INTRODUCAO
A "ilusao do PIB" e uma deficiencia na percepcao causada por defeitos na construcao e interpretacao dos dados economicos padrao. Seu principal sintoma e uma subestimacao sistematica da contribuicao real dos trabalhadores de baixa rendas do Sul global para a riqueza global, e uma medida exagerada correspondente do produto interno dos Estados Unidos e de outros paises imperialistas. Esses deefeitos e percepcoes distorcidas surgem dos conceitos neoclassicos de preco, valor e valor agregado, que informam como as estatisticas de PIB, comercio e produtividades sao concebidas e compreendidas. O resultado e que dados brutos supostamente objetivos e imaculados sobre PIB, produtividade e comercio podem ser tudo menos o que eles sao suposto serem; e as interpretacoes padrao ocultam pelo menos tanto quanto elas revelam sobre as fontes do valor e do lucro na economia global.
Tres exemplos arquetipicos da "mercsdoria global", o iPhone, a camiseta e a xicara de cafe - validam e ilustram esse argumento; sua diversidsades servem para destacar o que e universal para eles e para todos os outros produtos dos processos de producao globalizados. Todos os dados e experiencias, exceto dados economicos, apontam para uma contribuicao significativa para os lucros da Apple Inc, e outras empresas ocidentais pelos trabalhadores que trabalham muito, muito e por baixissimo salarios para produzir suas mercadorias.
No entanto, os dados economicos nao mostram nenhum sinal dessas contribuicoes, em vez disso, a maior parte do valor realizado na venda dessas mercadorias e todos os lucros obtidos pela Apple e pela Starbucks com elas parecem ter origem no pais onde elas sao consumidas. Essas tres mercsdorias globais sao, por sua vez, representativas de transformacoes mais amplas na producao capitalista.
As estatisticas economicas e suas interpretacoes padrao tambem obscurecem a relacao de exploracao nas relacoes entre as empresas do Norte e os produtores do Sul. Essa relacao de exploracao nao desaparece ingteiramente, mas permanece parcialmente visivel nos paradoxos e anomalias que infestam as contas-padrao da economia politica global. Esses paradoxos e anomalias sao como manchas em uma lente distorcida que alerta o observador para sua existencias, sendo necessario identificar e caracterizar essa distorcao para que o mundo seja visto como ele e. Essa distorcao e a representacao incorreta do valor capturado como valor agregado.
PARTE I: QUE CONTRIBUICAO OS TRABALHADORES DA FOXCONN FAZEM PARA OS LUCROS DA APPLE E DA DELL?
QUE CONTRIBUICAO FAZEM OS 300.000 TRABALHADORES em Shenzhen, China, que montam laptops Dell e iPhones da Apple - e dezenas de milhoes de outros trabalhadores em paises de baixos salarios em todo o mundo que produzem insumos intermediarios baratos e bens de consumo para os mercados ocidentais - FAZEM PARA PARA OS LUCROS DA APPLE, DELL E OUTRAS GRANDES EMPRESAS OCIDENTAIS? Ou para a receita e os lucros das empresas de servicos que fornecem suas instalacoes e vendem seus produtos no varejo? DE ACORDO COM O PIB, as estatisticas de fluxo comercial e financeiro e a teoria economica dominante, ABSOLUTAMENTE NADA,, NAO CONTRIBUEM NADA.
A Apple nao e proprietaria das instalacoes de producao na China, Malasia e outras que fabricam e montam seus produtos. Em contraste com a relacao interna de investimento estrangeiro direto que costumava tipificar as corporacoes transnacionais, nenhum fluxo anual de lucros repatriados e gerado pelos fornecedores "independentes" da Apple.
A interpretacao padrao das estatisticas economicas, que registram os resultados das transacoes no mercado, pressupoe que a fatia do preco de venda final do iPhone capturada por cada empresa norte americana ou chinesa e identica ao valor agregado que cada uma supostamente contribuiu. Eles nao revelam nenhum sinal de qualquer fluxo de lucro transfronteirico ou transferencia de valor afetando a distribuicao de lucros para a Apple e seus varios fornecedores. A unica parte dos lucros da Apple que parece ser originaria da China sao os resultantes da venda de seus produtos naquele pais.
De acordo com a interpretacao padrao dos dados economico, como disse Marx, o valor das mercadorias "parece nao apenas ser realizado apenas na circulacao, mas na verdade surgir a partir dela". E assim o fluxo de riqueza dos chineses e de outros trabalhadores de baixas rendas, sustentando os lucros e a prosperidade das empresas e nacoes do norte, torna-se invisivel nos dados economicos e nos cerebros dos economistas.
Os produtos da Apple e da Dell, Motorola e outras empresas norte americanas e europeiasm sul coreanas e japonesas sao montadas pela Foxconnm a principal subsidiaria da Hon Hai Precision Industries, com sede em Taiwan. Os um milhao de funcionarios da Foxconn montam "cerca de 40% dos eletronicos consumidos no mundo", de acordo com o New York Times.[2] Seu complexo de quatorze fabricas em Shenshen no sul da China, tornou-se mundialmente famoso tanto por seu tamanho como por uma onda de suicidios entre seus trabalhadores em 2010.
A forca de trabalho da Foxconn em Shenzhen atingiu o pico naquele ano em cerca de 430.000 trabalhadores e atualmente esta sendo reduzida em favor de fabricas montadas em outras partes ds China. Em Janeiro de 2012, o presidente da Hon Hai, Terry Gou, provocou uma tempestde de fogo com sua observacao, durante uma visita ao zoologico de Taipe, que "como os seres humanos tambem sao animais, administrar um milhao de animais me da dor de cabeca" seguido de um pedido ao zelador para obter conselhos sobre como lidar com seus animais" Want China Times comentou:- " Gou poderia ter escolhidos suas palavras com mais cuidados...as condicoes de trabalho e de vida [nas enormes fabricas chinesas da Foxconn] sao tao ruins que muitos de seus funcionarios chineses poderiam concordar que realmente sao tratados como se fossem animais.".[3]
iPOD E iPHONES
O iPhone da Apple e produtos relacionados sao "mercadorias globais" prototipicas, o resultado da coreografia de uma imensa diversidade de trabalhos concretos de trabalhadores em todos os continentes. Contidas em cadsaa dispositivo portatil estao as relacoes sociais do capitalismo global contemporaneo. O exame de quem fabrica esses produtos e de quem lucra com eles revela muitas coisas. O mais impressionante e significativo deles e a enorme escala da mudanca dos processos de producao para as nacoes de baixos salarios e, correspondente a isso, a dependencia muito maior de empresas governos na America do Norte, Europa e Japao dos superlucros obtidos do trabalho vivo desses paises.
A pesquisa sobre o iPod da Apple, publicada em 2007 por Greg Linden, Jason Dedrick e Kenneth, e particularmente valiosa porque revela duas coisas ausentes em muitos estudos mais recentes do iPhone: 1. seu estudo quantifica o trabalho vivo diretamente envolvido nos design, producao, transporte e vendas dos iPods; e tambem relata 2. os salarios muito diferentes recebidos por esses diversos grupos de trabalhadores.[4]
Em 2006, o iPod de 30gb da Apple foi vendido a US$299, enquanto o custo total de producao, realizado inteiramente no exterior, foi de US$144,40, dando uma margem de lucro bruto de 52%. O que Linden, Dedrick e Kraemer chamam de "lucro bruto", os outros US$154,60 e dividido entre a Apple, seus varejistas e distribuidores e - por meios de impostos sobre vendas, lucros e salarios - o governo. Tudo isso, 52% do preco final de venda, e contabilizado como suposto valor agregado gerado nos EUA e contribui para o PIB dos EUA. Eles tambem descobriram que "o iPod e seus componentes foram responsaveis por cerca de 41.000 empregos em todo o mundo em 2006, dos quais cerca de 27.000 estavam fora dos EUA e 14.000 nos EUA. Os empregos offshore sao principalmente na fabricacao de baixos salarios.[5]
Apenas trinta dos 13,920 trabalhadores norte americanos eram trabalhadores da producao (recebendo em medias $47.640 por ano); 7.789 eram trabalhadores do "varejo e outros nao profissionais" (cujo salarios medios sao $(25.580 por ano); e 6.101 eram trabalhadores "profissionais", ou seja, gerentes e engenheiros envolvidos em pesquisas e desenvolvimento. Esta ultima categoria capturou mais de 2/3 do total da folha de pagamento nos EUA, recebendo em media US$85.000 por ano. Enquanto isso, 12.550 trabalhadores chineses recebiam US$1.540 por ano, ou seja $30 por semana - apenas 6% dos salarios medios dos trabsalhadores dos EUA no varejo, 3,2 por cento dos trabalhadores da producao nos EUA e 1,8% dos salarios dos trabalhadores profissionais dos EUA[6] O numero de trabalhadores empregados em atividades relacionadas ao iPod era semelhantes nos EUA e na China, mas a folha de pagamento total nos EUA era de US$719 milhoes e a folha de pagamento total na China era de US$19 milhoes.
Um estudo publicado pelo Banco de Desenvolvimento Asiatico (ADB) em 2010 relatou o produto mais recente da Apple, revelando uma marcacao ainda mais espetacular. "Os iPhones foram introduzidos no mercado dos EUA em 2007 com grande alarde, vendendo cerca de 3 milhoes de unidades nos EUA em 2007, 5.3 milhoes em 2008 e 11.3 milhoes em 2009" O custo total de fabricacao de cada iPhone foi de US$178,96 e vendido por $500, gerando um lucro bruto de 64% a ser compartilhado entre entidades como a Apple, seus distribuidores e o governo dos EUA, todos os quais aparecem como "valor agregado" gerado nos EUA. O foco principal deste relatorio foi o efeito da producao do iPhone no deficit comercial Estados Unidos-China, descobrindo que "a maior parte do valor das exportacoes e o deficit devido ao iPhone sao atribuidos a pecas e componentes importados de terceiros paises.[7] Assim mais de 96% do valor de exportacao do iPhone e composto de componentes reexportados fabricados em terceiros paises, todos contando como exportacoes chinesas para os EUA, enquanto nnenhum deles para o PIB da China. Os autores nao investigaram em detalhes como esses lucros brutos sao compartilhados entre a Apple, fornecedores de servicos e o governo dos EUA, mas dificilmente podem evitar comentar sobre seu tamanho espetacular, observando que se "o mercado fosse ferozmente competitivo, a margem de lucro esperada seria muito menor...O aumento nas vendas e a alta margem de lucros sugerem que ...a Apple mantem uma posicao de monopolio relativo...E o comportamento de maximizacao dos lucros da Apple, e nao a concorrencia, que leva a Apple a ter todos os iPhones montados na RPC,"[8]
Isso leva os pesquisadores do ADB imaginar um cenario em que a Apple transferisse a montagem de iPhones para os EUA. Eles presumem que os salarios nos EUA sao dez vezes maiores do que na China e que esses hipoteticos operarios de montagem dos EUA trabalhariam tao intensamente quanto os operarios da Foxconn; calculam que "se os iPhones fossem montados nos EUA, o custo total de montagem subiria para nos $65 (de $6,50 na China, e) ainda deixariam uma margem de lucro de 50% para a Apple."[9] e terminam apelando a Apple mostrar alguma "responsabilidade social corporativa" "desistindo" de uma pequena porcao dos lucros e os dividindo com trabalhadores qualificados dos EUA"[10] - Eles poderiam tambem sugerir que a Apple de um impulso muito necessario a demanda na economia chinesa, compartilhando sua pilha de $110 bilhoes em dinheiro entre os trabalhadores da Foxconn.
O iPhone da Apple exibe tendencias gerais e relacionamentos fundamentais, mas de uma forma exagerada e extrema. A Hon Hai obteve US$2,4 bilhoes em lucros em 2010, ou US$2.400 por funcionarios, em comparacao com US263.000 em lucros obtidos pela Apple para cada um de seus 63.000 (43.000 dos quais estao nos EUA); espera-se que esse numero aumenta para US$405.000 em 2012. Em 11 de marco de 2011, o preco das acoes da Hon Hai avaliou a empresa em US$36,9 bilhoes; enquanto isso, a Apple, sem uma fabrica em seu nome, foi avaliada em US324,3 bilhoes." O preco das acoes da Apple disparou desde entao, sua capitalizacao de mercado quase dobrando para cerca de US600 bilhoes, ultrapassando a Exxon e se tornando a empresa mais valiosa do mundo.Aumentando ainda mais o preco de suas acoes, ela acumulou um enorme estoque de dinheiro de US$110 bilhoes para o qual nao tem uso produtivo.
Enquanto isso, no que um estudo chamou de "paradoxo da miseria da montadora e da riqueza da marca", os lucros e o preco das acoes da Hon Hai foram apanhados nas pincas do aumento dos salarios chineses, concedidos em face da crescente militancia dos trabalhadores e requisitos contratuais cada vez mais onerosos a medida que a sofisticacao crescente dos produtos da Apple (e de outras empresas) aumenta o tempo necessario para a montagem."[12]
Enquanto o preco das acoes da Apple tenha subido mais de dez vezes desde 2005, entre outubro de 2006 e janeiro de 2011, o preco das acoes da Hon Hai despencou quase 805. O Financial Times relatou em Agosto de 2011 que "os custos por funcionarios (aumentaram) exaramente um terco, ano a ano, para pouco menos de US$2.900. A conta total da equipe foi de US$272 milhoes: quase o dobro do lucro bruto...o aumento dos salarios no continente ajudou a impulsionar a margem operacional consolidada do maior fabricsnte mundial de dispositivos eletronicos... de 4-5% ha 10 anos para uma faixa de 1-2% agora."[13]
Em busca de mao de obra mais barata e para reduzir a dependencia da forca de trabalho cada vez mais agitada de Shenzhen, o colunista do Financial Times Robin Kwong relata que Hon Hai "investiu pesadamente no deslocamento da producao das areas costeiras da China para o interior e esta em processo de aumentar a automacao em suas fabricas. Como resultado, a Hon Hai no ano passado viu suas margens ja estreitas encolherem ainda mais."[14] A combinacao de aumento acentuado dos salarios, pesados gastos de capital e cortes implacaveis de custos por parte de empresas como a Apple e ruim o suficiente, mas o pior de tudo e a doenca cronica em que cairam os principais mercados de exportacao da Hon Hai e da China. Kwong conclui: nao e dificil ver porque a ultima coisa de que Gou precisa agora, depois de construir todas aquelas fabricas no interior, e uma desaceleracao na demanda".[15]
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