistente foi considerado causado pela relutancia dos trabalhadores em aceitar um nivel de salario que "esvaziaria" o mercado. Foi a crise das decadas de 1920 e 1930 que lancou essa teoria  economica (designada por Keynes como economia "classica") em uma severa crise. Keynes surgiu como a principal figura que tentou explicar  essa crise economica e tracar um curso para resolve-la. O resultado foi a economia politica keynesiana que emergiu como a teoria economica padrao do mundo pos guerra, exercendo um poderoso dominio intelectual ate o  passado bem recente. Gracas a essa nova economia politica, era amplamente aceito que, dada uma manipulacao apropriada dos agregados orcamentarios e politicas monetarias adequadas, o que Keynes denominaria de nivel de demanda efetiva poderia ser elevado a um ponto em que todo desemprego involuntario fosse mais ou menos eliminado.
Escrevendo sobre a decada seguinte ao fim da guerra, JK Galbraith disse"Dentro de uma decada [depois de 1945], a crenca de que a economia moderna estava sujeita  a uma deficiencia na demanda - e que uma  acao governamental compensatoria seria necessaria - estava perto de se tornar a nova ortodoxia" 
(Galbraith 1973:189)

KEYNES E O RADICALISMO

Agora, se essa politica do tipo keynesiano foi realmente praticada depois de 1945 e se, praticada, foi responsavel pelo periodo praticamente ininterrupto de expansao apos o fim da Segunda Guerra sao pontos discutiveis. Muitos comentaristas poem em duvidas essasa duas proposicoes. Mas um fato esta fora de discussao: se nao como uma politica economica, certamente como uma ideologia, o keynesianismo exerceu uma influencia poderosa depois de 1945. Na esquerda principalmente, foi em regra assumido que gracas a descobertas de Keynes na teoria economica, uma crise politico-social do tipo que eclodiu com consequencias catastroficas na decada de 1930 agora era em grande parte  uma coisa do passado. Em particular, o keynesianismo teria fornecido uma  a resposta ao marxismo que teria conquistado uma boa camada da juventude intelectual na "decada vermelha de 1930". Considerando o livro Teoria Geral, o "livro mais influente sobre economia politica e social neste seculo", Gaibraith certamente nao se enganou quando declarou que "Enfim, ainda que nao seja aceito por todo mundo, podemos declarar que a revolucao keynesiana foi uma das grandes conquistas modernas de projetos sociais. Isso paralizou totalmente o marxismo nos paises avancados. (Galbraith 1971: 433-4)
Galbraith estava tao confiante na vitoria do keynesianismo que ele poderia lamentar o fato de que o "velho" problema microeconomico na economia - a alocacao de recursos escassos entre fins concorrentes - havia sido forcado a sair da agenda, com a consequencia que problemas essenciais, principalmente  a contradicao entre a vontade publica e as necesidades privadas, foi agora  seriamente neglegenciado
Essas ideias exerceram uma influencia consideravel na Gran Bretanha nas decadas de 1950 e 1960, principalmente nos circulos do Partido Trabalhista, onde uma ala do partido surgiu declarando que o marxismo estava agora desacreditado e desastualizado, e exigindo que um compromisso ate nominal com os objetivos socialistas, consusbstanciado na clausula 4 da constituicao do partido fosse descartada. O impacto da ortodoxia keynesiana prevalecente pode ser medido em uma serie de livros em uma serie de livros influentes de escritores como Anthony Crosland, do ex-marxista John Strachey e outros exaltando as virtudes do novo capitalismo pos guerra que, gracas a Keynes teria superado sua tendencia a crise e, assim, tornar o marxismo obsoleto. Como declarou Stuart Holland: "Keynes nao era socialista e ignorava quase completamente a obra do pai do fundador do socialismo moderno - Marx. Entretanto, ele teve mais influencia sobre os socialistas britanicos do pos-guerra do que qualquer  outro teorico do nosso tempo. Tambem podemos discutir que, sozinho, ele enterrou o marxismo para uma geracao da esquerda britanica. (Skidelsky -ed- 1977) 
E facil ver o que atraiu o pensamento radical para o keynesianismo. Keynes era a favor de medidas limitadas de reforma social. Ele duvidou da eficacia do controle monetario sem ajuda. Defensor incisivo da propriedade privada, ele nao obstante defendia que a "socializacao do investimento" serviria para tornar o capital abundante e , assim, forcar a queda da taxa de juros a zero, talvez no epaco de 25 anos. Enquanto o capital privado continuaria, as reivindicacoes do capital rentista seria destruido. A cena resultante seria um mundo do tipoFabiano em que as desigualdades mais grosseiras de riquezas deveriam ser removidas por meios fiscais (Keynes apoiava  um grau ""moderadamente conservador" de redistribuicao de renda como forma de aumentar o consumo), onde nenhuma recompensa e extraida por "capital improdutivo" e onde o emprego e preservado perto de seu maximo pela manipulacao do investimento estatal. Nao e de admirar que, com alguma justica, Keynes pudesse ser saudado como o novo apostolo da social democracia do pos-guerra.
Com base neste tipo de concepcao surgiu um consenso geral. O capital deixado sem regulamento ainda pode se mostrar sujeito a crises, mas, dadas as politicas sociais  e economicas adequadas pelo Estado, quaisquer instabilidades poderiam  ser mantidas  dentro de limites politicamente aceitaveis. Keynes, ao que parecia, havia garantido o futuro do capitalismo, embora um capitalismo um tanto diferente do tipo laissez-faire que existiu durante grande parte do seculo XIX. A politica agora poderia ocupar o meio termo, preocupando-se com o equilibrio das medidas a serem seeguidas para alcancar os objetivos geralmente aceitos dentro da estrutura de um capitalismo de bem-estar benefico.
Alguns, e claro, foram alem, negando que na era de Keynes qualquer uso significativo pudesse ser feito do termo capitalismo. Viviamos agora na era da Sociedade pos-industrial, para usar o termo preferido pelo sociologo norte americano Daniel Bell, Outros preferiram a nocao de capitalismo industrial, outros ainda a de sociedade tecnocratas. Quaisquer que fossem as diferencas existentes entre essas concepcoes, eles se uniram ao declarar o marxismo antiquado, uma doutrina, na melhor das hipoteses, um reflexo das condicoes do Seculo XIX que, felizmente havia desaparecido.
Enquanto uma minoria de economistas radicais como Galbraith se ressentia do fato de que a economia parecia ter pouco espaco para julgamentos sobre a escolha economica - ele apontou para a crescente miseria publica que o crescimento da riqueza privada parecia acarretar - outros aceitaram positivamente o fato de que os problemas sociais ou melhor, problemas que ate entao eram considerados sociais, assumiam agora uma forma puramente tecnica, concernente, no essencial,  a questao da alocacao mais eficiente (economica) dos recursos humanos e materiais para a satisfacao das necessidades pessoais. A economia tinha finalmente atingido a maioridade. Investido com consideravel prestigio por causa de sua aparente capacidade, depois de Keynes, de resolver problemas ate entao intrataveis, seus procedimentos estavam se tornando cada vez mais rigorosos, empregando tecnicas matematicas, e aspirando a precisao e metodos que foram assumidos para para guiar as ciencias fisicas. A economia poderia olhar de cima para baixo com certo desprezo  para as ciencias sociais como ainda em  estagio infantis. Eric Roll recapitulou a situacao relativamente nova e feliz do pensamento politico economico  da epoca" Por um periodo de trinta anos apos o surgimento da Teoria Geral de Keynes, o status da economia politica, em granda parte associado a sua abordagem geral, cresceu continuamente ate atingir uma posicao de autoridade, tanto como um ramo das ciencias sociais quanto como uma ferramenta para a melhor solucao de assuntos humanos, sem paralelo em sua historia e inigualavel por qualquer das ciencias fisicas.[Roll 1973:548]
A posicao de lideranca, quase incontestavel, ocupada pelo keynesianismo sem duvida deixou sua marca no marxismo. Houve aqueles marxistas que aceitaram a nova economia politica de Keynes e acreditando que o capitalismo havia realmente resolvido seus problemas fundamentais - pelo menos na esfera economica - voltaram sua atencao para outroa esferas: para os problemas culturais residuais que ainda afligiam o capitalismo. Aqui estava uma tendencia internacional, encontrando uma variedade de expressoes: o trabalho da escola de Frankfurt: nos Estados Unidos o de Herbert Marcuse e na Gran Bretanha o da Nova Esquerda. Um resultado de tais tendencias foi um abandono de um estudo da obra de Marx na economia, conforme  elaborado em O Capital, em favor do Marx, o "humanista" e "filosofo", conforme exemplificado nos Manuscritos de Paris de 1844, com o tema da alienacao. Isso nao apenas dividiu artificialmente o trabalho de Marx ao longo de linhas bem injustificadas, mas tambem significou que os marxistas tendiam em seus trabalhos a refletir a crescente fragmentacao das ciencias sociais, cada qual engajado em seus compartimentos hermeticamente fechados.
Em um plano mais restrito, os marxistas que continuaram a trabalhar na esfera da economia politica tambem foram frequentemente influenciados pela sabedoria convencional keynesiana predominante, na medida em que agora estavam inclinados a acreditar que certas formas de acao do Estado poderiam eliminar as tendencias ciclicas dentro do capitaslismo. Isso, por sua vez, levou alguns a ler o Capital de Marx atraves do prisma de uma variante ou outra do subconsumismo. Por subconsumismo entende-se a concepcao, compartilhada por uma variedade de escritores na historia da economia politica, incluindo Malthus e JA Hobson, que um estado de estagnacao economica nao e simplesmente uma fase passageira do ciclo economico capitalista, nem o resultado de uma forca conjuntural momentanea e fortuita, mas uma condicao para a qual a economia capitalista tende espontaneamente na ausencia de forcas contrarias, incluindo (para alguns pelo menos) acao estatal apropriada. Deixaremos de lado  por enquanto, a questao de saber se a Teoria Geral de Keynes pode legitimamente ser considerada como estando dentro da tradicao do subconsumismo. Nao resta duvidas, no entanto, que o subconsumismo foi a base para a tese  estagnacionista popular imediatamente apos o fim da guerra e apresentada por varios economistas que, em particular nos Estados Unidos, surgiram como os principais defensores e interpretes de Keynes. (Na opiniao de Joseph Schumpter, "Keynes pode ser  creditado ou debitado, conforme o caso, com a paternidade do estagnacionismo moderno"[Schumpter 1963" 1172]. Alvim Hansem foi um dos principais defensores da opiniao de que provavelmente o principal problema  enfrentado pelo capitalismo depois de 1945 foi o da estagnacao. Mas era uma opiniao sobre o problema essencial enfrentado pelo capitalismo de forma alguma confinada a esses circulos keynesianos. Para citar apenas um exemplo, um trabalho como  Capital Monopolista de Baran e Sweezy que foi publicado em meados da decada de 1960, viu o problema central do capitalismo como estando associado nao a sua incapacidade de extrair mais-valor, mas a geracao de um excesso de mais-valor. Gracas a capacidade dos monopolios de manipular seus precos, foi criada mais mais-valia do que poderia ser acumulada e isso exigiu gastos cada vez maiores e irracionais por parte do Estado, que iria "desperdicar" esse excedente. |Uma  subvariante desse tema essencialmente subconsumista era a tese que sustentava que a estabilidade do capitalismo no pos-guerra repousava em um orcamento crescente de armas que proporcionou um vazamento efetivo para um volume crescente de mais-valia e permitiu ao capitalismo escapar das consequencias da lei que Marx considerou como a mais fundamental de todas: a lei da tendencia da taxa de lucro declinar.
Como agora e obvio, a teoria de um capitalismo "transformado" sem crise provou, para dizer o minimo, um tanto otimista. A unanimidade virtual de outrora entre economistas e politicos sobre os resultados positivos a serem obtidos com o emprego de politicas economicas do tipo keynesiano foi agora esfacelada, muito diriam isso irrevogavelmente. A inflacao quase  galopante no inicio da decada de 1970 combinada com o colapso da producao industrial e do emprego em muitos aspectos, superando o declinio visto no periodo apos 1929, desafia a logica central do keynesianismo, onde tais coisas  nao deveriam acontecer simultaneamente{1} Em uma recente palestra, Sir Charles Carter perguntou um tanto lamentoso: "O que ha de errado com Keynes?" [Carter 1981] Ele ressaltou que na decada de 1960, de acordo com o preceito do keynesianismo, em situacao de crise o governo - dentro dos constrangimentos impostos pela situacao do balanco de pagamentos - teria aumentados gastos e reduzido impostos. Agora  exatamente o oposto estaria ocorrendo. E Carter corretamente chamou a atencao para o fato de que esta nao era uma politica economica  confinada ao governo Thatcher, o resultado de alguma ideologia aberrante, por assim dizer, pois em face do aumento de desemprego e da inflacao politicas semelhantes  foram adotadas pelos governos Wilson-Callaghan de 1974-79. Na verdade, foi James Callaghan, entao primeiro-ministro, que advertiu na Conferencia do Partido Trabalhista de 1976 que pessoalmente ele pensava que nao era mais possivel sair de uma estagnacao gastando, declarando assim a setenca de morte do keynesianismo: "Costumavamos pensar que voces  poderiam gastar seus dinheiro para sair de uma recesssao e aumentar o emprego cortando impostos e aumentando os gastos do governo. Digo-lhes com toda a franqueza que essa opcao nao existe mais e que, na medida em que ela existiu, so funcionou em cada ocasiao desde a guerra, injetando uma dose maior de inflacao na economia, seguida por um nivel mais alto de emprego como proximo passo".
Por causa de sua fraqueza cronica, a economia britanica dos anos 1960 ja previa uma crise que assumiria proporcoes internacionais na decada seguinte.Em meados da decada de 1960, uma serie de medidas deflacionarias selvagens levadas a cabo por um governo trabalhista a pedido do Fundo Monetario Internacional, que  simplesmente  nao conseguiu corrigir um problema de longa duracao no balanco de pagamentos. O fracasso dessas medidas acabou forcando a desvalorizacso da libra esterlina em 1967, que por sus vez resultou em uma serie de graves pertubacoes nos mercados internacionais de ouro e moedas. O resultado final foi a decisao tomada pela administracso norte americana em agosto de 1971 de remover o lastro em ouro do dolar, um dos pontos que garantiu os arranjos monetarios de Bretton Woods do pos-guerra  aos ultimos 25 anos ou mais. .E esta crise economica, com suas implicacoes politicas e sociais concomitantes, que mergulhou tanto a teoria economica quanto a formulacao da politica economica em uma crise. Em sua extensao e profundidade, essa crise certamente promete eclipsar a crise dos anos 1930. John Hicks, um dos principais interpretes de Keynes desde os tempos da Teoria Geral em 1936 defende que os problemas atuais do keynesianismo apresentam uma das questoes mais graves com as quais o mundo agora esta confrontando, [Hicks 1974]
Certamente, nem todos compartilham  o pessimismo de Hicks. Alguns esperam que um novo Keynes surja de alguma forma para resolver nossos problemas teoricos e praticos atuais; enquanto isso, como Micawber, devemos ir se ajeitando aos trancos e barrancos com as ferramentas que estao disponiveis.  Outros sugeriram que ha pouca coisa fundamentalmente errada com a teoria economica ortodoxa. Nosso mal-estar provem do fato de que existe uma preocupacao exagerada  com a teoria enquanto teoria. O que e necessario nao e mais teoria, mas  dados melhoes e mais sofisticados, nos quais basear politicas economicas racionais. Visto deste angulo, os problemas que enfrentamos giram em torno de uma divisao falha entre os economistas entre trabalho teorico we trabalho aplicado.
Mas para aqueles que ainda atribuem importancia central a questoes de teoria economica, e que estao preocupados com a crise keynesiana, ha pouca unanimidade sobre 1. o significado real da contribuicao de Keynes para a economia politica. 2.  sua relevancia contemporanea. Qualquer opiniao marxista sobre  Keynes deve abordar essas duas questoes. Aqui, como introducao, resumimos uma serie de respostas a essas  perguntas de varios pontos de vista nao marxistas.

A CONTRA REVOLUCAO MONETARISTA

Um grupo, que em certo sentido, esta fora das principais disputas em torno do keynesianismo e a escola austriaca  de economia politica, inspirando-se na obra de Hayek e Ludwig von Mises, (A obra de Lionel Robbins (1932) foi uma expressao de sua influencia entre certos economistas ingleses). Hayek foi, ao longo da vida, um oponente do socialismo e de quaisquer esquemas para administrar conscientemente a sociedade, e isso ele justifica atraves da concepcao do mercado como um sistema de informacao que permite utilizar a informacao economica dispersa por um enorme numero de agentes produtivos. Hayek foi um dois mais determinados oponente de Keynes e por um culto periodo sua teoria foi considerado uma possivel alternativa a nova economia politica. De acordo com Hayek, a responsabilidade pela situacao critica que  as economias ocidentais atualmente  enfrentam nao recai sobre o capitalismo como tal, mas sim sobre politicas  monetarias e fiscais erroneas de longa data que se originaram da influencia  do keynesianismo.. Hayek e os austriacos geralmente consideram errada a explicacao keynesiana do desemprego involuntario como sendo devida a falta de demanda efetiva. Na realidade, ele seria causado por uma serie de desiquilibrio entre a oferta e demanda nos mercados de trabalho de setores especificos da economia. O pleno emprego so poderia seer restaurado com base no reajuste de precos e salarios em cada setor individual da economia, de modo que a oferta e demanda estejam novamente em equilibrio. Em outras palavras, Hayek e um defensor da velha ideia de corte de salarios como uma cura de desemprego, uma politica que Keynes supostamente teria rejeitada ha muito anos. Para Hayek, foi a politica keynesiana de estimular a demanda  para combater o desemprego que gerou inflacao. Em sua economia ideal, os precos seriam estaveis, mas os salarios sao flexiveis, o orcamento estaria em equilibrio e o Estado perderia seu direito de monopolio de emitir dinheiro, com seu papel de provedor de empregos severamente reduzido. A economia politica austriaca e uma escola baseada no individualismo extremo e um anti empirismo pronunciado. Isso levou os austriacos a uma profunda suspeita nao da macroeconomia keynesiana em si, mas sim da possibilidade de chegar a quaisquer agregados macroeconomicos como consumo, investimento, renda nacional ou um indice geral de precos. Como cada agente individual no processo economico e unico, a tentativa de somar as atividades  de tais individuo e inutil. Nesse sentido, Hayek e sua escola atacam a "sintese neoclassica" de uma posicao diametralmente oposta a dos pos-keneysianos. Nao foi o keynesianismo que teria feito concessoes injustificadas a ortodoxia neo-classica, mas ao contrario, os neoclassicos, ao abracarem o tipo de maceroagregados que o keynesianismo implicava, teriam comprometidos seriamente seus principios.
Do ponto de vista de seu papel ideologico e do tipo de politica economica que propoe, o monetarismo - cuja figura centrall e Milton Friedman - tem sido, no entanto, uma corrente da critica da ortodoxia keynesiana muito mais significativa do que a dos austriacos.  Em essencia, o monetarismo envolve o apelo a um retorno a alguma versao ou outra de uma teoria economica pre-keynesiana "solida". Especialmente na esquerda, era amplamente assumido que, sem intervencao governamental radical na economia, o fim da Segunda Guerra Mundial traria, na melhor das hipoteses, um periodo de estagnacao cronica ou, na pior, um colapso total da economia. Por razoes a serem discutidas posteriormente (capitulo 4) esse nao foi o caso e a inflacao gradualmente emergiu como um problema economico e politico central. Foi sob o impacto dessas pressoes inflacionarias, especialmente quando elas aumentaram dramaticamente na decada de 1970, que o monetarismo surgiu como a nova "doutrina  economica contra-revolucionaria " da moda.
Friedman foi uma figura proeminente entre a minoria de economistas do pos-guerra que rejeitaram os remedios para os males do capitalismo proposto por Keynes e seus seguidores. Ele nao apenas era um oponente do tipo de intervencao estatal defendida por Keynes, mas tambem apresentou uma explicacao bem diferente para a queda  economica na decada de 1930, que levou Keynes  escrever a Teoria Geral. Em um ponto nao insignificante Friedman concordou com Keynes: a tremor de 1929 poderia ter sido evitado. Mas para Friedman, a queda foi gerada nao por um nivel inadequado de gastos do governo ou pela falta de vontade de tomar emprestimos, mas pelo fracasso do FED em fornecer liquidez adequada para o sistema bancario. Quando a crise comecou, apos o colapso de Wall Street, o FED deveria ter permitido um aumento na oferta de dinheiro. Em vez disso, fez exatamente o  oposto e, como resultado, as falencias de bancos se multiplicaram e se seguiu um colapso geral. [2]
De acordo com Friedman, a economia "real" e fundamentalmente solida. Qualquer mal-funcionamento que experimenta e gerado por disturbios na esfera monetaria. (de um ponto de vista historico, Friedman nao estava aqui dizendo nada essencialmente  novo, ja que ha muito havia uma corrente  na economia ortodoxa que invocava disturbios monetarios como base para suas teorias de deslocamentos dentro da economia capitalista., algo que nao pode surpreender dado o dinheiro e o elo que conecta as transacoes comerciais, o Estado atraves dos bancos) Friedman tentou mostrar que as mudancas no estoque monetario precederam grandes reviravoltas no movimento ciclo da economia e que a condicao central para  a estabilidsade economica e uma politica  monetaria solida que atue nao sobre as taxas de juros, mas sobre a oferta de moeda.  Para Friedman, a politica monetaria e o instrumento decisivo para a regulacao da taxa de cambio, do nivel de precos, do nivel nominal de renda nacional e, por meio de mudancas na oferta de moeda, da taxa de inflacao e deflacao/
A influencia que as ideias dos monetaristas tem desfrutados no passado recente, sem duvida, deriva, pelo menos  em parte, de sua aparente simplicidade: o controle de uma variavel no sistema economico (a oferta de moeda) oferece a chave para a regulamentacaso de todas as outras. Mas se as ideias de Friedman fornecem uma chave para a compreensao da crise do capitalismo contemporaneo e uma questao totalmente diferente, como veremos[3].
Mesmo no ponto que o monetarismo considera ser o seu ponto mais forte - sua correspondencia com "os fatos"- duvidas consideraveis cercam agora a obra de Friedman. Assim, em um artigo recente publicado pelo Banco Central da Inglaterra, foi sugerido que Friedman manipulou severamente seus dados a fim de estabelecer a proposicao central monetarismo, ou seja que as  mudancas na oferta de moeda tem uma conexao extreita e causal com a taxa de inflacao de precos, O monetarismo baseia-se  na conhecida equacao de Fischer, MV=PT: a oferta de moeda(M) multiplicada pela velocidade de sua circulacao(V) e igual ao nivel de precos(P) multiplicado pelo numero de transacoes no determinado periodo(T). Mas o monetarismo prosegue afirmando que, como V e T sao relativamente estaveis, a equacao pode ser reduzida a um em que M=P. Agora, neste exame do principal trabalho de Friedman por um notavel econometrista (Hendry 1983), foi descoberto, por exemplo, que Friedman reduziu os valores do estoque de dinheiro em 20% nos anos 1921-55 (o que equivale a quase um terco da extensao de seus estudos) justificando de que as guerras e as depressoes fazem com que as pessoas tenham mais dinheiro do que em tempos normais. Da mesma forma, Friedman aumenta o nivel de precos do pos-guerra para permitir controles e  racionamento de precos: ele argumenta que o nivel de precos deve ter sido mais alto do que as estatisticas oficiais revelam, ja que a oferta de moeda cresceu mais rapidamente que os precos. Hendry entao mostra  que o vencedor do Premio Hobel usa seus dados modificados para substanciar sua tese central: que o movimento dos precos depende do movimento da oferta de moeda, o caso mais claro de raciocinio circular. Em outras palavras, Hendry sugere que as proposicoes de Friedman sao afirmacoes sem bases empiricas.
Este livro nao tera uma preocupacao central com as reividicacoes dos monetaristas.[4] Mas, em qualquer caso, a opiniao otimista de Roll de que havia quase unanimidade entre os economistas sobre os problemas fundamentais da teoria economica e que a maioria aceitava os principios do keynesianismo nao e mais valida. Pois nao apenas o keynesianismo foi atacado pela escola de Chicago, como tambem foi atacado por uma variedade de angulos diferentes. Para alguns, ao que parece, o keynesianismo que predominou apos 1945 teve pouco a ver com o artigo genuino encontrado nos escritos do proprio Keynes

KEYNESIANISMO BASTARDO

O professor Hutchison esta entre aqueles que argumenta que no mundo do pos-guerra um pseudo-keynesianismo era praticado, o qual tinha pouca conexao com o ensino original de Keynes. A doutrina keynesiana tornou-se um dogma que era usado para justificar politicas de expansao e crescimento, com pouca consideraco pelo custo de tais medidas. Ele ve quatro elementos neste falso keynesianismo. Em primeiro lugar, politicas foram seguidas por governos que levaram o nivel de  desemprego abaixo do nivel considerado por Keynes como seguro. Em segundo lugar, estrategias de crescimento de acordo com o potencial maximo (crescimento total) foram seguidas e isso se tornou o objetivo principal da politica economica. Por outro lado, a estabilidade de precos foi dada  pouca importancia. Qualquer tendencia a inflacao deveria ter sido combatida com politicas salariais. Para cada dessas posicoes, Hutchison encontra pouco apoio nos escritos de Keynes. Em apoio a essa afirmacao, ele chamou a  atencao para uma serie de artigos escritos por Keynes em 1937 que  opunham a ideia de que a ameaca de outra recessao poderia ser evitada por mais gastos do governo. Hutchison resume seu argumento da seguinte maneira: "Sao as reivindicacoes urgentes de uma serie grande  de objetivos politicos, ou o fato de que, durante grande parte do periodo pos-guerra, a economia britanica esteve em, ou quase  perto, de uma especie de fronteira de formulacao de politicas - que constitui um contraste completo com as situacoes politicas que Keynes enfrentou nos anos entre guerras. Keynes afirmou que, quando se passa das condicoes de desemprego para as de pleno emprego, uma serie de proposicoes teoricas e  politicas que se sustentam em um caso deixam de valer no outro...Os problemas de politica certamente assumem uma forma muito diferente e mais complexas quando se sai de uma economia com uma media de desemprego de 14%... para uma com media de 1,5 a 2%.(Hutchinson 1968)
Uma consequencia do trabalho de Hutchison e desvalorizar todo o conceito de revolucao keynesiana, certamente no que diz respeito as suas implicacoes para a politica, Ele sugere que, de qualquer modo, entre os economistas profissionais, havia um amplo consenso sobre a politica economica no final da decada de 1920 e inicio de 1930.Cada uma ou duas excecoes dignas de notas (concentradas na London School of Economics/LSD), praticamentre todos os economistas, quaisquer que fossem as diferencas de carater teorico que os separassem, e o que quer que sua teoria economica sugerisse, se opunham ao corte de salarios como meio de reduzir o desemprego nas condicoes especificas entao prevalecentes.... Isso vale principalmente para o professor Pigou, que, argumenta Hutchison, deve ser isentado da acusacao generalizada de que ele era um defensor das reducoes salariais para resolver a crise dos anos 1930. Hutchison e um economista que duvida que qualquer significado real possa ser dado ao termo "economia classica", novamente no que diz respeito as questoes politicas. Aqui e colocada uma serie de problemas sobre o lugar de Keynes na historia da economia politica e sobre o verdadeiro carater da revolucao keynesiana, assuntos aos quais nos voltaremos no proximo capitulo.
Os "pseudoskeynesianos" de Hutchison incluem os membros da escola de Cambridge, a figura principal entre os quais por muito anos foi Joan Robinson. Agora, ironicamente, Joan Robinson, como Hutchison, e de opiniao que o keynesianismo que surgiu no mundo do pos-guerra nao era o artigo genuino: ela o denominou sarcasticamente "keynesianismo bastardo". Mas sua opiniao sobre o que constitui o keynesianismo genuino e muito diferente da proposta de Hutchison, ela propria uma indicacao do avancado estado de desintegracao que prevalece na economia. A reclamacao de Robinson resume-se ao fato de que o que se passava por tecnicas keynesianas - tecnicas que ela acreditam terem sido usadas para manter o sistema capitalista funcionando apos a guerra - na verdade teria obscurecido o verdadeiro carater revolucionario do pensamento de Keynes.
A versao de Keynes reproduzida em inumeros de livros didaticos que parece ter ofendidos Robinson e outros pode ser resumido assim: Ela ve a economia como uma maquina que consiste numa serie de fluxos, cujas relacoes sao altamente estaveis, em principio conheciveis e portanto, em principio tambem previsiveis, a partir das experiencias anteriores. Se um fluxo para toda a economia deixar de ocorrer a uma taxa apropriada, a deficiencia pode ser reparada pela intervencao e regulacao do governo sobre os fluxos sobre as quais ele tem controle direto - os niveis de tributacao e gastos publicos. Existem relacoes estaveis e conhecidas entre gastos e receitas de governo (e por extensao, emprego); pela manipulacao apropriada de taix fluxos, o volume de empregos pode ser ajustado de acordo com os objetivos da politica: "....um novo edificio teorico foi erguido que seria reconectado a teoria neoclassica da harmonia e apenas participa na distribuicao de renda. O velho otimismo sobre este ser o melhor (e justo) mundo foi reafirmado. O automatismo classico da economia de mercado, mantendo o pleno emprego e garantindo a alocacao otimas de recursos, acaba se ser substituido pela maquina deus ex composta pelo Tesouro e o Banco Central. ......O novo sistema autoconsistente e determinado foi completado pela ideia de que os politicos poderiam escolher a seu criterio o nivel de desemprego - a partir de um menu servido por econometristas - que esse nivel seria uma expressao da vontade da  comunidade e dependeria de quanta inflacao ela estavam disposta a tolerar. [Balogh em Thirwall (ed) 1974:83-4] {5}

POS-KEYNESIANISMO

Balogh esta aqui refletindo os pontos de vista de uma tendencia que se tornou conhecida como neo-keynesianismo ou pos-keynesianismo (em geral, o ultimo termo sera empregado neste livro). Foi uma tendencia ou escola que se opos ao modelo padrao de receita-gasto ou a versao ortodoxa dos livros didaticos da Teoria Geral, em oposicao, isto e, aqueles que liam essa obra a partir da teoria do equilibrio geral. Agora neste ultimo ponto e, apesar das afirmacoes dos pos-keynesianos, a Teoria Geral realmente contem muitas afirmacoes no sentido de que, com o estabelecimento de pleno emprego, as leis do equilibrio geral entram em operacao e a economia entao funciona segundo as  linhas sugeridas pela teoria neoclassica; Alem disso, essa posicao  de equilibrio geral poderia ser restabelecida por meio da politica fiscal e monetaria. Aqui estava a  base para o casamento do keynesianismo e a velha teoria neoclassica para produzir a sintese neoclassica que, por sua vez forneceu a justificativa para a nocao de "economia mista" e a intervencao governamental. A partir de meados da decada de 1960, porem, uma nova geracao de keynesianos emergiu critica dessas interpretacoes tradicionais, entre eles, Clower, Leijonhufvud, Paul Davidson e Sydney Weintraub. Seu principal alvo de  ataque foi a leitura  de Keynes proposta por Hicks, Hansen, Samuelson e outros. Clower por exemplo, argumentou que a teoria de Keynes era mais do que qualquer outra coisa uma teoria de desiquilibrio, uma teoria que descreve uma economia que nao buscava restabelecer o equilibrio, mas continuament pertuba-la. Segundo Clower, essas instabilidade surgem de informacoes imperfeitas, da diferenca de  magnitudes esperadas e realizadas, fatores que sao fontes potenciais de reacoes em cadeia na economia e que minam incessantemente seu estado de equilibrio. Leyjonhufvud como Clower, defendeu que a teoria de Keynes nao pode ser reduzida a um caso particular de equilibrio porque nao ha, de fato, equilibrio; os desiquilibrios da economia nao sao acidentais, mas organicos, resultados da incerteza, das imperfeicoes da informacao economica e das respostas economicas inelasticas as varias mudancas.
Weintraub(1973) fornece uma lista  das principais objecoes que essa escola mantem contra o keynesianismo ortodoxo.Em primeiro lugar, simplifica demais a natureza da economia e sugere que ela pode sofrer inflacao ou desemprego, mas nao os dois simultaneamente. Em segundo lugar, da pouca atencao a importancia das mudancas de precos no funcionamento da economia. Terceiro, ignorou amplamente a incerteza e as informacoes  inadequadas como determinantes do nivel de investimento. Quarto, o keynesianismo ortodoxo abstraiu-se dos problemas de distribuicao e, assim, lancou as bases para uma divisao injustificada entre a macro e microeconomia.  Quinto, interpretou erroneamente a teoria de Keynes como sendo uma teoria preocupada com a economia em estado de repouso, embora ela fosse essencialmente dinamica.
De todos os escritores que enfatizaram essa questao da icognoscibilidade inerente do futuro e as consequencias desse fato para a teoria economica, GLS Shackle foi foi uma figura proeminente e descrita por um escritor (Loadsby 1976) como o unico keynesiano genuino. E assim que Shackle ve os esforcos do keynesianismo ortodoxo para casar a velha economia do equilibrio com a Teoria Geral: "No final dos anos 1920 e 1930, um grande espasmo de esforco criativo na teoria economica respondeu a visivel dissolucao do mundo vitoriano comparativamente ordenado no qual Marshall foi capaz de discernir a perfectibilidade gradual da organizacao industrial e social, aludindo a perfectibilidade da natureza humana  em si. Essa traquilidade foi destruida, e a teoria da vida economica que a refletia precisava ser transcendida e ate mesmo totalmente subvertida. Nao apenas o projeto detalhado do relato do economista  sobre as coisas necessitava ser mudado, mas seus pressupostos fundamentais, seus propositos e ambicoes, o que afirmava fazer, teve de ser essencialmente reconsiderado. Essa reorientacao foi dificil de aceitar e ainda nao tem aceitacao geral. (ver Weinbraub 1979: 37)
Como observamos, ao enfatizar o papel do desiquilibrio e da incerteza, os criticos da leitura ortodoxa de Keynes apontam para a instabilidade financeira  do sistema  economico capitalista: a incerteza produz flutuacoes na economia precisamente por causa de  seu elaborado sistema de  instituicoes monetarias e financeiras que sao especialmente vilneraveis a mudancas sob o impacto de expectativas pessimistas ou otimistas. Esse e o tema de um livro publicado em meados de 1970, que fornece uma interpretacao de "esquerda" do keynesianismo pelo economista norte americano Professor Hyman Minsky (Minsky 1976). Como Bologh, Minsky se ressente profundamente do fato de que a revolucao keynesiana foi abortada no periodo apos a ultima guerra. Ele tambem sustenta que "a teoria economica classica keynesiana integrada - o que e rotulado de sintese neoclassica - violenta tanto o espirito quanto a substancia da obra de Keyne" (ix), Ele prossegue na seguinte linha sobre oa Teoria Geral: "a obra contem as sementes para uma profunda revolucao intelectual na economia e na concepcao do economista da sociedade, No entanto, essa sementes nunca alcancaram sua plena fruicao. A revolucao cientifica embrionaria foi abortada quando as ideias do livro foram interpretadas e analisadas por academicos e, em seguida, aplicadas por esses mesmos academicos como um guia para politicas publicas. (Minsky 1976:4)
Como alguns keynesianos da escola de Cambridge, Minsky enfatiza a instabilidade inerente do capitalismo, o fato de que a tomada de decisoes ocorre necessariamente sob condicoes de incerteza e que as relacoes e instiuicoes financeiras desempenham um papel central em seu funcionamento. E foi porque Keynes viu essas questoes como centrais que seu livro, longe de estar morto, tem grande relevancia, desde que seja interpretado no espirito correto. Entao: ..nas facetas negligenciadas da Teoria Geral, ha uma teoria dos processos de uma economia capitalista que e muito mais apropriada para  os problemas de analise economica e politica que agora enfrentamos do que a que esta contida na teoria economica padrao. (ibid)

KEYNES E A ECONOMIA POLITICA CLASSICA

Agora, as implicacoes da abordagem de Minsky para a mensagem geral da Teoria Geral e continua relevancias para os problemas atuais da economia capitalista e sao importantes nao apenas para a politica economica, mas para uma valiacao do lugar real de Keynes no desenvolvimento da teoria economica. Joan Robinson tem estado na vanguarda daqueles que insistem que a economia keynesiana, devidamente interpretada, pertence nao ao neoclassico mas a tradicao classica representada por Adam Smith e, sobretudo, por David  Ricard. Isso porque Keynes, como Smith e Ricardo, se preocupava com agregados economicos. O problema neoclassico tipico, conforme formulado em uma longa serie de escritos de Jevons em diante, dizia respeito ao processo pelo qual uma determinada receita era alocada da maneira mais racionsal. So rejeitar a proposicao de que se poderia comecar a partir de um determinado nivel de renda nacional de pleno emprego, e ao se concentrar nas forcas que sdeterminavam tanto o nivel quanto as flutuacoes  da renda nacional, Keynes estava, de acordo com a escola de Cambridge, fazendo o tipo de pergunta feita pelos economistas classicos" sob quais condicoes uma abundancia de mercadoria pode ser assegurada? Assim,  diz Robinson, "Ao tornar impossivel acreditar na reconciliacao automatica de interesses conflitantes em um todo harmonioso, a Teoria Geral trouxe a tona o problema da escolha e  do julgamento que os neoclassicos conseguiram sufocar. A ideologia para acabar com todas as ideologias quebrou, A economia voltou ser economia politica. (Robinson 1962:76.
Eric Roll concorda plenamente com o julgamento de Robinson: "Portanto, pode-se arriscar a opiniao de que a abordagem de Keynes representa, acima de tudo, um retorno as preocupacoes das economia [politica classica e, nessa medida,  um afastamento dessa concentracao sobre as implicacoes da escolha individuall que por tanto tempo foi a caracteristica distintiva da parte central ds teoria economicsa moderna. E esse desvio na metodologia economica em geral, e nao apenas uma contribuicao ao estudo das flutuacoes economicas, que o sistema keynesiano adquire sua maior importancia." (Roll 1973:486)
Robinson esta, no minimo, preparada para ir mais longe. Pois a abordasgem geral de Keynes constituiu um retorno nao apenas as tradicoes dos economistas classicos, mas ao mesmo tempo as de Marx: A teoria academica, por um caminho proprio, chegou a uma posicao que tem consideravel semelhanca com o sistema de Marx. Em ambos, o desemprego desempenha um papel essencial. Em ambos, o capitalismo e visto como carregando dentro de si a semente de sua propria decadencia. Do lado negativo, em  oposicao a teoria do equilibrio ortodoxo, os sistemas de Keynes e Marx estao juntos, e agora ha pela primeira vez, terreno comum suficiente entre Marx e Keynes para tornar a discussao possivel (Robinson 1951:137)
Para o marxismo, essas sao questoes serias. Elas levantam questoes criticas sobre o lugar de Keynes na evolucao do pensamento economico, em particular sua relacao com a tradicao classico-marxista e sobre suas inovacoes metodologicas no assunto. Examinaremos cada uma dessas questoes (capitulo 3) por meio de uma consideracao dos fundamentos metodologicos do trabalho de Keynes.
Joan Robinson e outros membros da escola de Cambridge enfatizaram um elemento que eles veem subjacente a grande parte do trabalho de Keynes, a saber, a enfase que ele da a incerteza inerente implicita em todos os processos economicos. Essa incerteza surgiu do fato de que os eventos economicos ocorrem ao longo do tempo, o que significa que e, em principio, impossivel prever o futuro com base na experiencia passada. E assim que Robinson pensa: "Quando Keynes estava escrevendo a Teoria Geral, sua principal diferenca com a escola da qual lutava para escapar residia no reconhecimento da demanda efetiva, que eles ignoravam. Foi por isso que ele colocou todos, de Ricardo a Pigou, em uma categoria, e por isso supervalorizou Malthus. Depois que o livro foi publicado, ele tracou uma linha diferente. Ele viu que a principal diferenca  era que ele reconhecia, e eles ignoravam, o fato obvio de que as expectativas do futuro sao necessariamente incertas. E desse ponto de vista qu a teoria pos-keynesiana decola. O reconhecimento da incerteza mina a nocao tradicional de equilibrio. (prefacio de Eichner 1979)
Shackle tambem deseja enfatizar um ponto semelhante. Comentando sobre o artigo de 1937 escrito por Keynes para o Quarterly Journal of Economics para responder a certas criticas da Teoria Geral, Shackle diz que este artigo :destruiu em uma frase a analise basica da economia convencional, que os negocios podem e continuam pela razao e calculos baseados em dados suficientes. Essa base esta ausente, ele disse com efeito na natureza das coisas"(Shackle, 1974:prefacio) Em um sistema de troca puro, diz Shackle, a lei dos mercados de Say seria valida - isto e, a oferta criaria sua propria demanda de maneira semiautomatica e o equilibrio, se por acaso perturbado, se restabeleceria rapidamente. A existencia de dinheiro aumenta enormemente a possibilidsde de que o nivel de demanda efetiva seja insuficiente para garantir o pleno emprego, simplesmentee porque o dinheiro absolve aqueles que buscam acumular riqueza a partir das producao real de decidir que formas reais essa riqueza deve assumir, colocando o onus dessa divisao e suas consequencias sobre um pequeno numero de empresarios. (Questoes importantes sobre a natureza do equilibrio e seu lugar,  se houver, na analise da economia capitalista sao levantadas aqui. Elas serao examinadas mais adiante neste trabalho)
Uma questao final deve ser tratada neste capitulo introdutorio. Como ja observamos, para alguns economistas pelo menos, o trabalho de Keynes marcou uma ruptura fundamental com a economia neoclassica no sentido de que se preocupava com a economia como um todo, e em segundo lugar, porque rejeitava a nocao de um equilibrio estatico que teve no centro  de muitas teorias neo-classicas. Na tentativa resultante de fundar uma nova economia politica com base no trabalho de Keynes, Joan Robinson e outros desejaram retomar certos elementos da tradicao classico-marxista. No que foi considerado na decada de 1960 como uma reabilitacao da economia classica, o trabalho de Piero Sraffa foi, nesse respeito, de fundamental importancia[6]
Sraffa, de fato, desempenhou um papel seminal nao apenas nas recentes controversias em torno da teoria do valor e nas criticas lancadas a economia neoclassica. Em sua avaliacao da evolucao da teoria economica durante o periodo entre guerras, GLS Shackle (1967), tratando com o que ele denomina "era de turbulencia", inicia sua revisao do periodo com a obra de Sraffa. Ele chamou o o famoso artigo de Sraffa no The Economic Journal" o"O Manifesto de Sraffa de 1926". Foi nessa  contribuicao que Sraffa apontou para o fato de que o pressuposto da producao em larga escala nas empresas individuais (onde prevalecem os retornos crescentes) e o pressuposto da concorrencia perfeita sao incompativeis. O artigo de Sraffa centra-se  no exame das implicacoes da teoria ds competicao a luz da teoria neoclassica, especialmente em sus forma marshaslliana. Por competicao perfeita, os economistas referem-se ao situacao em que a empresa individual e capaz de vender "o quanto desejar" a um preco alcancado espontaneamente pelo mercado e independente da producao da empresa. Mas, argumentou Sraffa, esta lei esta em relacao contraditoria com a operacao de outra lei que tem estado no centro da teoria economica desde Adan Smith - a lei dos retornos crescente - que afirma que devido a possibilidade de maior especializacao disponivel para a empresa, os custos irao cair a medida que o tamanho da empresa aumenta. Assim, a seguinte questao foi colocada: se, a cada maior producao, o custo unitario de producao da empresa e reduzido, o que pode impedir a expansao indefinida da empresa? E se a empresa pode assim se expandir e engolir todo o mercado, o que resta da teoria  da concorrencia peerfeita?
Ao atacar a insustentalidade da nocao de concorrencia perfeita em face das realidades obvias da economia capitalista (aumento do monopolio, etc), Sraffa estava atingindo o que tinha sido visto como uma das pecas centrais da economia liberal do seculo XIX, assim como Keynes, quando atacou como dogma a lei dos mercados de Say, tambem estava propondo descartar uma lei que havia sido aceita por praticamente todos os economistas ortodoxos no seculo anterior. O fato de que no espaco de alguns anos este ataque em duas frentes deve ser lancado contra os principios mais acalentados da economia politica da escola de Manchester indica que uma crise fundamental se uniu tanto para a economia capitalista quanto para uma de suas expressoes ideologics, a economia neoclassica, que ha muito considerava um truismo a proposicsao de que um capitalismo desregulado maximava tanto a liberdade de escolha individual quanto a utilizacso de recursos existentes. Como e bem sabido, Sraffa propos que a teoria da concorrencia perfeita fosse abandonada em favor do estudo das estruturas de mercado oligopolisticss, uma orientacao que Robinson, Edward Chamberlin e outros seguiram nos anos 1930. O trabalho de Sraffa seguiu em uma direcao ligeiramente diferente, embora relacionada: a uma tentativa de critica da economia neoclassica que prima facie retomou  certos temas da economia classica, especialmente a ricardiana, e descartou a nocao de marginalismo (Sraffa 1969).

O SIGNIFICADO DE SRAFFA

E com base no trabalho de Sraffa que se desenvolveu uma escola de "neoricardianos" que, entre outra coisas, propoe que e possivel analisar a economia  capitslista sem recorrer as agora feita redundantes nocoes de valor e mmais valia encontradas em Marx.  Com base na versao modificada de Sraffa da economia politica classica, junto com a nocao de Keynes de demanda efetiva, uma nova economia politica pode ser estabelecida. Pelo menos essa e a reivindicacao.
Comos ja indicamos, Joan Robinson foi uma figura central  em todos esses desenvolvimentos. Situada na encruzilhada  de varias vertentes da teoria economica moderna, ela foi representante daqueles que trabalharam para uma reconstrucao da economia politica que superaria o que ela e seus colegas viam como a falencia da economia politica neoclassica. Essa economia politica abarcaria  elementos da escola classica, revividos na obra de Sraffa, uma tradicao classica que, segundo Robinson, poderia ser enriquecida com as contribuicoes de Alfred Marshall, Keynes e Michael Kalecki. A partir da decada de 1950, ela tentou "tracar as confusoes e sofismas da doutrina neoclassica ate sua origem na rejeicao do tempo historico na teoria do equilibrio estatico da economia neoclassica e, ao mesmo tempo, encontrar uma alternativa mais promissora na tradicao classica, revivida por Sraffa, que flui de Ricardo a Marx, diluido por Marshall e enriquecido pela analise da demanda efetiva de Keynes e Kalecki."
Agora, ha claramente uma serie de afirmacoes nada incontestaveis aqui, que temos que examinar com mais detalhes em capitulos posteriores. Mas uma serie de pontos preliminares podem ser feitos:
1. Robinson fala da escola classica. Mas isto esta longe de ser uma categoria teorica inequivoca. Marx a inventou, mas Keynes a usou em um sentido radicalmente diferente na Teoria Geral. Como veremos, essa e uma questao importante que tem uma influencia fundamental sobre a natureza da  tentativa da revolucao de Keynes na teoria economica. (Quando Keynes disse que queria destruir os fundamentos ricardianos do marxismo, ele estava na verdade associando as duas teorias e, especialmente, suas teorias de valor).
2. O uso generalizado modista da denominacao neoricardiana para caracterizar a escola fundada com base na obra de Sraffa, nao obstante, nao e de forma alguma aceita com unanimidade, certamente nao pelos marxistas, que sua obra representa de fato um retorno a tradicao classica, pelo menos nao como essa tradicao foi entendida e criticada por Marx. Na opiniao do presente escritor, em essencia a obra de Sraffa envolve uma degeneracao em comparacao com o ponto alto a que a economia politica classica atingiu, a obra de David Ricardo.
3. Finalmente  um tema importante e afirmacao de Robinson que a obra de Keynes pode com sucesso ser integrada com as obras das tradicao classica  e ou a marxista. Tentaremos mostrar no Capitulo 3  que isso nao e possivel e que o ponto de partida de Keynes e radicalmente diferente dos economistas  da tradicao classica e fundamentalmente diferente da de Marx; nesse sentido o projeto que Robinson defendia e em ultima instancia sem sentido e somente poderia resultar na melhor das hipoteses   numa salada ecletica.
Claro que e verdade que a partir de 1930, membros da escola de Cambridge, com Robinson na frente, fizeram uma series de criticismos de aspectos da economia politica ortodoxa neoclassica, e a revolucao Keynesiana e melhor compreendida dentro desse  contexto geral de desenvolvimento.. Apesar de algumas diferencas entre os membros dessa tendencia - alguns gostariam de fazer uma distincao entre aqueles que devem mais a Sraffa do que a Keynes, por exemplo - a substancia dessa  critica pode ser considerada como composta por dois pontos:
1. Ataca a irrealidade da competicao perfeita que supostamente garante, simultaneamente, a alocacao eficiente de recursos e a soberania do consumidor (levando a celebrada otimidade de Pareto).
2. A segunda questao diz respeito a questao do capital. Segundo a teoria neoclassica, o volume de capital e normalmente determinado como receita capitalizada, dependendo dos juros sobre um estoque de ativos de capital (que, em condicoes de equilibrio, e identificado com a taxa de juro). Portanto, se o valor dos bens de capital deve ser determinado, a taxa de juros deve ser conhecida de antemao, mas a teoria neoclassica pretende explicar a magnitude  das rendas dos fatores de producao, incluindo a taxa de juros. Os Scraffians, portanto, acusam a teoria  neoclassica de circularidade (ver Robinson 1971)
As discussoes entre os neo-keynesianos e os defensores da ortodoxia classica  certamente foram acaloradas, mas  a questao permanece: esses dois ataques realmente  juntos constituem um assalto fundamental a tradicao neoclassica como se acreditam? Nossa resposta e negativa pelos seguintes motivos. O neo-keynesianismo rejeita uma estrutura de mercado particular, a competicao perfeita, por nao corresponder mais a realidade do capitalismo moderno. Marx, no entanto,  criticou a economia vulgar de um angulo bem diferente daqueles dos sraffianos; Marx rejeitou completamente a propria ideia de produtividade do capital (III:814-43); so o trabalho vivo pode criar novo valor, mas  o capital como uma magnitude de valor nao cria e nao pode criar esse novo valor: e meramente uma condicao para sua apropriacao. Para Marx, a nocao espuria da "produtividade" do capital surge da confusao entre o valor e os aspectos fisicos do capital. Ou seja, embora  o capital seja um valor, ele e um valor conectado com objetos diversos e mutaveis - maquinas, materias primas, entradas bancarias, impulsos em bancos de dados eletronicos etc. E foi precisamente essa incapacidade da economia vulgar de distinguir criticamente entre as qualidades das coisas que surgem das relacoes sociais das quais as coisas  faziam parte, em oposicao as qualidades que surgiram das propriedades materiais das coisas, que Marx designa como fetichismo. Os keynesianos radicais deram grande importancia ao fato de que o capital, longe de ser homogeneo, como propoe a teoria classica, e na realidade altamente heterogeneo. Robinson e seus seguidores desprezaram a hipotese do neoclassicismo ortodoxo  de que o capital e como geleia, infinitamente maleavel; os keynesianos de Cambridge desejam enfatizar o fato de que o capital existe no tempo e e composto de uma ampla variedade de coisas, acos, tijolos, dinheiro, etc. Como uma exposicao de suas controversias com a escola neoclassica coloca: "Uma vez introduzida a heterogeneidade de bens de capital, as parabolas baseadas na geleia nao se aplicam mais. Em particular, nao se pode mais argumentar que "capital" e pago por um produto marginal que e igual a r (mesmo em uma situacao de equilibrio)...a descoberta...destroi os fundamentos da abordagem tradicional da oferta e demanda para a teoria de distribuicao. (Harcourt 1969:394).
Agora, embora muito tenha sido feito sobre esse problema, ele realmente evita o que importa, O fato e que o capital, como os pos-keynesianos corretamente apontam, realmente compreende muitos elementos mutaveis. Mas a questao basica que dividiu os  economistas nao e este problema, mas sim um problema muito mais fundamental: o  capital e uma "coisa" ou uma expressao de uma relacao social de producao definida, embora ligada a uma coisa? A critica  de Cambridge nada tem de substancial a dizer  sobre essa questao. (Trataremos  mais detalhadamente da natureza do capital e das confusoes  em torno dsessa questao no capitulo 3)
Uma questao igualmente critica para a ala Sraffa da escola pos-keynesiana e o fato de que eles deixam de criticar singularmente a nocao vulgar de que o  preco e equivalente ao valor, de que a aparencia das coisas e identica a sua essencia. Na verdade, eles rejeitam explicitamente a lei do valor como sendo pura metafisica (Joan Robinson), com o que querem dizer que ela nao pode ser testada  empiricamente e, de acordo com Karl Popper, nao pode, portanto, ser qualificada como tendo status cientifico. A esse respeito, o termo-ricardiano que tem sido aplicado aos membros dessa escola e bem inapropriado, pois ao rejeitarem a  nocao de valor e mais valia dao um passo atras em relacao a Ricardo, que partiu da  determinacao do valor pelo tempo trabalho, para fazer a base para sua analise do funcionamento interno da economia capitalista. [7]. Em segundo lugar, e conectado a este ponto, a menos que se aceite a determinacao do valor pelo tempo de trabalho, nao se pode demonstrar logicamente que as relacoes de distribuicao surgem das relacoes de producao. Nao devemos nos preocupar neste livro com as  teorias de distribuicao dos keynesianos de esquerda, como Robinson, Kaldor, etc, mas em geral elas se baseiam na proposicao de que a distribuicao da riqueza e  determinada pelas operacoes de poupanca e investimento fora do processo real de  producao. (Aqui a escola de Cambridge depende muito do trabalho de Mikael Kalecki.)
Neste capitulo, tentamos esbocar o pano de fundo historico e teorico da crise atual da economia politica keynesiana. Resta-nos delinear o conteudo de cada um dos capitulos que se seguem.
No Capitulo 2, avaliamos a natureza e a importancia da revolucao keynesiana do ponto de vista de suas implicacoes para a politica economica, bem como a luz dea mudanca fundamental que Keynes afirmou ter feito no campo da teoria economica, Se nao tanto entre todos os economistas academicos, mas certamente entre o publico educado, acreditava-se que foi acima de tudo gracas ao sucesso da revolucao keynesiana que o capitalismo desfrutou de um grau de sucesso sem precedentes depois de 1945. Essa opniao e, para dizer o minimo, pode  ser questionada seriamente. Sera sugerido que a expansao/boom do pos-guerra nao teve nada a ver de importancia a ver com a aplicacao das politicas keynesianas e, alem disso, contra as alegacoes de muitos economistas e historiadores economicos, o keynesianismo, sera argumentado, nao ofereceu solucoes reais para a crise de 1930. Em suma, sera proposto que a crescente intervencao do Estado na economia do pos-guerra pouco ou nada deveu a uma conversao as ideias  keynesianas, mas foi um reflexo dos problemas economicos/politicos e sociais do capitalismo em um determinado ponto historico. Alem disso, sera sugerido que a tendencia para uma crescente intervencao do Estado em uma variada area de questoes economicas e sociais e um desenvolvimento organico a propria natureza do capitalismo do seculo XX em todos os paises, nao e fundamentalmente uma questao ideologica e como tal nao foi de forma alguma inspirada pela teoria economica keynesiana. Posto isto, nao ha duvida de que, pelo menos no mundo anglo-saxao, o nome Keynes e o principal associado a ideia de  crescente envolvimento do Estado na economia. As opinioes de Keynes sobre essa questao serao consideradas a luz da historia do pensamento economico na Gran Bretanha e, de maneira mais geral na Europa. Comos ja observamos, o keynesianismo se tornou o elemento fundamental na ideologia social democrata do pos-guerra. Mas sera argumentado que nao ha nada necessariamente liberal ou progressista nas propostas keynesianas e que elas podem ser, de fato tem sido, o veiculo para uma  variedade de propositos sociais e intelectuais.
Isso levara (Capitulo 3) a uma analise detalhada dos fundamentos teoricos da Teoria Geral de Keynes. As categorias basicas deste trabalho serao submetidos ao escrutinio critico e argumentar-se-a que elas sao de carater essencialmente subjetivos, o que nao so as tornas incapazes de explicar a dinamica da economia burguesa, mas tambem abre a possibilidade de serem preenchidas com qualquer conteudo social e politico, fato este que explica o vasto uso que se tem feito das ideias keynesianas. Atencao detalhada sera dada ao conceito de capital defendido por Keynes, bem como por seus seguidores mais influentes,  como Robinson, baseando-se no fato de que este e uma categoria fundamental da economia burguesa e o tratamento dela por qualquer escritor particular e nesse sentido uma prova de fogo quanto a sua posicao em todas as questoes economicas cruciais, porque Keynes foi frequentemente apresentado como, acima de tudo, um oponente da economia de equilibrio,, a nocao de equilibrio e seu lugar na analise da economia capitalista serao revisados criticamente.  Argumentaremos que o angulo a partir do qual Marx e Keynes comecaram suas analises da economia capitalista era de uma natureza totalmente diferente e sera defendido que Keynes pertence nao a tradicao classica da  economia politica, mas a escola vulgar. Argumentaremos vigorosamente que nao e  possivel construir pontes entre a economia politica de Marx e a de Keynes, como imaginado por Robinson e outros. 
O Capitulo 4 tratara mais diretamente da natureza da expansao infracionaria do pos-guerra  e de suas contradicoes. Aqui, sera dada atencao a natureza dos gastos do Estado, tal como foi compreendida pelo keynesianismo e sera considerada a inadequacao dessa compreensao, As forcas que geraram o aumento dos gastos do Estado no periodo do pos-guerra serao examinadas e sera sugerido que elas surgiram nao apenas de uma serie de necessidsades "economicas" estreitamente concebidas que o capitalismo experimentou, mas tambem de uma serie de pressoes sociais e politicas que nas condicoes concretas que surgiram apos a ultima guerra mundial, o capitalismo nao estava em condicao de resistir. E sob essa luz que a tese de que um volume muito grande de gastos do Estado e a causa raiz da crise do capitalismo (Bacon, Ellis et al.) sera considerada: aqui sera proposto que essas  despesas do Estado nao podem ser interpretadas como a fointe da crise, mas sim como um de seus principais efeitos.Este capitulo procurara mostrar que, apesar das pretensoes da escola de Sraffa, nao e possivel compreender as contradicoes em desenvolvimento da expansao do pos-guerra sem recorrer as categorias e leis basicas da economia politica marxista, especialmente  a lei do valor e a lei da tendencia de queda da taxa de lucro.
No final de sua vida, Keynes estava principalmente preocupado com proposta para remodelar a natureza da economia internacional. A economia do pos-guerra desenvolveu-se no quadro de uma ordem economica internacional que o proprio Keynes ajudou a moldar. O Capitulo 5 tratara, portanto, da natureza dos arranjos de Bretton Woods e das sementes de sua efetiva desintegracao na decada de 1970, quando os EUA removeram o lastro em ouro para o dolar, o unico evento que mais do que qualquer outro desencadeou severas pressoes inflacionarias e lancou o keynesianismo em uma crise fundamental. Isso nos permitira localizar a crise do keynesianismo em seu contexto internacional.
Por fim, os diversos topicos do trabalho serao apresentados em conjunto, destacando-se a continuada relevancia central do marxismo e algumas sugestoes para trabalhos futuros sobre os temas que foram tratados no livro sugere. Em particular, essa tentativa de fornecer uma alternativa as doutrinas do monetarismo com base no keynesianismo e ao longo das linhas da Estrategia Economica Alternativa serao submetidas a um escrutinio critico, e sera argumentado que nao pode haver perspectiva de um renascimento para para a economia politica keynesiana pelo simples fato que essa tendencia de teoria economica  politica emergiu como uma forca ideologica dominante apenas sob circunstancias economicas e politicas historicamente bem definidas; circunstancias que agora desapareceram.

NOTAS;-

1]  Referindo-se ao fenomeno que se tornou conhecido como estagflaco, Lord Kaldor disse: "Nada desse tipo jamais ocorreu antes em tempo de paz - refiro-me a uma inflacao dessa magnitude abrangendo nao apenas um ou dois paises, mas todo os principais paises industrializados do mundo. A outra caracteristica unica dessa inflacao foi que ela foi acompanhada por uma acentuada recessao na producao industrial - Esta combinacao de inflacao e recessao industrial e um fenomeno novo, cuja explicacao apresenta um desafio intelectual para os economistas" (Kaldor 1978:215. Outros economistas tiverasm uma visao ainda mais sombria das  implicacoes ds inflacao mundial. Assim no final ds decadsa de 1970, dois  economistas proeminentes poderiam dizer: "Na ultima decada, o problema da inflacao passou de uma irritacao continua a um flagelo da estabilidade e do desempenho eficiente das principais economias e uma ameaca potencial a preservacao das sociedades democraticas" (Hirsch e Goldthorpe 1978:1). Uma das vitimas da explosao da inflacao na decada de 1970, ocorrendo juntamente  com o aumento do desemprego, foi a por demais  alardeada curva de  Phillips, que postulava uma compensacao entre inflacao e desemprego.
2]  A subjetividade de tais opinioes e clara: procuram explicar as crises fundamentais do sistema como resultados de politicas financeiras incorretas dos governos. Aqui, o monetarismo tenta explicar as crises capitalistas como originadas na esfera da circulacao e nao no processo de producao. Alem disso, para os monetaristas, tais crises nao sao economicas, mas politicas, decorrentes de politicas estatais pouco sensatas. Como acontece com a  economia politica burguesa como um todo, quando chega o momento de explicar uma crise economica, os fatores economicos sao abandonados em favor de fenomenos nao economicos.
3]  Sem antecipar muito da discussao posterior, pode-se notar que, entre as nocoes  dos economistas vulgares, Marx considerava  uma das mais vulgares, aquela que explicava o aumento dos precos pelo recurso a aumentos na oferta de dinheiro: "A ideia de que os bancos expandiram indevidamente a moeda, produzindo assim uma inflacao de precos violentamente reajustada por um colapso final, e um metodo muito superficial para explicar todas as crises para nao ser avidamente pego......A nocao vulgar, portanto, que refere a crise recente e as crises geralmente a uma emissao de notas de banco pode  ser descartada como totalmente imaginaria. (MECW 16:8)
4]  Em conexao com a disputa muitas vezes acirradass entre monetaristas e keynesianos, pode-se  realmente dizer que, no que diz respeito a economia, ha poucas novidades sob o sol. Pois esssa controversisa e essencialmente  uma reedicao do seculo XIX entre aqueles como Ricardo defendendo o "principio da moeda" e Tooke e outros que aderiram ao "principio bancario". A antiga escola sustentava que o nivel de precos dependia da quantidade de dinheiro em circulacao e que, internacionalmente, os precos expressavam o poder de compra de cada moeda nacional. O equilibrio entre as economias nacionais foi estabelecido pela transferencia de moedas e metais preciosos. O excesso de notas do Banco da Inglaterra era a causa da inflacao e, portanto, essas notas deveriam ser mantids ao nivel dos depositos de ouro no Banco ds Inglaterrs. Opondo a essa concepcao, a escola bancaria afirmava que os movimentos de precos dependiam da confianca  do publico na moeda . A quantidsde de dinheiro em circulacao dependia da demanda publica, sendo a quantidade de notas bancarias um efeito e nao a causa da demanda por elas. Em outras palavras, o Banco simplesmente emitiu o que era requerido dele. Como Marx observou: "Mas  a investigacao continua da historia dos precos obrigou Tooke reconhecer - que os aumentos ou diminuuicoes na quantidade de moeda quando o valor dos metais preciosos permanece constante sao sempre a consequencia, nunca  a causa das variacoes de precos, que, em conjunto, a circulacao do dinheiro e meramente um movimento secundario"(Marx 1971:186). 
5]  Em outro lugar, Bologh declara: "A revolucao keynesiana no pensamento economico provou ser uma cana quebrada para ajudar atingir um dinamismo constante  em nossa economia, assim como a elegante estrutura de pensamento economico que ela superou....A  economia liberal keynesiana  foi realmente capaz de sustentar  um crescimento acelerado. Mas por meios das tensoes sociais, que foram causadas por seu fracasso em garantir um senso de justica, minou seu proprio sucesso por meio de demandas crescente  por maiores rendas monetarias" (Bologh, 1971)
6]  Em uma revisao perspicaz, Hutchison observou a mudanca na posicao de Dobb sobre a natureza da "revolucao marginalista", Em seus primeiros trabalhos, Dobb atribuiu pouca importancia a esse evento, vendo-o como uma extensao de elementos ja presentes na economia vulgar que emergiu para uma posicao de dominio a partir da decada de 1830. Em sua obra posterior, ele viu isso como um ponto de inflexao decisivo e  constituindo uma revolucao muito mais decisiva do que aquela pela qual Keynes foi responsavel nos anos 1930. Essa "conversao" Hutchison explica em termos do objetivo de Dobb de destacar o suposto carater revolucionario da obra de Sraffa; ele esta construindo o que Sraffa (de acordo com Dobb) derrubou (Hutchison: 1978). Dobb afirma que Sraffa (junto com Robinson e outros criticos) sao herdeiros da tradicao marxista-ricardiana na analise dos problemas de troca e distribuicao (Dobb 1973:11.1). Ronald Meek (1964) assume uma posicao semelhante a Dobb. Entre outras coisas, ambos tendem a identificar  a economia politica ricardiana com a critica a ela.
7]  Um bom exame do abismo que separa Sraffa da tradicao classica (sem falar da posicao de Marx) e fornecido por S Himmelweit e S Mohun em (Steedman et al. 1981)