Tuesday, 16 February 2021

A CRISE DO ECONOMICS KEYNESIANO de Geoofrey Pilling CAPITULO I REACOES A CRISE DO CAPITALISMO

"Ainda ha ecos do debate, agora bem passado do seu centenario, entre os marxistas e economistas neoclassicos, mas nao se ouve muito sobre isso circulos profissionais, e certamente ha muito pouco nele  para excitar o corpo geral dos profissionais da economia. A economia parece, como se  por um milagre deixado de ser um campo de batalha entre ideologias conflitante. Como veremos, existem muitas  e as vezes profundas  diferencas de opiniao sobre questoes especificas , especialmente no que diz respeito a ponto especificos da politica economica. Mas,  embora possa ser exagerado dizer, (parafraseando Sir William Hascourt "agora somos todos keynesianos"[a frase nao e original de Nixon, j amaral] parece que em nossos momentos analiticos a maioria  dos economistas esta preparada para aceitar as inovacoes de Keynes e seus discipulos como certas. (Roll 1968: vi-vii)

1 - REACOES A CRISE  DO KEYNESIANISMO

Praticamente todos estao disposto a concordar que um profundo mal estar agora aflige  a outrora aparentemente onipotente economia politica keynesiana.Muito sao de opiniao que ja vimos o fim  da era keynesiana. Mas ha pouco consenso entre os economistas ortodoxos sobre a natureza do  mal que aflige essa economia politica, sua origen e os meios para a sua solucao, supondo que ele nao seja de natureza terminal.  
Este livro tenta, do ponto de vista marxista, examinar varios aspectos da crise que permeia o keynesianismo em assim, fornecer uma critica a essa economia politica. Temos que fazer essa critica porque, por mais severa  que seja sua situacao, as ideias keynesianas ainda mantem uma influencia importante, principalmente no movimento trabalhista britanico. Assim, na chamada  Estrategia Economica Alternativa,  proposta pelo Trade Union Congress/Central  Sindical britanica,  e outros em oposicao as politicas economicas seguidas pelos governos Thatcher  desde 1979 - um grande elemento de keynesianismo e claramente visivel. Este  capitulo inicial examina essa crise, descreve varias reacoes de economistas e outros a ela e, ao faze-lo, esboca os principais do livro.
E quase geralmente aceito que o sistema capitalista esta atualmente passando por sua crise mais severa desde os anos de 1930. Apos o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, um quarto de seculo de expansao, interrompido por recessoes relativamentes fracas e localizadas nos principais capitalistas, explodiu repentinamente a violenta inflacao dos anos de 1970, posteriormente o colapso resultando em uma recessao global que, julgando pelos padroes  dos anos do pos-guerra, permanece sem precedente na sua  severidade  e duracao..Uma importante vitima dessa crise foi a economia politica keynesiana, cujo mal estar severo ou mesmo a morte foi celebrada ou lamentada eem varios pontos do compasso politico.
De acordo com a narrativa convencional da historia da  teoria economica, ate a decada de 1930, a maioria dos economistas defendia com seguranca que a expansao equilibrada das forcas produtivas do capitalismo em geral, garantiria condicoes de estabilidade economica, crescimento e pleno emprego. O desemprego costumava ser atribuidos as  "imperfeicoes" do mercado, especialmente  aquelas relacionadas  a rigidez salarial. Qualquer desemprego persistente foi considerado causado pela relutancia dos trabalhadores em aceitar um nivel de salario que "esvaziaria" o mercado. Foi a crise das decadas de 1920 e 1930 que lancou essa teoria  economica (designada por Keynes como economia "classica") em uma severa crise. Keynes surgiu como a principal figura que tentou explicar  essa crise economica e tracar um curso para resolve-la. O resultado foi a economia politica keynesiana que emergiu como a teoria economica padrao do mundo pos guerra, exercendo um poderoso dominio intelectual ate o  passado bem recente. Gracas a essa nova economia politica, era amplamente aceito que, dada uma manipulacao apropriada dos agregados orcamentarios e politicas monetarias adequadas, o que Keynes denominaria de nivel de demanda efetiva poderia ser elevado a um ponto em que todo desemprego involuntario fosse mais ou menos eliminado.
Escrevendo sobre a decada seguinte ao fim da guerra, JK Galbraith disse"Dentro de uma decada [depois de 1945], a crenca de que a economia moderna estava sujeita  a uma deficiencia na demanda - e que uma  acao governamental compensatoria seria necessaria - estava perto de se tornar a nova ortodoxia" 
(Galbraith 1973:189)

KEYNES E O RADICALISMO

Agora, se essa politica do tipo keynesiano foi realmente praticada depois de 1945 e se, praticada, foi responsavel pelo periodo praticamente ininterrupto de expansao apos o fim da Segunda Guerra sao pontos discutiveis. Muitos comentaristas poem em duvidas essasa duas proposicoes. Mas um fato esta fora de discussao: se nao como uma politica economica, certamente como uma ideologia, o keynesianismo exerceu uma influencia poderosa depois de 1945. Na esquerda principalmente, foi em regra assumido que gracas a descobertas de Keynes na teoria economica, uma crise politico-social do tipo que eclodiu com consequencias catastroficas na decada de 1930 agora era em grande parte  uma coisa do passado. Em particular, o keynesianismo teria fornecido uma  a resposta ao marxismo que teria conquistado uma boa camada da juventude intelectual na "decada vermelha de 1930". Considerando o livro Teoria Geral, o "livro mais influente sobre economia politica e social neste seculo", Gaibraith certamente nao se enganou quando declarou que "Enfim, ainda que nao seja aceito por todo mundo, podemos declarar que a revolucao keynesiana foi uma das grandes conquistas modernas de projetos sociais. Isso paralizou totalmente o marxismo nos paises avancados. (Galbraith 1971: 433-4)
Galbraith estava tao confiante na vitoria do keynesianismo que ele poderia lamentar o fato de que o "velho" problema microeconomico na economia - a alocacao de recursos escassos entre fins concorrentes - havia sido forcado a sair da agenda, com a consequencia que problemas essenciais, principalmente  a contradicao entre a vontade publica e as necesidades privadas, foi agora  seriamente neglegenciado
Essas ideias exerceram uma influencia consideravel na Gran Bretanha nas decadas de 1950 e 1960, principalmente nos circulos do Partido Trabalhista, onde uma ala do partido surgiu declarando que o marxismo estava agora desacreditado e desastualizado, e exigindo que um compromisso ate nominal com os objetivos socialistas, consusbstanciado na clausula 4 da constituicao do partido fosse descartada. O impacto da ortodoxia keynesiana prevalecente pode ser medido em uma serie de livros em uma serie de livros influentes de escritores como Anthony Crosland, do ex-marxista John Strachey e outros exaltando as virtudes do novo capitalismo pos guerra que, gracas a Keynes teria superado sua tendencia a crise e, assim, tornar o marxismo obsoleto. Como declarou Stuart Holland: "Keynes nao era socialista e ignorava quase completamente a obra do pai do fundador do socialismo moderno - Marx. Entretanto, ele teve mais influencia sobre os socialistas britanicos do pos-guerra do que qualquer  outro teorico do nosso tempo. Tambem podemos discutir que, sozinho, ele enterrou o marxismo para uma geracao da esquerda britanica. (Skidelsky -ed- 1977) 
E facil ver o que atraiu o pensamento radical para o keynesianismo. Keynes era a favor de medidas limitadas de reforma social. Ele duvidou da eficacia do controle monetario sem ajuda. Defensor incisivo da propriedade privada, ele nao obstante defendia que a "socializacao do investimento" serviria para tornar o capital abundante e , assim, forcar a queda da taxa de juros a zero, talvez no epaco de 25 anos. Enquanto o capital privado continuaria, as reivindicacoes do capital rentista seria destruido. A cena resultante seria um mundo do tipoFabiano em que as desigualdades mais grosseiras de riquezas deveriam ser removidas por meios fiscais (Keynes apoiava  um grau ""moderadamente conservador" de redistribuicao de renda como forma de aumentar o consumo), onde nenhuma recompensa e extraida por "capital improdutivo" e onde o emprego e preservado perto de seu maximo pela manipulacao do investimento estatal. Nao e de admirar que, com alguma justica, Keynes pudesse ser saudado como o novo apostolo da social democracia do pos-guerra.
Com base neste tipo de concepcao surgiu um consenso geral. O capital deixado sem regulamento ainda pode se mostrar sujeito a crises, mas, dadas as politicas sociais  e economicas adequadas pelo Estado, quaisquer instabilidades poderiam  ser mantidas  dentro de limites politicamente aceitaveis. Keynes, ao que parecia, havia garantido o futuro do capitalismo, embora um capitalismo um tanto diferente do tipo laissez-faire que existiu durante grande parte do seculo XIX. A politica agora poderia ocupar o meio termo, preocupando-se com o equilibrio das medidas a serem seeguidas para alcancar os objetivos geralmente aceitos dentro da estrutura de um capitalismo de bem-estar benefico.
Alguns, e claro, foram alem, negando que na era de Keynes qualquer uso significativo pudesse ser feito do termo capitalismo. Viviamos agora na era da Sociedade pos-industrial, para usar o termo preferido pelo sociologo norte americano Daniel Bell, Outros preferiram a nocao de capitalismo industrial, outros ainda a de sociedade tecnocratas. Quaisquer que fossem as diferencas existentes entre essas concepcoes, eles se uniram ao declarar o marxismo antiquado, uma doutrina, na melhor das hipoteses, um reflexo das condicoes do Seculo XIX que, felizmente havia desaparecido.
Enquanto uma minoria de economistas radicais como Galbraith se ressentia do fato de que a economia parecia ter pouco espaco para julgamentos sobre a escolha economica - ele apontou para a crescente miseria publica que o crescimento da riqueza privada parecia acarretar - outros aceitaram positivamente o fato de que os problemas sociais ou melhor, problemas que ate entao eram considerados sociais, assumiam agora uma forma puramente tecnica, concernente, no essencial,  a questao da alocacao mais eficiente (economica) dos recursos humanos e materiais para a satisfacao das necessidades pessoais. A economia tinha finalmente atingido a maioridade. Investido com consideravel prestigio por causa de sua aparente capacidade, depois de Keynes, de resolver problemas ate entao intrataveis, seus procedimentos estavam se tornando cada vez mais rigorosos, empregando tecnicas matematicas, e aspirando a precisao e metodos que foram assumidos para para guiar as ciencias fisicas. A economia poderia olhar de cima para baixo com certo desprezo  para as ciencias sociais como ainda em  estagio infantis. Eric Roll recapitulou a situacao relativamente nova e feliz do pensamento politico economico  da epoca" Por um periodo de trinta anos apos o surgimento da Teoria Geral de Keynes, o status da economia politica, em granda parte associado a sua abordagem geral, cresceu continuamente ate atingir uma posicao de autoridade, tanto como um ramo das ciencias sociais quanto como uma ferramenta para a melhor solucao de assuntos humanos, sem paralelo em sua historia e inigualavel por qualquer das ciencias fisicas.[Roll 1973:548]
A posicao de lideranca, quase incontestavel, ocupada pelo keynesianismo sem duvida deixou sua marca no marxismo. Houve aqueles marxistas que aceitaram a nova economia politica de Keynes e acreditando que o capitalismo havia realmente resolvido seus problemas fundamentais - pelo menos na esfera economica - voltaram sua atencao para outroa esferas: para os problemas culturais residuais que ainda afligiam o capitalismo. Aqui estava uma tendencia internacional, encontrando uma variedade de expressoes: o trabalho da escola de Frankfurt: nos Estados Unidos o de Herbert Marcuse e na Gran Bretanha o da Nova Esquerda. Um resultado de tais tendencias foi um abandono de um estudo da obra de Marx na economia, conforme  elaborado em O Capital, em favor do Marx, o "humanista" e "filosofo", conforme exemplificado nos Manuscritos de Paris de 1844, com o tema da alienacao. Isso nao apenas dividiu artificialmente o trabalho de Marx ao longo de linhas bem injustificadas, mas tambem significou que os marxistas tendiam em seus trabalhos a refletir a crescente fragmentacao das ciencias sociais, cada qual engajado em seus compartimentos hermeticamente fechados.
Em um plano mais restrito, os marxistas que continuaram a trabalhar na esfera da economia politica tambem foram frequentemente influenciados pela sabedoria convencional keynesiana predominante, na medida em que agora estavam inclinados a acreditar que certas formas de acao do Estado poderiam eliminar as tendencias ciclicas dentro do capitaslismo. Isso, por sua vez, levou alguns a ler o Capital de Marx atraves do prisma de uma variante ou outra do subconsumismo. Por subconsumismo entende-se a concepcao, compartilhada por uma variedade de escritores na historia da economia politica, incluindo Malthus e JA Hobson, que um estado de estagnacao economica nao e simplesmente uma fase passageira do ciclo economico capitalista, nem o resultado de uma forca conjuntural momentanea e fortuita, mas uma condicao para a qual a economia capitalista tende espontaneamente na ausencia de forcas contrarias, incluindo (para alguns pelo menos) acao estatal apropriada. Deixaremos de lado  por enquanto, a questao de saber se a Teoria Geral de Keynes pode legitimamente ser considerada como estando dentro da tradicao do subconsumismo. Nao resta duvidas, no entanto, que o subconsumismo foi a base para a tese  estagnacionista popular imediatamente apos o fim da guerra e apresentada por varios economistas que, em particular nos Estados Unidos, surgiram como os principais defensores e interpretes de Keynes. (Na opiniao de Joseph Schumpter, "Keynes pode ser  creditado ou debitado, conforme o caso, com a paternidade do estagnacionismo moderno"[Schumpter 1963" 1172]. Alvim Hansem foi um dos principais defensores da opiniao de que provavelmente o principal problema  enfrentado pelo capitalismo depois de 1945 foi o da estagnacao. Mas era uma opiniao sobre o problema essencial enfrentado pelo capitalismo de forma alguma confinada a esses circulos keynesianos. Para citar apenas um exemplo, um trabalho como  Capital Monopolista de Baran e Sweezy que foi publicado em meados da decada de 1960, viu o problema central do capitalismo como estando associado nao a sua incapacidade de extrair mais-valor, mas a geracao de um excesso de mais-valor. Gracas a capacidade dos monopolios de manipular seus precos, foi criada mais mais-valia do que poderia ser acumulada e isso exigiu gastos cada vez maiores e irracionais por parte do Estado, que iria "desperdicar" esse excedente. |Uma  subvariante desse tema essencialmente subconsumista era a tese que sustentava que a estabilidade do capitalismo no pos-guerra repousava em um orcamento crescente de armas que proporcionou um vazamento efetivo para um volume crescente de mais-valia e permitiu ao capitalismo escapar das consequencias da lei que Marx considerou como a mais fundamental de todas: a lei da tendencia da taxa de lucro declinar.
Como agora e obvio, a teoria de um capitalismo "transformado" sem crise provou, para dizer o minimo, um tanto otimista. A unanimidade virtual de outrora entre economistas e politicos sobre os resultados positivos a serem obtidos com o emprego de politicas economicas do tipo keynesiano foi agora esfacelada, muito diriam isso irrevogavelmente. A inflacao quase  galopante no inicio da decada de 1970 combinada com o colapso da producao industrial e do emprego em muitos aspectos, superando o declinio visto no periodo apos 1929, desafia a logica central do keynesianismo, onde tais coisas  nao deveriam acontecer simultaneamente{1} Em uma recente palestra, Sir Charles Carter perguntou um tanto lamentoso: "O que ha de errado com Keynes?" [Carter 1981] Ele ressaltou que na decada de 1960, de acordo com o preceito do keynesianismo, em situacao de crise o governo - dentro dos constrangimentos impostos pela situacao do balanco de pagamentos - teria aumentados gastos e reduzido impostos. Agora  exatamente o oposto estaria ocorrendo. E Carter corretamente chamou a atencao para o fato de que esta nao era uma politica economica  confinada ao governo Thatcher, o resultado de alguma ideologia aberrante, por assim dizer, pois em face do aumento de desemprego e da inflacao politicas semelhantes  foram adotadas pelos governos Wilson-Callaghan de 1974-79. Na verdade, foi James Callaghan, entao primeiro-ministro, que advertiu na Conferencia do Partido Trabalhista de 1976 que pessoalmente ele pensava que nao era mais possivel sair de uma estagnacao gastando, declarando assim a setenca de morte do keynesianismo: "Costumavamos pensar que voces  poderiam gastar seus dinheiro para sair de uma recesssao e aumentar o emprego cortando impostos e aumentando os gastos do governo. Digo-lhes com toda a franqueza que essa opcao nao existe mais e que, na medida em que ela existiu, so funcionou em cada ocasiao desde a guerra, injetando uma dose maior de inflacao na economia, seguida por um nivel mais alto de emprego como proximo passo".
Por causa de sua fraqueza cronica, a economia britanica dos anos 1960 ja previa uma crise que assumiria proporcoes internacionais na decada seguinte.Em meados da decada de 1960, uma serie de medidas deflacionarias selvagens levadas a cabo por um governo trabalhista a pedido do Fundo Monetario Internacional, que  simplesmente  nao conseguiu corrigir um problema de longa duracao no balanco de pagamentos. O fracasso dessas medidas acabou forcando a desvalorizacso da libra esterlina em 1967, que por sus vez resultou em uma serie de graves pertubacoes nos mercados internacionais de ouro e moedas. O resultado final foi a decisao tomada pela administracso norte americana em agosto de 1971 de remover o lastro em ouro do dolar, um dos pontos que garantiu os arranjos monetarios de Bretton Woods do pos-guerra  aos ultimos 25 anos ou mais. .E esta crise economica, com suas implicacoes politicas e sociais concomitantes, que mergulhou tanto a teoria economica quanto a formulacao da politica economica em uma crise. Em sua extensao e profundidade, essa crise certamente promete eclipsar a crise dos anos 1930. John Hicks, um dos principais interpretes de Keynes desde os tempos da Teoria Geral em 1936 defende que os problemas atuais do keynesianismo apresentam uma das questoes mais graves com as quais o mundo agora esta confrontando, [Hicks 1974]
Certamente, nem todos compartilham  o pessimismo de Hicks. Alguns esperam que um novo Keynes surja de alguma forma para resolver nossos problemas teoricos e praticos atuais; enquanto isso, como Micawber, devemos ir se ajeitando aos trancos e barrancos com as ferramentas que estao disponiveis.  Outros sugeriram que ha pouca coisa fundamentalmente errada com a teoria economica ortodoxa. Nosso mal-estar provem do fato de que existe uma preocupacao exagerada  com a teoria enquanto teoria. O que e necessario nao e mais teoria, mas  dados melhoes e mais sofisticados, nos quais basear politicas economicas racionais. Visto deste angulo, os problemas que enfrentamos giram em torno de uma divisao falha entre os economistas entre trabalho teorico we trabalho aplicado.
Mas para aqueles que ainda atribuem importancia central a questoes de teoria economica, e que estao preocupados com a crise keynesiana, ha pouca unanimidade sobre 1. o significado real da contribuicao de Keynes para a economia politica. 2.  sua relevancia contemporanea. Qualquer opiniao marxista sobre  Keynes deve abordar essas duas questoes. Aqui, como introducao, resumimos uma serie de respostas a essas  perguntas de varios pontos de vista nao marxistas.

A CONTRA REVOLUCAO MONETARISTA

Um grupo, que em certo sentido, esta fora das principais disputas em torno do keynesianismo e a escola austriaca  de economia politica, inspirando-se na obra de Hayek e Ludwig von Mises, (A obra de Lionel Robbins (1932) foi uma expressao de sua influencia entre certos economistas ingleses). Hayek foi, ao longo da vida, um oponente do socialismo e de quaisquer esquemas para administrar conscientemente a sociedade, e isso ele justifica atraves da concepcao do mercado como um sistema de informacao que permite utilizar a informacao economica dispersa por um enorme numero de agentes produtivos. Hayek foi um dois mais determinados oponente de Keynes e por um culto periodo sua teoria foi considerado uma possivel alternativa a nova economia politica. De acordo com Hayek, a responsabilidade pela situacao critica que  as economias ocidentais atualmente  enfrentam nao recai sobre o capitalismo como tal, mas sim sobre politicas  monetarias e fiscais erroneas de longa data que se originaram da influencia  do keynesianismo.. Hayek e os austriacos geralmente consideram errada a explicacao keynesiana do desemprego involuntario como sendo devida a falta de demanda efetiva. Na realidade, ele seria causado por uma serie de desiquilibrio entre a oferta e demanda nos mercados de trabalho de setores especificos da economia. O pleno emprego so poderia seer restaurado com base no reajuste de precos e salarios em cada setor individual da economia, de modo que a oferta e demanda estejam novamente em equilibrio. Em outras palavras, Hayek e um defensor da velha ideia de corte de salarios como uma cura de desemprego, uma politica que Keynes supostamente teria rejeitada ha muito anos. Para Hayek, foi a politica keynesiana de estimular a demanda  para combater o desemprego que gerou inflacao. Em sua economia ideal, os precos seriam estaveis, mas os salarios sao flexiveis, o orcamento estaria em equilibrio e o Estado perderia seu direito de monopolio de emitir dinheiro, com seu papel de provedor de empregos severamente reduzido. A economia politica austriaca e uma escola baseada no individualismo extremo e um anti empirismo pronunciado. Isso levou os austriacos a uma profunda suspeita nao da macroeconomia keynesiana em si, mas sim da possibilidade de chegar a quaisquer agregados macroeconomicos como consumo, investimento, renda nacional ou um indice geral de precos. Como cada agente individual no processo economico e unico, a tentativa de somar as atividades  de tais individuo e inutil. Nesse sentido, Hayek e sua escola atacam a "sintese neoclassica" de uma posicao diametralmente oposta a dos pos-keneysianos. Nao foi o keynesianismo que teria feito concessoes injustificadas a ortodoxia neo-classica, mas ao contrario, os neoclassicos, ao abracarem o tipo de maceroagregados que o keynesianismo implicava, teriam comprometidos seriamente seus principios.
Do ponto de vista de seu papel ideologico e do tipo de politica economica que propoe, o monetarismo - cuja figura centrall e Milton Friedman - tem sido, no entanto, uma corrente da critica da ortodoxia keynesiana muito mais significativa do que a dos austriacos.  Em essencia, o monetarismo envolve o apelo a um retorno a alguma versao ou outra de uma teoria economica pre-keynesiana "solida". Especialmente na esquerda, era amplamente assumido que, sem intervencao governamental radical na economia, o fim da Segunda Guerra Mundial traria, na melhor das hipoteses, um periodo de estagnacao cronica ou, na pior, um colapso total da economia. Por razoes a serem discutidas posteriormente (capitulo 4) esse nao foi o caso e a inflacao gradualmente emergiu como um problema economico e politico central. Foi sob o impacto dessas pressoes inflacionarias, especialmente quando elas aumentaram dramaticamente na decada de 1970, que o monetarismo surgiu como a nova "doutrina  economica contra-revolucionaria " da moda.
Friedman foi uma figura proeminente entre a minoria de economistas do pos-guerra que rejeitaram os remedios para os males do capitalismo proposto por Keynes e seus seguidores. Ele nao apenas era um oponente do tipo de intervencao estatal defendida por Keynes, mas tambem apresentou uma explicacao bem diferente para a queda  economica na decada de 1930, que levou Keynes  escrever a Teoria Geral. Em um ponto nao insignificante Friedman concordou com Keynes: a tremor de 1929 poderia ter sido evitado. Mas para Friedman, a queda foi gerada nao por um nivel inadequado de gastos do governo ou pela falta de vontade de tomar emprestimos, mas pelo fracasso do FED em fornecer liquidez adequada para o sistema bancario. Quando a crise comecou, apos o colapso de Wall Street, o FED deveria ter permitido um aumento na oferta de dinheiro. Em vez disso, fez exatamente o  oposto e, como resultado, as falencias de bancos se multiplicaram e se seguiu um colapso geral. [2]
De acordo com Friedman, a economia "real" e fundamentalmente solida. Qualquer mal-funcionamento que experimenta e gerado por disturbios na esfera monetaria. (de um ponto de vista historico, Friedman nao estava aqui dizendo nada essencialmente  novo, ja que ha muito havia uma corrente  na economia ortodoxa que invocava disturbios monetarios como base para suas teorias de deslocamentos dentro da economia capitalista., algo que nao pode surpreender dado o dinheiro e o elo que conecta as transacoes comerciais, o Estado atraves dos bancos) Friedman tentou mostrar que as mudancas no estoque monetario precederam grandes reviravoltas no movimento ciclo da economia e que a condicao central para  a estabilidsade economica e uma politica  monetaria solida que atue nao sobre as taxas de juros, mas sobre a oferta de moeda.  Para Friedman, a politica monetaria e o instrumento decisivo para a regulacao da taxa de cambio, do nivel de precos, do nivel nominal de renda nacional e, por meio de mudancas na oferta de moeda, da taxa de inflacao e deflacao/
A influencia que as ideias dos monetaristas tem desfrutados no passado recente, sem duvida, deriva, pelo menos  em parte, de sua aparente simplicidade: o controle de uma variavel no sistema economico (a oferta de moeda) oferece a chave para a regulamentacaso de todas as outras. Mas se as ideias de Friedman fornecem uma chave para a compreensao da crise do capitalismo contemporaneo e uma questao totalmente diferente, como veremos[3].
Mesmo no ponto que o monetarismo considera ser o seu ponto mais forte - sua correspondencia com "os fatos"- duvidas consideraveis cercam agora a obra de Friedman. Assim, em um artigo recente publicado pelo Banco Central da Inglaterra, foi sugerido que Friedman manipulou severamente seus dados a fim de estabelecer a proposicao central monetarismo, ou seja que as  mudancas na oferta de moeda tem uma conexao extreita e causal com a taxa de inflacao de precos, O monetarismo baseia-se  na conhecida equacao de Fischer, MV=PT: a oferta de moeda(M) multiplicada pela velocidade de sua circulacao(V) e igual ao nivel de precos(P) multiplicado pelo numero de transacoes no determinado periodo(T). Mas o monetarismo prosegue afirmando que, como V e T sao relativamente estaveis, a equacao pode ser reduzida a um em que M=P. Agora, neste exame do principal trabalho de Friedman por um notavel econometrista (Hendry 1983), foi descoberto, por exemplo, que Friedman reduziu os valores do estoque de dinheiro em 20% nos anos 1921-55 (o que equivale a quase um terco da extensao de seus estudos) justificando de que as guerras e as depressoes fazem com que as pessoas tenham mais dinheiro do que em tempos normais. Da mesma forma, Friedman aumenta o nivel de precos do pos-guerra para permitir controles e  racionamento de precos: ele argumenta que o nivel de precos deve ter sido mais alto do que as estatisticas oficiais revelam, ja que a oferta de moeda cresceu mais rapidamente que os precos. Hendry entao mostra  que o vencedor do Premio Hobel usa seus dados modificados para substanciar sua tese central: que o movimento dos precos depende do movimento da oferta de moeda, o caso mais claro de raciocinio circular. Em outras palavras, Hendry sugere que as proposicoes de Friedman sao afirmacoes sem bases empiricas.
Este livro nao tera uma preocupacao central com as reividicacoes dos monetaristas.[4] Mas, em qualquer caso, a opiniao otimista de Roll de que havia quase unanimidade entre os economistas sobre os problemas fundamentais da teoria economica e que a maioria aceitava os principios do keynesianismo nao e mais valida. Pois nao apenas o keynesianismo foi atacado pela escola de Chicago, como tambem foi atacado por uma variedade de angulos diferentes. Para alguns, ao que parece, o keynesianismo que predominou apos 1945 teve pouco a ver com o artigo genuino encontrado nos escritos do proprio Keynes

KEYNESIANISMO BASTARDO

O professor Hutchison esta entre aqueles que argumenta que no mundo do pos-guerra um pseudo-keynesianismo era praticado, o qual tinha pouca conexao com o ensino original de Keynes. A doutrina keynesiana tornou-se um dogma que era usado para justificar politicas de expansao e crescimento, com pouca consideraco pelo custo de tais medidas. Ele ve quatro elementos neste falso keynesianismo. Em primeiro lugar, politicas foram seguidas por governos que levaram o nivel de  desemprego abaixo do nivel considerado por Keynes como seguro. Em segundo lugar, estrategias de crescimento de acordo com o potencial maximo (crescimento total) foram seguidas e isso se tornou o objetivo principal da politica economica. Por outro lado, a estabilidade de precos foi dada  pouca importancia. Qualquer tendencia a inflacao deveria ter sido combatida com politicas salariais. Para cada dessas posicoes, Hutchison encontra pouco apoio nos escritos de Keynes. Em apoio a essa afirmacao, ele chamou a  atencao para uma serie de artigos escritos por Keynes em 1937 que  opunham a ideia de que a ameaca de outra recessao poderia ser evitada por mais gastos do governo. Hutchison resume seu argumento da seguinte maneira: "Sao as reivindicacoes urgentes de uma serie grande  de objetivos politicos, ou o fato de que, durante grande parte do periodo pos-guerra, a economia britanica esteve em, ou quase  perto, de uma especie de fronteira de formulacao de politicas - que constitui um contraste completo com as situacoes politicas que Keynes enfrentou nos anos entre guerras. Keynes afirmou que, quando se passa das condicoes de desemprego para as de pleno emprego, uma serie de proposicoes teoricas e  politicas que se sustentam em um caso deixam de valer no outro...Os problemas de politica certamente assumem uma forma muito diferente e mais complexas quando se sai de uma economia com uma media de desemprego de 14%... para uma com media de 1,5 a 2%.(Hutchinson 1968)
Uma consequencia do trabalho de Hutchison e desvalorizar todo o conceito de revolucao keynesiana, certamente no que diz respeito as suas implicacoes para a politica, Ele sugere que, de qualquer modo, entre os economistas profissionais, havia um amplo consenso sobre a politica economica no final da decada de 1920 e inicio de 1930.Cada uma ou duas excecoes dignas de notas (concentradas na London School of Economics/LSD), praticamentre todos os economistas, quaisquer que fossem as diferencas de carater teorico que os separassem, e o que quer que sua teoria economica sugerisse, se opunham ao corte de salarios como meio de reduzir o desemprego nas condicoes especificas entao prevalecentes.... Isso vale principalmente para o professor Pigou, que, argumenta Hutchison, deve ser isentado da acusacao generalizada de que ele era um defensor das reducoes salariais para resolver a crise dos anos 1930. Hutchison e um economista que duvida que qualquer significado real possa ser dado ao termo "economia classica", novamente no que diz respeito as questoes politicas. Aqui e colocada uma serie de problemas sobre o lugar de Keynes na historia da economia politica e sobre o verdadeiro carater da revolucao keynesiana, assuntos aos quais nos voltaremos no proximo capitulo.
Os "pseudoskeynesianos" de Hutchison incluem os membros da escola de Cambridge, a figura principal entre os quais por muito anos foi Joan Robinson. Agora, ironicamente, Joan Robinson, como Hutchison, e de opiniao que o keynesianismo que surgiu no mundo do pos-guerra nao era o artigo genuino: ela o denominou sarcasticamente "keynesianismo bastardo". Mas sua opiniao sobre o que constitui o keynesianismo genuino e muito diferente da proposta de Hutchison, ela propria uma indicacao do avancado estado de desintegracao que prevalece na economia. A reclamacao de Robinson resume-se ao fato de que o que se passava por tecnicas keynesianas - tecnicas que ela acreditam terem sido usadas para manter o sistema capitalista funcionando apos a guerra - na verdade teria obscurecido o verdadeiro carater revolucionario do pensamento de Keynes.
A versao de Keynes reproduzida em inumeros de livros didaticos que parece ter ofendidos Robinson e outros pode ser resumido assim: Ela ve a economia como uma maquina que consiste numa serie de fluxos, cujas relacoes sao altamente estaveis, em principio conheciveis e portanto, em principio tambem previsiveis, a partir das experiencias anteriores. Se um fluxo para toda a economia deixar de ocorrer a uma taxa apropriada, a deficiencia pode ser reparada pela intervencao e regulacao do governo sobre os fluxos sobre as quais ele tem controle direto - os niveis de tributacao e gastos publicos. Existem relacoes estaveis e conhecidas entre gastos e receitas de governo (e por extensao, emprego); pela manipulacao apropriada de taix fluxos, o volume de empregos pode ser ajustado de acordo com os objetivos da politica: "....um novo edificio teorico foi erguido que seria reconectado a teoria neoclassica da harmonia e apenas participa na distribuicao de renda. O velho otimismo sobre este ser o melhor (e justo) mundo foi reafirmado. O automatismo classico da economia de mercado, mantendo o pleno emprego e garantindo a alocacao otimas de recursos, acaba se ser substituido pela maquina deus ex composta pelo Tesouro e o Banco Central. ......O novo sistema autoconsistente e determinado foi completado pela ideia de que os politicos poderiam escolher a seu criterio o nivel de desemprego - a partir de um menu servido por econometristas - que esse nivel seria uma expressao da vontade da  comunidade e dependeria de quanta inflacao ela estavam disposta a tolerar. [Balogh em Thirwall (ed) 1974:83-4] {5}

POS-KEYNESIANISMO

Balogh esta aqui refletindo os pontos de vista de uma tendencia que se tornou conhecida como neo-keynesianismo ou pos-keynesianismo (em geral, o ultimo termo sera empregado neste livro). Foi uma tendencia ou escola que se opos ao modelo padrao de receita-gasto ou a versao ortodoxa dos livros didaticos da Teoria Geral, em oposicao, isto e, aqueles que liam essa obra a partir da teoria do equilibrio geral. Agora neste ultimo ponto e, apesar das afirmacoes dos pos-keynesianos, a Teoria Geral realmente contem muitas afirmacoes no sentido de que, com o estabelecimento de pleno emprego, as leis do equilibrio geral entram em operacao e a economia entao funciona segundo as  linhas sugeridas pela teoria neoclassica; Alem disso, essa posicao  de equilibrio geral poderia ser restabelecida por meio da politica fiscal e monetaria. Aqui estava a  base para o casamento do keynesianismo e a velha teoria neoclassica para produzir a sintese neoclassica que, por sua vez forneceu a justificativa para a nocao de "economia mista" e a intervencao governamental. A partir de meados da decada de 1960, porem, uma nova geracao de keynesianos emergiu critica dessas interpretacoes tradicionais, entre eles, Clower, Leijonhufvud, Paul Davidson e Sydney Weintraub. Seu principal alvo de  ataque foi a leitura  de Keynes proposta por Hicks, Hansen, Samuelson e outros. Clower por exemplo, argumentou que a teoria de Keynes era mais do que qualquer outra coisa uma teoria de desiquilibrio, uma teoria que descreve uma economia que nao buscava restabelecer o equilibrio, mas continuament pertuba-la. Segundo Clower, essas instabilidade surgem de informacoes imperfeitas, da diferenca de  magnitudes esperadas e realizadas, fatores que sao fontes potenciais de reacoes em cadeia na economia e que minam incessantemente seu estado de equilibrio. Leyjonhufvud como Clower, defendeu que a teoria de Keynes nao pode ser reduzida a um caso particular de equilibrio porque nao ha, de fato, equilibrio; os desiquilibrios da economia nao sao acidentais, mas organicos, resultados da incerteza, das imperfeicoes da informacao economica e das respostas economicas inelasticas as varias mudancas.
Weintraub(1973) fornece uma lista  das principais objecoes que essa escola mantem contra o keynesianismo ortodoxo.Em primeiro lugar, simplifica demais a natureza da economia e sugere que ela pode sofrer inflacao ou desemprego, mas nao os dois simultaneamente. Em segundo lugar, da pouca atencao a importancia das mudancas de precos no funcionamento da economia. Terceiro, ignorou amplamente a incerteza e as informacoes  inadequadas como determinantes do nivel de investimento. Quarto, o keynesianismo ortodoxo abstraiu-se dos problemas de distribuicao e, assim, lancou as bases para uma divisao injustificada entre a macro e microeconomia.  Quinto, interpretou erroneamente a teoria de Keynes como sendo uma teoria preocupada com a economia em estado de repouso, embora ela fosse essencialmente dinamica.
De todos os escritores que enfatizaram essa questao da icognoscibilidade inerente do futuro e as consequencias desse fato para a teoria economica, GLS Shackle foi foi uma figura proeminente e descrita por um escritor (Loadsby 1976) como o unico keynesiano genuino. E assim que Shackle ve os esforcos do keynesianismo ortodoxo para casar a velha economia do equilibrio com a Teoria Geral: "No final dos anos 1920 e 1930, um grande espasmo de esforco criativo na teoria economica respondeu a visivel dissolucao do mundo vitoriano comparativamente ordenado no qual Marshall foi capaz de discernir a perfectibilidade gradual da organizacao industrial e social, aludindo a perfectibilidade da natureza humana  em si. Essa traquilidade foi destruida, e a teoria da vida economica que a refletia precisava ser transcendida e ate mesmo totalmente subvertida. Nao apenas o projeto detalhado do relato do economista  sobre as coisas necessitava ser mudado, mas seus pressupostos fundamentais, seus propositos e ambicoes, o que afirmava fazer, teve de ser essencialmente reconsiderado. Essa reorientacao foi dificil de aceitar e ainda nao tem aceitacao geral. (ver Weinbraub 1979: 37)
Como observamos, ao enfatizar o papel do desiquilibrio e da incerteza, os criticos da leitura ortodoxa de Keynes apontam para a instabilidade financeira  do sistema  economico capitalista: a incerteza produz flutuacoes na economia precisamente por causa de  seu elaborado sistema de  instituicoes monetarias e financeiras que sao especialmente vilneraveis a mudancas sob o impacto de expectativas pessimistas ou otimistas. Esse e o tema de um livro publicado em meados de 1970, que fornece uma interpretacao de "esquerda" do keynesianismo pelo economista norte americano Professor Hyman Minsky (Minsky 1976). Como Bologh, Minsky se ressente profundamente do fato de que a revolucao keynesiana foi abortada no periodo apos a ultima guerra. Ele tambem sustenta que "a teoria economica classica keynesiana integrada - o que e rotulado de sintese neoclassica - violenta tanto o espirito quanto a substancia da obra de Keyne" (ix), Ele prossegue na seguinte linha sobre oa Teoria Geral: "a obra contem as sementes para uma profunda revolucao intelectual na economia e na concepcao do economista da sociedade, No entanto, essa sementes nunca alcancaram sua plena fruicao. A revolucao cientifica embrionaria foi abortada quando as ideias do livro foram interpretadas e analisadas por academicos e, em seguida, aplicadas por esses mesmos academicos como um guia para politicas publicas. (Minsky 1976:4)
Como alguns keynesianos da escola de Cambridge, Minsky enfatiza a instabilidade inerente do capitalismo, o fato de que a tomada de decisoes ocorre necessariamente sob condicoes de incerteza e que as relacoes e instiuicoes financeiras desempenham um papel central em seu funcionamento. E foi porque Keynes viu essas questoes como centrais que seu livro, longe de estar morto, tem grande relevancia, desde que seja interpretado no espirito correto. Entao: ..nas facetas negligenciadas da Teoria Geral, ha uma teoria dos processos de uma economia capitalista que e muito mais apropriada para  os problemas de analise economica e politica que agora enfrentamos do que a que esta contida na teoria economica padrao. (ibid)

KEYNES E A ECONOMIA POLITICA CLASSICA

Agora, as implicacoes da abordagem de Minsky para a mensagem geral da Teoria Geral e continua relevancias para os problemas atuais da economia capitalista e sao importantes nao apenas para a politica economica, mas para uma valiacao do lugar real de Keynes no desenvolvimento da teoria economica. Joan Robinson tem estado na vanguarda daqueles que insistem que a economia keynesiana, devidamente interpretada, pertence nao ao neoclassico mas a tradicao classica representada por Adam Smith e, sobretudo, por David  Ricard. Isso porque Keynes, como Smith e Ricardo, se preocupava com agregados economicos. O problema neoclassico tipico, conforme formulado em uma longa serie de escritos de Jevons em diante, dizia respeito ao processo pelo qual uma determinada receita era alocada da maneira mais racionsal. So rejeitar a proposicao de que se poderia comecar a partir de um determinado nivel de renda nacional de pleno emprego, e ao se concentrar nas forcas que sdeterminavam tanto o nivel quanto as flutuacoes  da renda nacional, Keynes estava, de acordo com a escola de Cambridge, fazendo o tipo de pergunta feita pelos economistas classicos" sob quais condicoes uma abundancia de mercadoria pode ser assegurada? Assim,  diz Robinson, "Ao tornar impossivel acreditar na reconciliacao automatica de interesses conflitantes em um todo harmonioso, a Teoria Geral trouxe a tona o problema da escolha e  do julgamento que os neoclassicos conseguiram sufocar. A ideologia para acabar com todas as ideologias quebrou, A economia voltou ser economia politica. (Robinson 1962:76.
Eric Roll concorda plenamente com o julgamento de Robinson: "Portanto, pode-se arriscar a opiniao de que a abordagem de Keynes representa, acima de tudo, um retorno as preocupacoes das economia [politica classica e, nessa medida,  um afastamento dessa concentracao sobre as implicacoes da escolha individuall que por tanto tempo foi a caracteristica distintiva da parte central ds teoria economicsa moderna. E esse desvio na metodologia economica em geral, e nao apenas uma contribuicao ao estudo das flutuacoes economicas, que o sistema keynesiano adquire sua maior importancia." (Roll 1973:486)
Robinson esta, no minimo, preparada para ir mais longe. Pois a abordasgem geral de Keynes constituiu um retorno nao apenas as tradicoes dos economistas classicos, mas ao mesmo tempo as de Marx: A teoria academica, por um caminho proprio, chegou a uma posicao que tem consideravel semelhanca com o sistema de Marx. Em ambos, o desemprego desempenha um papel essencial. Em ambos, o capitalismo e visto como carregando dentro de si a semente de sua propria decadencia. Do lado negativo, em  oposicao a teoria do equilibrio ortodoxo, os sistemas de Keynes e Marx estao juntos, e agora ha pela primeira vez, terreno comum suficiente entre Marx e Keynes para tornar a discussao possivel (Robinson 1951:137)
Para o marxismo, essas sao questoes serias. Elas levantam questoes criticas sobre o lugar de Keynes na evolucao do pensamento economico, em particular sua relacao com a tradicao classico-marxista e sobre suas inovacoes metodologicas no assunto. Examinaremos cada uma dessas questoes (capitulo 3) por meio de uma consideracao dos fundamentos metodologicos do trabalho de Keynes.
Joan Robinson e outros membros da escola de Cambridge enfatizaram um elemento que eles veem subjacente a grande parte do trabalho de Keynes, a saber, a enfase que ele da a incerteza inerente implicita em todos os processos economicos. Essa incerteza surgiu do fato de que os eventos economicos ocorrem ao longo do tempo, o que significa que e, em principio, impossivel prever o futuro com base na experiencia passada. E assim que Robinson pensa: "Quando Keynes estava escrevendo a Teoria Geral, sua principal diferenca com a escola da qual lutava para escapar residia no reconhecimento da demanda efetiva, que eles ignoravam. Foi por isso que ele colocou todos, de Ricardo a Pigou, em uma categoria, e por isso supervalorizou Malthus. Depois que o livro foi publicado, ele tracou uma linha diferente. Ele viu que a principal diferenca  era que ele reconhecia, e eles ignoravam, o fato obvio de que as expectativas do futuro sao necessariamente incertas. E desse ponto de vista qu a teoria pos-keynesiana decola. O reconhecimento da incerteza mina a nocao tradicional de equilibrio. (prefacio de Eichner 1979)
Shackle tambem deseja enfatizar um ponto semelhante. Comentando sobre o artigo de 1937 escrito por Keynes para o Quarterly Journal of Economics para responder a certas criticas da Teoria Geral, Shackle diz que este artigo :destruiu em uma frase a analise basica da economia convencional, que os negocios podem e continuam pela razao e calculos baseados em dados suficientes. Essa base esta ausente, ele disse com efeito na natureza das coisas"(Shackle, 1974:prefacio) Em um sistema de troca puro, diz Shackle, a lei dos mercados de Say seria valida - isto e, a oferta criaria sua propria demanda de maneira semiautomatica e o equilibrio, se por acaso perturbado, se restabeleceria rapidamente. A existencia de dinheiro aumenta enormemente a possibilidsde de que o nivel de demanda efetiva seja insuficiente para garantir o pleno emprego, simplesmentee porque o dinheiro absolve aqueles que buscam acumular riqueza a partir das producao real de decidir que formas reais essa riqueza deve assumir, colocando o onus dessa divisao e suas consequencias sobre um pequeno numero de empresarios. (Questoes importantes sobre a natureza do equilibrio e seu lugar,  se houver, na analise da economia capitalista sao levantadas aqui. Elas serao examinadas mais adiante neste trabalho)
Uma questao final deve ser tratada neste capitulo introdutorio. Como ja observamos, para alguns economistas pelo menos, o trabalho de Keynes marcou uma ruptura fundamental com a economia neoclassica no sentido de que se preocupava com a economia como um todo, e em segundo lugar, porque rejeitava a nocao de um equilibrio estatico que teve no centro  de muitas teorias neo-classicas. Na tentativa resultante de fundar uma nova economia politica com base no trabalho de Keynes, Joan Robinson e outros desejaram retomar certos elementos da tradicao classico-marxista. No que foi considerado na decada de 1960 como uma reabilitacao da economia classica, o trabalho de Piero Sraffa foi, nesse respeito, de fundamental importancia[6]
Sraffa, de fato, desempenhou um papel seminal nao apenas nas recentes controversias em torno da teoria do valor e nas criticas lancadas a economia neoclassica. Em sua avaliacao da evolucao da teoria economica durante o periodo entre guerras, GLS Shackle (1967), tratando com o que ele denomina "era de turbulencia", inicia sua revisao do periodo com a obra de Sraffa. Ele chamou o o famoso artigo de Sraffa no The Economic Journal" o"O Manifesto de Sraffa de 1926". Foi nessa  contribuicao que Sraffa apontou para o fato de que o pressuposto da producao em larga escala nas empresas individuais (onde prevalecem os retornos crescentes) e o pressuposto da concorrencia perfeita sao incompativeis. O artigo de Sraffa centra-se  no exame das implicacoes da teoria ds competicao a luz da teoria neoclassica, especialmente em sus forma marshaslliana. Por competicao perfeita, os economistas referem-se ao situacao em que a empresa individual e capaz de vender "o quanto desejar" a um preco alcancado espontaneamente pelo mercado e independente da producao da empresa. Mas, argumentou Sraffa, esta lei esta em relacao contraditoria com a operacao de outra lei que tem estado no centro da teoria economica desde Adan Smith - a lei dos retornos crescente - que afirma que devido a possibilidade de maior especializacao disponivel para a empresa, os custos irao cair a medida que o tamanho da empresa aumenta. Assim, a seguinte questao foi colocada: se, a cada maior producao, o custo unitario de producao da empresa e reduzido, o que pode impedir a expansao indefinida da empresa? E se a empresa pode assim se expandir e engolir todo o mercado, o que resta da teoria  da concorrencia peerfeita?
Ao atacar a insustentalidade da nocao de concorrencia perfeita em face das realidades obvias da economia capitalista (aumento do monopolio, etc), Sraffa estava atingindo o que tinha sido visto como uma das pecas centrais da economia liberal do seculo XIX, assim como Keynes, quando atacou como dogma a lei dos mercados de Say, tambem estava propondo descartar uma lei que havia sido aceita por praticamente todos os economistas ortodoxos no seculo anterior. O fato de que no espaco de alguns anos este ataque em duas frentes deve ser lancado contra os principios mais acalentados da economia politica da escola de Manchester indica que uma crise fundamental se uniu tanto para a economia capitalista quanto para uma de suas expressoes ideologics, a economia neoclassica, que ha muito considerava um truismo a proposicsao de que um capitalismo desregulado maximava tanto a liberdade de escolha individual quanto a utilizacso de recursos existentes. Como e bem sabido, Sraffa propos que a teoria da concorrencia perfeita fosse abandonada em favor do estudo das estruturas de mercado oligopolisticss, uma orientacao que Robinson, Edward Chamberlin e outros seguiram nos anos 1930. O trabalho de Sraffa seguiu em uma direcao ligeiramente diferente, embora relacionada: a uma tentativa de critica da economia neoclassica que prima facie retomou  certos temas da economia classica, especialmente a ricardiana, e descartou a nocao de marginalismo (Sraffa 1969).

O SIGNIFICADO DE SRAFFA

E com base no trabalho de Sraffa que se desenvolveu uma escola de "neoricardianos" que, entre outra coisas, propoe que e possivel analisar a economia  capitslista sem recorrer as agora feita redundantes nocoes de valor e mmais valia encontradas em Marx.  Com base na versao modificada de Sraffa da economia politica classica, junto com a nocao de Keynes de demanda efetiva, uma nova economia politica pode ser estabelecida. Pelo menos essa e a reivindicacao.
Comos ja indicamos, Joan Robinson foi uma figura central  em todos esses desenvolvimentos. Situada na encruzilhada  de varias vertentes da teoria economica moderna, ela foi representante daqueles que trabalharam para uma reconstrucao da economia politica que superaria o que ela e seus colegas viam como a falencia da economia politica neoclassica. Essa economia politica abarcaria  elementos da escola classica, revividos na obra de Sraffa, uma tradicao classica que, segundo Robinson, poderia ser enriquecida com as contribuicoes de Alfred Marshall, Keynes e Michael Kalecki. A partir da decada de 1950, ela tentou "tracar as confusoes e sofismas da doutrina neoclassica ate sua origem na rejeicao do tempo historico na teoria do equilibrio estatico da economia neoclassica e, ao mesmo tempo, encontrar uma alternativa mais promissora na tradicao classica, revivida por Sraffa, que flui de Ricardo a Marx, diluido por Marshall e enriquecido pela analise da demanda efetiva de Keynes e Kalecki."
Agora, ha claramente uma serie de afirmacoes nada incontestaveis aqui, que temos que examinar com mais detalhes em capitulos posteriores. Mas uma serie de pontos preliminares podem ser feitos:
1. Robinson fala da escola classica. Mas isto esta longe de ser uma categoria teorica inequivoca. Marx a inventou, mas Keynes a usou em um sentido radicalmente diferente na Teoria Geral. Como veremos, essa e uma questao importante que tem uma influencia fundamental sobre a natureza da  tentativa da revolucao de Keynes na teoria economica. (Quando Keynes disse que queria destruir os fundamentos ricardianos do marxismo, ele estava na verdade associando as duas teorias e, especialmente, suas teorias de valor).
2. O uso generalizado modista da denominacao neoricardiana para caracterizar a escola fundada com base na obra de Sraffa, nao obstante, nao e de forma alguma aceita com unanimidade, certamente nao pelos marxistas, que sua obra representa de fato um retorno a tradicao classica, pelo menos nao como essa tradicao foi entendida e criticada por Marx. Na opiniao do presente escritor, em essencia a obra de Sraffa envolve uma degeneracao em comparacao com o ponto alto a que a economia politica classica atingiu, a obra de David Ricardo.
3. Finalmente  um tema importante e afirmacao de Robinson que a obra de Keynes pode com sucesso ser integrada com as obras das tradicao classica  e ou a marxista. Tentaremos mostrar no Capitulo 3  que isso nao e possivel e que o ponto de partida de Keynes e radicalmente diferente dos economistas  da tradicao classica e fundamentalmente diferente da de Marx; nesse sentido o projeto que Robinson defendia e em ultima instancia sem sentido e somente poderia resultar na melhor das hipoteses   numa salada ecletica.
Claro que e verdade que a partir de 1930, membros da escola de Cambridge, com Robinson na frente, fizeram uma series de criticismos de aspectos da economia politica ortodoxa neoclassica, e a revolucao Keynesiana e melhor compreendida dentro desse  contexto geral de desenvolvimento.. Apesar de algumas diferencas entre os membros dessa tendencia - alguns gostariam de fazer uma distincao entre aqueles que devem mais a Sraffa do que a Keynes, por exemplo - a substancia dessa  critica pode ser considerada como composta por dois pontos:
1. Ataca a irrealidade da competicao perfeita que supostamente garante, simultaneamente, a alocacao eficiente de recursos e a soberania do consumidor (levando a celebrada otimidade de Pareto).
2. A segunda questao diz respeito a questao do capital. Segundo a teoria neoclassica, o volume de capital e normalmente determinado como receita capitalizada, dependendo dos juros sobre um estoque de ativos de capital (que, em condicoes de equilibrio, e identificado com a taxa de juro). Portanto, se o valor dos bens de capital deve ser determinado, a taxa de juros deve ser conhecida de antemao, mas a teoria neoclassica pretende explicar a magnitude  das rendas dos fatores de producao, incluindo a taxa de juros. Os Scraffians, portanto, acusam a teoria  neoclassica de circularidade (ver Robinson 1971)
As discussoes entre os neo-keynesianos e os defensores da ortodoxia classica  certamente foram acaloradas, mas  a questao permanece: esses dois ataques realmente  juntos constituem um assalto fundamental a tradicao neoclassica como se acreditam? Nossa resposta e negativa pelos seguintes motivos. O neo-keynesianismo rejeita uma estrutura de mercado particular, a competicao perfeita, por nao corresponder mais a realidade do capitalismo moderno. Marx, no entanto,  criticou a economia vulgar de um angulo bem diferente daqueles dos sraffianos; Marx rejeitou completamente a propria ideia de produtividade do capital (III:814-43); so o trabalho vivo pode criar novo valor, mas  o capital como uma magnitude de valor nao cria e nao pode criar esse novo valor: e meramente uma condicao para sua apropriacao. Para Marx, a nocao espuria da "produtividade" do capital surge da confusao entre o valor e os aspectos fisicos do capital. Ou seja, embora  o capital seja um valor, ele e um valor conectado com objetos diversos e mutaveis - maquinas, materias primas, entradas bancarias, impulsos em bancos de dados eletronicos etc. E foi precisamente essa incapacidade da economia vulgar de distinguir criticamente entre as qualidades das coisas que surgem das relacoes sociais das quais as coisas  faziam parte, em oposicao as qualidades que surgiram das propriedades materiais das coisas, que Marx designa como fetichismo. Os keynesianos radicais deram grande importancia ao fato de que o capital, longe de ser homogeneo, como propoe a teoria classica, e na realidade altamente heterogeneo. Robinson e seus seguidores desprezaram a hipotese do neoclassicismo ortodoxo  de que o capital e como geleia, infinitamente maleavel; os keynesianos de Cambridge desejam enfatizar o fato de que o capital existe no tempo e e composto de uma ampla variedade de coisas, acos, tijolos, dinheiro, etc. Como uma exposicao de suas controversias com a escola neoclassica coloca: "Uma vez introduzida a heterogeneidade de bens de capital, as parabolas baseadas na geleia nao se aplicam mais. Em particular, nao se pode mais argumentar que "capital" e pago por um produto marginal que e igual a r (mesmo em uma situacao de equilibrio)...a descoberta...destroi os fundamentos da abordagem tradicional da oferta e demanda para a teoria de distribuicao. (Harcourt 1969:394).
Agora, embora muito tenha sido feito sobre esse problema, ele realmente evita o que importa, O fato e que o capital, como os pos-keynesianos corretamente apontam, realmente compreende muitos elementos mutaveis. Mas a questao basica que dividiu os  economistas nao e este problema, mas sim um problema muito mais fundamental: o  capital e uma "coisa" ou uma expressao de uma relacao social de producao definida, embora ligada a uma coisa? A critica  de Cambridge nada tem de substancial a dizer  sobre essa questao. (Trataremos  mais detalhadamente da natureza do capital e das confusoes  em torno dsessa questao no capitulo 3)
Uma questao igualmente critica para a ala Sraffa da escola pos-keynesiana e o fato de que eles deixam de criticar singularmente a nocao vulgar de que o  preco e equivalente ao valor, de que a aparencia das coisas e identica a sua essencia. Na verdade, eles rejeitam explicitamente a lei do valor como sendo pura metafisica (Joan Robinson), com o que querem dizer que ela nao pode ser testada  empiricamente e, de acordo com Karl Popper, nao pode, portanto, ser qualificada como tendo status cientifico. A esse respeito, o termo-ricardiano que tem sido aplicado aos membros dessa escola e bem inapropriado, pois ao rejeitarem a  nocao de valor e mais valia dao um passo atras em relacao a Ricardo, que partiu da  determinacao do valor pelo tempo trabalho, para fazer a base para sua analise do funcionamento interno da economia capitalista. [7]. Em segundo lugar, e conectado a este ponto, a menos que se aceite a determinacao do valor pelo tempo de trabalho, nao se pode demonstrar logicamente que as relacoes de distribuicao surgem das relacoes de producao. Nao devemos nos preocupar neste livro com as  teorias de distribuicao dos keynesianos de esquerda, como Robinson, Kaldor, etc, mas em geral elas se baseiam na proposicao de que a distribuicao da riqueza e  determinada pelas operacoes de poupanca e investimento fora do processo real de  producao. (Aqui a escola de Cambridge depende muito do trabalho de Mikael Kalecki.)
Neste capitulo, tentamos esbocar o pano de fundo historico e teorico da crise atual da economia politica keynesiana. Resta-nos delinear o conteudo de cada um dos capitulos que se seguem.
No Capitulo 2, avaliamos a natureza e a importancia da revolucao keynesiana do ponto de vista de suas implicacoes para a politica economica, bem como a luz dea mudanca fundamental que Keynes afirmou ter feito no campo da teoria economica, Se nao tanto entre todos os economistas academicos, mas certamente entre o publico educado, acreditava-se que foi acima de tudo gracas ao sucesso da revolucao keynesiana que o capitalismo desfrutou de um grau de sucesso sem precedentes depois de 1945. Essa opniao e, para dizer o minimo, pode  ser questionada seriamente. Sera sugerido que a expansao/boom do pos-guerra nao teve nada a ver de importancia a ver com a aplicacao das politicas keynesianas e, alem disso, contra as alegacoes de muitos economistas e historiadores economicos, o keynesianismo, sera argumentado, nao ofereceu solucoes reais para a crise de 1930. Em suma, sera proposto que a crescente intervencao do Estado na economia do pos-guerra pouco ou nada deveu a uma conversao as ideias  keynesianas, mas foi um reflexo dos problemas economicos/politicos e sociais do capitalismo em um determinado ponto historico. Alem disso, sera sugerido que a tendencia para uma crescente intervencao do Estado em uma variada area de questoes economicas e sociais e um desenvolvimento organico a propria natureza do capitalismo do seculo XX em todos os paises, nao e fundamentalmente uma questao ideologica e como tal nao foi de forma alguma inspirada pela teoria economica keynesiana. Posto isto, nao ha duvida de que, pelo menos no mundo anglo-saxao, o nome Keynes e o principal associado a ideia de  crescente envolvimento do Estado na economia. As opinioes de Keynes sobre essa questao serao consideradas a luz da historia do pensamento economico na Gran Bretanha e, de maneira mais geral na Europa. Comos ja observamos, o keynesianismo se tornou o elemento fundamental na ideologia social democrata do pos-guerra. Mas sera argumentado que nao ha nada necessariamente liberal ou progressista nas propostas keynesianas e que elas podem ser, de fato tem sido, o veiculo para uma  variedade de propositos sociais e intelectuais.
Isso levara (Capitulo 3) a uma analise detalhada dos fundamentos teoricos da Teoria Geral de Keynes. As categorias basicas deste trabalho serao submetidos ao escrutinio critico e argumentar-se-a que elas sao de carater essencialmente subjetivos, o que nao so as tornas incapazes de explicar a dinamica da economia burguesa, mas tambem abre a possibilidade de serem preenchidas com qualquer conteudo social e politico, fato este que explica o vasto uso que se tem feito das ideias keynesianas. Atencao detalhada sera dada ao conceito de capital defendido por Keynes, bem como por seus seguidores mais influentes,  como Robinson, baseando-se no fato de que este e uma categoria fundamental da economia burguesa e o tratamento dela por qualquer escritor particular e nesse sentido uma prova de fogo quanto a sua posicao em todas as questoes economicas cruciais, porque Keynes foi frequentemente apresentado como, acima de tudo, um oponente da economia de equilibrio,, a nocao de equilibrio e seu lugar na analise da economia capitalista serao revisados criticamente.  Argumentaremos que o angulo a partir do qual Marx e Keynes comecaram suas analises da economia capitalista era de uma natureza totalmente diferente e sera defendido que Keynes pertence nao a tradicao classica da  economia politica, mas a escola vulgar. Argumentaremos vigorosamente que nao e  possivel construir pontes entre a economia politica de Marx e a de Keynes, como imaginado por Robinson e outros. 
O Capitulo 4 tratara mais diretamente da natureza da expansao infracionaria do pos-guerra  e de suas contradicoes. Aqui, sera dada atencao a natureza dos gastos do Estado, tal como foi compreendida pelo keynesianismo e sera considerada a inadequacao dessa compreensao, As forcas que geraram o aumento dos gastos do Estado no periodo do pos-guerra serao examinadas e sera sugerido que elas surgiram nao apenas de uma serie de necessidsades "economicas" estreitamente concebidas que o capitalismo experimentou, mas tambem de uma serie de pressoes sociais e politicas que nas condicoes concretas que surgiram apos a ultima guerra mundial, o capitalismo nao estava em condicao de resistir. E sob essa luz que a tese de que um volume muito grande de gastos do Estado e a causa raiz da crise do capitalismo (Bacon, Ellis et al.) sera considerada: aqui sera proposto que essas  despesas do Estado nao podem ser interpretadas como a fointe da crise, mas sim como um de seus principais efeitos.Este capitulo procurara mostrar que, apesar das pretensoes da escola de Sraffa, nao e possivel compreender as contradicoes em desenvolvimento da expansao do pos-guerra sem recorrer as categorias e leis basicas da economia politica marxista, especialmente  a lei do valor e a lei da tendencia de queda da taxa de lucro.
No final de sua vida, Keynes estava principalmente preocupado com proposta para remodelar a natureza da economia internacional. A economia do pos-guerra desenvolveu-se no quadro de uma ordem economica internacional que o proprio Keynes ajudou a moldar. O Capitulo 5 tratara, portanto, da natureza dos arranjos de Bretton Woods e das sementes de sua efetiva desintegracao na decada de 1970, quando os EUA removeram o lastro em ouro para o dolar, o unico evento que mais do que qualquer outro desencadeou severas pressoes inflacionarias e lancou o keynesianismo em uma crise fundamental. Isso nos permitira localizar a crise do keynesianismo em seu contexto internacional.
Por fim, os diversos topicos do trabalho serao apresentados em conjunto, destacando-se a continuada relevancia central do marxismo e algumas sugestoes para trabalhos futuros sobre os temas que foram tratados no livro sugere. Em particular, essa tentativa de fornecer uma alternativa as doutrinas do monetarismo com base no keynesianismo e ao longo das linhas da Estrategia Economica Alternativa serao submetidas a um escrutinio critico, e sera argumentado que nao pode haver perspectiva de um renascimento para para a economia politica keynesiana pelo simples fato que essa tendencia de teoria economica  politica emergiu como uma forca ideologica dominante apenas sob circunstancias economicas e politicas historicamente bem definidas; circunstancias que agora desapareceram.

NOTAS;-

1]  Referindo-se ao fenomeno que se tornou conhecido como estagflaco, Lord Kaldor disse: "Nada desse tipo jamais ocorreu antes em tempo de paz - refiro-me a uma inflacao dessa magnitude abrangendo nao apenas um ou dois paises, mas todo os principais paises industrializados do mundo. A outra caracteristica unica dessa inflacao foi que ela foi acompanhada por uma acentuada recessao na producao industrial - Esta combinacao de inflacao e recessao industrial e um fenomeno novo, cuja explicacao apresenta um desafio intelectual para os economistas" (Kaldor 1978:215. Outros economistas tiverasm uma visao ainda mais sombria das  implicacoes ds inflacao mundial. Assim no final ds decadsa de 1970, dois  economistas proeminentes poderiam dizer: "Na ultima decada, o problema da inflacao passou de uma irritacao continua a um flagelo da estabilidade e do desempenho eficiente das principais economias e uma ameaca potencial a preservacao das sociedades democraticas" (Hirsch e Goldthorpe 1978:1). Uma das vitimas da explosao da inflacao na decada de 1970, ocorrendo juntamente  com o aumento do desemprego, foi a por demais  alardeada curva de  Phillips, que postulava uma compensacao entre inflacao e desemprego.
2]  A subjetividade de tais opinioes e clara: procuram explicar as crises fundamentais do sistema como resultados de politicas financeiras incorretas dos governos. Aqui, o monetarismo tenta explicar as crises capitalistas como originadas na esfera da circulacao e nao no processo de producao. Alem disso, para os monetaristas, tais crises nao sao economicas, mas politicas, decorrentes de politicas estatais pouco sensatas. Como acontece com a  economia politica burguesa como um todo, quando chega o momento de explicar uma crise economica, os fatores economicos sao abandonados em favor de fenomenos nao economicos.
3]  Sem antecipar muito da discussao posterior, pode-se notar que, entre as nocoes  dos economistas vulgares, Marx considerava  uma das mais vulgares, aquela que explicava o aumento dos precos pelo recurso a aumentos na oferta de dinheiro: "A ideia de que os bancos expandiram indevidamente a moeda, produzindo assim uma inflacao de precos violentamente reajustada por um colapso final, e um metodo muito superficial para explicar todas as crises para nao ser avidamente pego......A nocao vulgar, portanto, que refere a crise recente e as crises geralmente a uma emissao de notas de banco pode  ser descartada como totalmente imaginaria. (MECW 16:8)
4]  Em conexao com a disputa muitas vezes acirradass entre monetaristas e keynesianos, pode-se  realmente dizer que, no que diz respeito a economia, ha poucas novidades sob o sol. Pois esssa controversisa e essencialmente  uma reedicao do seculo XIX entre aqueles como Ricardo defendendo o "principio da moeda" e Tooke e outros que aderiram ao "principio bancario". A antiga escola sustentava que o nivel de precos dependia da quantidade de dinheiro em circulacao e que, internacionalmente, os precos expressavam o poder de compra de cada moeda nacional. O equilibrio entre as economias nacionais foi estabelecido pela transferencia de moedas e metais preciosos. O excesso de notas do Banco da Inglaterra era a causa da inflacao e, portanto, essas notas deveriam ser mantids ao nivel dos depositos de ouro no Banco ds Inglaterrs. Opondo a essa concepcao, a escola bancaria afirmava que os movimentos de precos dependiam da confianca  do publico na moeda . A quantidsde de dinheiro em circulacao dependia da demanda publica, sendo a quantidade de notas bancarias um efeito e nao a causa da demanda por elas. Em outras palavras, o Banco simplesmente emitiu o que era requerido dele. Como Marx observou: "Mas  a investigacao continua da historia dos precos obrigou Tooke reconhecer - que os aumentos ou diminuuicoes na quantidade de moeda quando o valor dos metais preciosos permanece constante sao sempre a consequencia, nunca  a causa das variacoes de precos, que, em conjunto, a circulacao do dinheiro e meramente um movimento secundario"(Marx 1971:186). 
5]  Em outro lugar, Bologh declara: "A revolucao keynesiana no pensamento economico provou ser uma cana quebrada para ajudar atingir um dinamismo constante  em nossa economia, assim como a elegante estrutura de pensamento economico que ela superou....A  economia liberal keynesiana  foi realmente capaz de sustentar  um crescimento acelerado. Mas por meios das tensoes sociais, que foram causadas por seu fracasso em garantir um senso de justica, minou seu proprio sucesso por meio de demandas crescente  por maiores rendas monetarias" (Bologh, 1971)
6]  Em uma revisao perspicaz, Hutchison observou a mudanca na posicao de Dobb sobre a natureza da "revolucao marginalista", Em seus primeiros trabalhos, Dobb atribuiu pouca importancia a esse evento, vendo-o como uma extensao de elementos ja presentes na economia vulgar que emergiu para uma posicao de dominio a partir da decada de 1830. Em sua obra posterior, ele viu isso como um ponto de inflexao decisivo e  constituindo uma revolucao muito mais decisiva do que aquela pela qual Keynes foi responsavel nos anos 1930. Essa "conversao" Hutchison explica em termos do objetivo de Dobb de destacar o suposto carater revolucionario da obra de Sraffa; ele esta construindo o que Sraffa (de acordo com Dobb) derrubou (Hutchison: 1978). Dobb afirma que Sraffa (junto com Robinson e outros criticos) sao herdeiros da tradicao marxista-ricardiana na analise dos problemas de troca e distribuicao (Dobb 1973:11.1). Ronald Meek (1964) assume uma posicao semelhante a Dobb. Entre outras coisas, ambos tendem a identificar  a economia politica ricardiana com a critica a ela.
7]  Um bom exame do abismo que separa Sraffa da tradicao classica (sem falar da posicao de Marx) e fornecido por S Himmelweit e S Mohun em (Steedman et al. 1981) 












   

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